Seguramente, corrigir provas é a tarefa mais terrível do magistério. Talvez, por isso, alguns professores têm o hábito de adiá-la o quanto possível.
Eu sou um deles.
Agora, por exemplo, há dois pacotes de prova em cima da minha mesa. Eles estão me olhando, sérios, aborrecidos, enquanto eu me divirto escrevendo esse texto.
E, amanhã, quando os alunos me perguntarem novamente pela prova, talvez eu utilize a resposta padrão:
- "Infelizmente, minha máquina de corrigir provas está com defeito e, dessa vez, vou ter que corrigi-las manualmente. Isso pode demorar alguns dias".
Mas, e se existisse mesmo a máquina de corrigir provas?
Quanto trabalho não seria evitado? Quanto tempo não sobraria para ler Guimarães Rosa e Caio Mário?
Mas, se existisse a tal máquina, o preço da novidade a colocaria fora do alcance de boa parte dos professores.
Sobreviveria, portanto, o método manual, demorado e aborrecido.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
domingo, 29 de maio de 2011
10 ANOS DE MAGISTÉRIO
Entre o final de maio e o início de junho de 2001, não sei exatamente em que dia, comecei a dar aulas na Faculdade de Direito da UFMG.
Há 10 anos, portanto.
O professor, que era substituto, sofrera um grave problema de saúde e não havia ninguém para assumir a turma. Por indicação do César Fiuza, meu orientador, o Departamento resolveu me convidar para concluir o semestre, como voluntário.
Então, lá estava eu, com seis meses de formado, dando aula de Direito de Família, no 10º período, numa Escola completamente desconhecida pra mim.
Eu, o substituto do substituto.
O semestre terminou e, nas férias, fiz o concurso para professor substituto. Aprovado, exerci por dois anos a função. Depois, no início de 2004, fui aprovado no concurso para professor efetivo e, desde então, permaneço no cargo, em regime de dedicação exclusiva.
No início, a insegurança por pouco não me paralisava. De todos os meus temores, o principal era ver a matéria preparada terminar antes do final do horário. Também me assustavam a possibilidade de aparecer uma pergunta para a qual eu não tinha nem um começo de resposta e o risco de dar um branco total no meio da exposição.
Com a primeira turma e, desde então, tenho procurado fazer o que recomendo a todos os iniciantes: seja honesto, não tente esconder suas fragilidades, mas fale abertamente sobre elas. O que os alunos não toleram é a incompetência associada à arrogância.
Também, desde a primeira turma, tenho pedido aos alunos que me avaliem ao final do semestre. É claro que já tive momentos de profunda tristeza com certo excesso de sinceridade e também com observações que me pareceram injustas. Mas aprendi muito com isso.
Do início até aqui, muita coisa mudou. Quase tudo, na verdade. Mas o que sinto em relação ao magistério permanece inalterado: espanto, sofrimento, angústia, esperança.
Há 10 anos, portanto.
O professor, que era substituto, sofrera um grave problema de saúde e não havia ninguém para assumir a turma. Por indicação do César Fiuza, meu orientador, o Departamento resolveu me convidar para concluir o semestre, como voluntário.
Então, lá estava eu, com seis meses de formado, dando aula de Direito de Família, no 10º período, numa Escola completamente desconhecida pra mim.
Eu, o substituto do substituto.
O semestre terminou e, nas férias, fiz o concurso para professor substituto. Aprovado, exerci por dois anos a função. Depois, no início de 2004, fui aprovado no concurso para professor efetivo e, desde então, permaneço no cargo, em regime de dedicação exclusiva.
No início, a insegurança por pouco não me paralisava. De todos os meus temores, o principal era ver a matéria preparada terminar antes do final do horário. Também me assustavam a possibilidade de aparecer uma pergunta para a qual eu não tinha nem um começo de resposta e o risco de dar um branco total no meio da exposição.
Com a primeira turma e, desde então, tenho procurado fazer o que recomendo a todos os iniciantes: seja honesto, não tente esconder suas fragilidades, mas fale abertamente sobre elas. O que os alunos não toleram é a incompetência associada à arrogância.
Também, desde a primeira turma, tenho pedido aos alunos que me avaliem ao final do semestre. É claro que já tive momentos de profunda tristeza com certo excesso de sinceridade e também com observações que me pareceram injustas. Mas aprendi muito com isso.
Do início até aqui, muita coisa mudou. Quase tudo, na verdade. Mas o que sinto em relação ao magistério permanece inalterado: espanto, sofrimento, angústia, esperança.
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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
O QUE VOCÊ VÊ DA JANELA DA SALA DE AULA?
A Faculdade de Direito da UFMG tem um prédio utilizado quase que exclusivamente para as aulas da graduação. À exceção dos quatro primeiros andares, todos os outros, do 5º ao 14º são reservados para essa finalidade. De uns tempos pra cá, o modo de distribuição das turmas foi alterado. Antes, cada turma ocupava um andar, do início ao fim do curso. Agora, os calouros começam no 14º andar e vão descendo um andar por semestre. A mudança aconteceu para facilitar a vida dos mais veteranos, permitindo-lhes chegar ao local das aulas sem passar pelo suplício de ter que utilizar um dos três elevadores que servem – ou deveriam servir – ao prédio. Nunca imaginei que esse fato escondesse algum segredo. Mas um aluno, o Celso Bittar Junior, me fez pensar no assunto. Segundo ele, há um forte simbolismo no fato de começar o curso de Direito no 14º andar e terminá-lo dez andares a baixo. É que os estudantes, à medida que avançam nos estudos, semestre após semestre, perdem o amplo horizonte que possuíam, abandonam os sonhos e as aspirações mais idealistas, e se voltam progressivamente para questões mais concretas, como obter um bom estágio, ter boas notas, e estar preparado para passar num concurso público, isso para não falar dos maus hábitos que acumulam e da arrogância que, em geral, passa a acompanhá-los.
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terça-feira, 14 de dezembro de 2010
A MORTE DO PROFESSOR
Não consigo parar de pensar no professor que foi morto por um aluno há exatamente uma semana.
Primeiramente, por uma razão óbvia: eu poderia ter sido a vítima.
Também sou professor universitário, também moro em Belo Horizonte, também me relaciono com muitos alunos, também corrijo provas...
Mas não é só isso. Fico pensando se esse evento não seria apenas o caso mais extremado de um ambiente de desvalorização do professor e do magistério.
Não sei. Pode ser um exagero pensar assim.
É possível que estejamos diante de um fato isolado, de um caso patológico, de uma explosão de ira que poderia ter ocorrido entre o passageiro e o taxista, entre o cliente e o garçom, entre o enfermo e o médico.
Mas o diabo é que mataram o professor. Mataram o professor! Mataram o professor!
Primeiramente, por uma razão óbvia: eu poderia ter sido a vítima.
Também sou professor universitário, também moro em Belo Horizonte, também me relaciono com muitos alunos, também corrijo provas...
Mas não é só isso. Fico pensando se esse evento não seria apenas o caso mais extremado de um ambiente de desvalorização do professor e do magistério.
Não sei. Pode ser um exagero pensar assim.
É possível que estejamos diante de um fato isolado, de um caso patológico, de uma explosão de ira que poderia ter ocorrido entre o passageiro e o taxista, entre o cliente e o garçom, entre o enfermo e o médico.
Mas o diabo é que mataram o professor. Mataram o professor! Mataram o professor!
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