domingo, 21 de janeiro de 2018

Devemos descobrir ou podemos inventar o sentido da vida?

Em relação ao sentido da existência humana, talvez seja bom começar com três possibilidades teóricas. Na primeira, acredita-se que simplesmente não há qualquer sentido e que são igualmente vãs as tentativas de descobri-lo ou criá-lo. Na segunda, acredita-se o sentido da vida é uma criação humana, individual ou coletiva, mas necessariamente humana, podendo variar, portanto, no tempo e no espaço. No terceiro, acredita-se que a vida tem um sentido verdadeiro, cabendo aos seres humanos apenas descobri-lo.

A primeira linha de pensamento, embora pareça elegante, não costuma se realizar na prática. Afirmar que a vida não tem sentido é mais fácil do que viver como se ela, de fato, não tivesse. Mesmo que não saibam ou não queiram articular com palavras, todos vivem em busca de algo, todos se organizam a partir de certos valores, todos possuem alguma ideia de vida boa, todos sabem reconhecer quando perdem algo precioso.

Assim, parece razoável resumir a controvérsia a dois campos: o dos que pensam que o sentido da vida é criado e o dos que pensam que o sentido da vida é descoberto.

No primeiro, a liberdade pode não ser total, pois, de alguma forma, todos nós percebemos que uns caminhos são melhores que outros. Acharíamos estranho, por exemplo, que nos dissessem que pais não devem corrigir filhos pequenos, que filhos não devem cuidar dos pais na velhice, que pessoas saudáveis não devem ajudar a prover o próprio sustento, que enfermos não devem receber cuidados especiais ou que promessas não devem ser cumpridas. Certas realidades parecem excessivamente estáveis e se colocam fora do âmbito de atuação da vontade humana. Mesmo para quem acredita no poder de criar um sentido original para a vida, há limites difíceis de transpor, desde que não se abdique de níveis mínimos de saúde mental e de harmonia na convivência entre pessoas.

Por outro lado, no segundo campo, a liberdade pode não estar completamente ausente, pois, mesmo havendo um sentido último para as coisas, a visão humana só o poderia alcançar de modo parcial, deixando amplo espaço para escolher o que fazer e como fazer.

De todo modo, seja para criar um sentido que organize a vida, seja para descobrir, as pistas podem ser úteis. No primeiro caso, para revelar o que toca mais intensamente o coração ou pode satisfazer as necessidades mais profundas. No segundo, para ajudar no processo de discernimento, de busca. 

Por isso, nos próximos textos, indicarei uma série de exercícios para ajudar a refletir sobre o sentido da vida ou, de modo bem mais restrito, a meditar em coisas como vocação, trabalho, carreira.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Onde obter pistas sobre vocação?

No último texto, prometi ajudar na árdua tarefa de descobrir pistas sobre vocação. Mas acabei percebendo que ainda não é a hora de fazer isso. Antes, precisamos conversar sobre alguns pontos. E o primeiro tem a ver com as dimensões do nosso campo de investigação. Dito de outro modo, será necessário um esforço conjunto para descobrir qual é, afinal, o tamanho do mundo em que habitamos. A boa notícia é que parece possível resumir todas as alternativas em apenas duas respostas básicas, o que significa que cada um de nós estará inevitavelmente em um desses campos, e apenas em um. Mas a notícia ruim é que os habitantes desses dois territórios não são muito acostumados a dialogar.  

Sem nenhuma intenção polêmica, C. S. Lewis começa o seu belíssimo “Milagres” com a seguinte distinção: “Alguns acreditam que não existe nada além da Natureza. Chamo essas pessoas Naturalistas. Outros julgam que além da Natureza existe algo mais. Denomino-os Sobrenaturalistas”. 

Um pouco mais adiante, com a clareza habitual, o autor de “As Crônicas de Nárnia” tem o cuidado de oferecer as seguintes explicações adicionais:

O Naturalista acredita que um grande processo de “formação” existe “por conta própria” no espaço e no tempo e que não existe nada além disso. O que chamamos coisas e acontecimentos específicos são apenas partes nas quais analisamos o grande processo em determinados momentos e locais no espaço. A essa realidade única e total ele chama Natureza. O Sobrenaturalista acredita que uma Coisa existe por conta própria e produziu a estrutura do espaço, do tempo e da progressão dos acontecimentos sistematicamente interligados que os preenche. Ele chama Natureza a essa estrutura e a esse preenchimento. Ela pode ou não ser a única realidade que a Coisa Inicial produziu. É possível que haja outros sistemas além daquele a que chamamos Natureza.

Assim, deve ficar claro que, para os naturalistas, as pistas para a descoberta de uma vocação somente podem ser encontradas nos limites da Natureza, já que, no seu modo de compreender, toda a realidade se esgota em seu interior, enquanto que, para os sobrenaturalistas, as pistas podem estar para além da Natureza ou podem ter sido nela dispostas por aquela Realidade Última de que tudo deriva.

Trocando em miúdos, um ateu e um cristão, por exemplo, ficariam inevitavelmente constrangidos a buscar estratégias diferentes para descobrir o tipo de atividade a que se dedicar. Vocação, para o primeiro, não poderia se referir a Deus, em cuja existência não acredita, mas apenas aos próprios desejos e aptidões. Para o segundo, vocação poderia ser entendida como uma espécie de convite feito por Deus. 

