quarta-feira, 3 de maio de 2017

Como Fazer Boa Figura em Bancas Examinadoras Mesmo Sem Ter Lido Nadinha de Nada

Vou logo dizendo que a reprodução deste singelo texto não está autorizada, seja por que meio for, nem agora nem nunca.

Na verdade, minha intenção ao escrevê-lo foi tão somente contribuir com colegas que, assim como eu, não têm muito tempo e já estão cansados de participar de bancas examinadoras. Não será nada útil aos jovens professores, primeiramente porque eles, em geral, possuem tempo de sobra para ler e avaliar todo tipo de trabalho e, depois, porque muito raramente são convidados a fazê-lo.

Talvez a dica mais importante seja a seguinte: tente ser o último examinador a falar. Sim, essa é uma dica preciosa, pois, enquanto os outros discursam, você terá tempo de folhear o trabalho e formular questões interessantes. Uma pequena dificuldade pode ser a praxe acadêmica de sugerir que o exame comece pelos convidados externos à instituição organizadora e, dentre eles, pelo que possuir o título de doutor há mais tempo. Se for necessário, o jeito é cochichar ao ouvido do presidente da banca e pedir para ficar por último. Para evitar que a sugestão pareça malandragem, é conveniente acrescentar que o seu objetivo é simplesmente ser gentil com os mais novos.

Quando chegar a sua hora de falar, é importante começar com a frase: “Li o seu trabalho”. Sim, essa frase é essencial, pois deixa claro que você é um examinador sério, meticuloso. Depois, pode ser o caso de fazer dois ou três elogios genéricos, do tipo “você escreve muito bem” ou “achei o seu tema bastante relevante”.

É muito recomendável gastar alguns minutos com os cumprimentos aos outros integrantes da banca, ao candidato e aos demais presentes, dizendo, em seguida, que, dado o “adiantado da hora”, não poderá apresentar todos os seus argumentos. 

Mas, de todas as estratégias, a mais certeira é dizer que as questões que você havia preparado já foram formuladas pelos outros examinadores. Para não ficar muito sem graça, é suficiente retomar um ou dois tópicos e pedir ao candidato esclarecimentos adicionais. Garanto que sempre funciona. Já fiz isso inúmeras vezes.

Pode ser, no entanto, que o procedimento anterior pareça muito simples e não seja adequado para quem deseja mostrar argúcia e sofisticação. Nesse caso, posso sugerir táticas complementares.

Uma delas é criticar o título. Como? Se for extenso, diga que não é muito atraente para o leitor mais apressado. Se for pequeno, diga que não permite a exata compreensão do objeto.

Em seguida, passe ao sumário. Se for daqueles bem pormenorizados, diga que compromete o fator surpresa. Se for sintético, diga que dificulta a localização dos assuntos.

Verifique as notas de rodapé. Se houver muitas, diga que atrapalha a fluidez da leitura. Se houver poucas, diga que é preciso dar mais opções de aprofundamento ao leitor.

Dê uma olhada nas citações diretas. Se forem muitas, diga que o candidato deveria cuidar de reproduzir as ideias com suas próprias palavras. Se forem poucas, diga que é um grande risco assumir ideias alheias como se fossem próprias.

Pule para as referências bibliográficas. Tente identificar um autor que já escreveu sobre o mesmo tema e que não foi citado. É prova de grande erudição advertir o candidato pelo equívoco de não utilizar esse ou aquele texto. Nesse momento, pode ser interessante, inclusive, adotar um tom mais ácido e, talvez, até irônico.

Além do que já foi dito, sugiro que você tente fechar a arguição com chave de ouro. Uma boa opção é simplesmente dizer, com ar de superioridade, que a função de examinador exige postura rígida e exigente, mas que, na verdade, o objetivo de suas observações foi apenas o de contribuir com o trabalho.

Também é possível pensar numa citação de um autor famoso, tipo Ruy Barbosa ou Clovis Bevilaqua. Pode ser interessante ter sempre consigo um bom número de frases para esse propósito.

Enfim, eram essas as ideias, muito singelas, é verdade, que gostaria de compartilhar com os nobres colegas. Espero que sejam úteis, afinal, como já dizia o grande Machado de Assis, tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

3 comentários:

Anônimo disse...

Giordano, você é magistral!

Thiago Noce disse...

Giordano, você é fera demais. Já assisti a muitas defesas, umas por interesse, outras por necessidade de horas complementares, outras porque ainda não existia smartphone. Mas em quase todas tinha mesmo esse tipo acadêmico que você (d)escreve. O Machado de Assis era outro heterônimo de Fernando Pessoa ? :D Abraço!

Kelly Esteves disse...



Este autor, Giordano Bruno, é fantástico ! Gostaria de conhecê-lo um dia! 😊