Aliás, esse tipo de distinção parece nos conduzir a uma outra pergunta, que pretendo analisar no texto seguinte.

De todo modo, as ideias que apresentarei ao longo de toda a série podem ser úteis para naturalistas e sobrenaturalistas e, conforme espero, também podem ajudar no diálogo respeitoso e alegre entre pessoas com distintas formas de ver o mundo.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Sherlock Holmes e o planejamento de carreira

Pistas. Os grandes detetives veem pistas onde as pessoas comuns não enxergam nada de especial. O segredo não está nas coisas, obviamente, mas nos olhos de quem vê. 

O Dr. Watson não se cansava de celebrar a habilidade de seu companheiro na descoberta de pistas nos lugares mais improváveis. E o grande Sherlock explicava: “Você vê, mas não observa” ou “Talvez eu tenha me exercitado para ver o que outras pessoas deixam passar”.

Guilherme de Baskerville, personagem de Umberto Eco em “O Nome da Rosa”, também impressionava pelo poder de observação. Ainda na estrada, ao encontrar o despenseiro da Abadia, acompanhado de “um agitado punhado de monges e fâmulos”, na perseguição ao cavalo favorito do abade, disse, sem ter visto o animal, não somente o lugar onde se encontrava, mas também a cor do pelo, a altura, o tamanho da cabeça, a largura das orelhas, o formato dos cascos, o tipo de galope e, para suprema surpresa de todos, até o nome do fugitivo. Quando seu companheiro pediu a explicação da façanha, a resposta foi a seguinte: “Meu bom Adso, durante toda a viagem tenho te ensinado a reconhecer os traços com que nos fala o mundo como um grande livro”. 

Observar, identificar traços, descobrir pistas, eis o trabalho de um detetive. Mas o que isso tem a ver com planejamento de carreira? Tudo, absolutamente. E eu explico.

Se eu não estiver enganado, é extremamente difícil encontrar alguém que saiba com clareza o tipo de atividade que deseja fazer, a sua verdadeira vocação, o seu lugar no mundo. Na maioria dos casos, as pessoas ou não têm nem mesmo consciência da pergunta ou sabem muito pouco sobre como achar a resposta. Daí o valor de poder identificar pequenas pistas. Por isso, nos próximos textos, pretendo sugerir uma série de exercícios para ajudar nesse trabalho de investigação. Aos leitores, naturalmente, caberá a tarefa de treinar os olhos para ver.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Estudantes universitários e planejamento de carreira

Imagine uma sala de aula com cinco alunos. O objetivo do curso é dar noções básicas de hebraico. O primeiro deseja frequentar as aulas para fazer novos amigos. O segundo pretende aprender o idioma para ler passagens bíblicas no original. O terceiro espera conhecer um pouco da cultura judaica. O quarto planeja utilizar o aprendizado em sua próxima viajem a Israel. E o quinto simplesmente não sabe o que está fazendo ali. 

Parece razoável supor que as aulas farão sentido para os quatro primeiros alunos e serão um completo desperdício para o último. 

A mesma lógica vale para os cursos universitários. Só faz sentido estudar Direito, Medicina ou Letras, por exemplo, se o investimento estiver ligado aos objetivos do estudante. Um pode estudar Direito com o propósito de fazer concurso para a magistratura. Outro, porque deseja enriquecer sua atividade empresarial. Um pode fazer Medicina para se tornar cirurgião. Outro, para seguir carreira acadêmica. Um pode cursar Letras para trabalhar no ensino de línguas estrangeiras. Outro, porque deseja se aventurar no mundo da literatura. Os objetivos podem variar ao infinito, podem ser mais românticos ou mais pragmáticos, podem estar claros ou um tanto confusos, mas o certo é que não dá para dispensá-los. É assim nos cursos universitários. É assim em tudo o que fazemos. 

Então, para quem deseja iniciar um curso superior ou para quem já iniciou, é importante pensar no modo como ele se relaciona com a vida, os objetivos, a missão, o propósito, enfim, com tudo o que é importante. 

E pra quem não sabe exatamente aonde vai, pode ser o momento de parar e pensar. Não que seja possível antever tudo e fazer planos rigorosamente precisos. Mas dá pra enxergar nem que seja um pouco e, assim, fazer escolhas mais consistentes.

Para ilustrar a importância do tema, o professor Marcelo Galuppo costuma citar um delicioso diálogo de “Alice no País das Maravilhas”, que reproduzo com pequenas alterações:

ALICE - Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para sair daqui?
O GATO - Isso depende bastante de onde você quer chegar. 
ALICE - O lugar não me importa muito.
O GATO - Então não importa que caminho você vai tomar.
ALICE - … desde que eu chegue em algum lugar.
O GATO - Oh, você vai certamente chegar a algum lugar, se caminhar bastante.

A partir de hoje, numa série de pequenos textos, pretendo falar sobre planejamento de carreira, começando com sugestões para ajudar a descobrir o que é realmente importante, inspiradas em alguns dos mais famosos detetives da história. Mas isso já é assunto para a próxima conversa. Até breve!