sábado, 3 de dezembro de 2016

No fundo, no fundo, amo vocês


Nos últimos dias, escrevi textos bem duros. Um protesto contra a preferência pelas aulas expositivas. Um desabafo a respeito do sistema tradicional de avaliação. E sobrou até para os monitores e a monitoria. 

Mas na base de tudo isso, há umas ideias que preciso indicar.

Eu acredito na possibilidade de construção autônoma do conhecimento. Na verdade, se o estudante não participar ativamente do processo, haverá tudo, menos aprendizado. O que pode ficar para a vida é somente o que foi ativamente assumido e criativamente reelaborado. Tratar adultos como se fossem crianças não é uma forma de respeito ou carinho. Eu me recuso a utilizar as prerrogativas do cargo para obrigar os estudantes a fazer isso ou aquilo. Prefiro admitir que não façam e, depois, experimentem as consequências de suas escolhas.

Eu creio no talento dos estudantes universitários. O que me entristece, na verdade, é ver tanto potencial desperdiçado. Se imaginasse que fossem incapazes, poderia admitir a ideia de tomá-los pelas mãos e conduzi-los. Mas creio sinceramente no brilho e na inteligência dos meus alunos. Sinto apenas que eles acabam traçando, em muitos casos, objetivos excessivamente limitados.

Eu penso que o papel do professor universitário não é ensinar. No máximo, cabe a ele construir situações de aprendizagem, que podem ser entendidas como obstáculos, cuidadosamente planejados, para que os estudantes, no esforço de superá-los, possam construir o próprio aprendizado. Em outras palavras, os professores não fazem nada além de convites, que os estudantes podem livremente aceitar ou recusar.

Então, meus caros alunos, ao contrário do que pode parecer, no fundo, no fundo, amo vocês.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

E pra que serve a monitoria, afinal?

“Dar monitoria” é uma expressão muito comum na Faculdade de Direito da UFMG e significa a atividade em que o monitor, geralmente na véspera de uma prova difícil, explica os principais tópicos da matéria.

Se eu não estiver enganado, alunos e monitores adoram a iniciativa. Uns porque podem receber ajuda, sempre bem-vinda, nos momentos que antecedem a avaliação. Outros porque experimentam o raro prazer de se sentirem importantes.

Saindo da superfície, no entanto, o que a prática revela?

Em primeiro lugar, a centralidade do processo de avaliação na estrutura da educação superior, que a tudo sobrepuja e a tudo contamina. Os alunos, em geral, não solicitam “monitoria” porque desejam se aprofundar em determinado tema ou obter orientação sobre como conduzir uma investigação, mas simplesmente porque esperam encontrar o caminho das pedras.

Em segundo lugar, a crônica dependência das aulas expositivas. Para recuperar as informações que o professor ofereceu, por meio de aulas expositivas, agora, os estudantes escutam o que os monitores têm dizer, também por meio de aulas expositivas.

Numa estrutura em que o professor sabe tudo e os estudantes nada sabem, o monitor é o sujeito que “quase sabe” ou que já sabe um pouco e, portanto, está apto a "passar" adiante o conhecimento.

E a monitoria, praticada desse modo, contribui para a reprodução de um sistema profundamente viciado, em que o estudante foge da responsabilidade de dirigir a própria formação, com economia de esforços e sofrimento, é verdade, mas à custa de sua eterna menoridade intelectual. 

sábado, 26 de novembro de 2016

Sinceramente, não sei o que fazer

Acabei de ler o que os alunos escreveram sobre o andamento do semestre. Entre outras coisas, pedi que indicassem pontos positivos, pontos negativos e sugestões. Mas não sei como interpretar os dados. E o pior é que, sinceramente, não sei o que fazer.

Entre os pontos positivos, muitos estudantes mencionaram a utilização de novos métodos de avaliação, o caráter mais aberto e reflexivo das aulas e a maior liberdade para a construção das trajetórias acadêmicas.

No entanto, encontrei, entre outras, as seguintes frases:

“A liberdade de escolha em excesso pode ser mais prejudicial do que benéfica”.

“Apesar de considerar a prova uma coisa negativa, penso que é muito importante, pois força o aluno a estudar”.

“Em alguns momentos, faltou engajamento da turma, pois estamos acostumados com provas e damos menos importância para as demais atividades”.

“Sugiro a realização de ao menos uma prova com o conteúdo estudado”.

“Eu gostaria de realizar mais provas no método tradicional”.

“Sugiro aumentar o número de aulas expositivas”.

“A quantidade de aulas expositivas ficou aquém do necessário”.

“Sugiro mais aulas e atividades focadas na matéria em si”.

“Sugiro trabalhar mais os conceitos presentes no Código”.

“Senti muita falta do professor passar a matéria no quadro”.

“O professor deveria ter passado mais conhecimento para os alunos”.

“Senti falta do ensino dogmático tradicional”.

“O número de aulas alternativas foi muito frequente”.

“Senti falta do conteúdo de Direito Privado propriamente dito”.

“Faltou objetividade nas aulas teóricas”.

“Considero que, no caso do curso jurídico, ministrar o conteúdo de forma direta funciona melhor que do que ensinar por meio de dinâmicas”.

“Poucas aulas teóricas, falta de interesse do professor”.

“Faça chamada, professor!”.

Agora, estou aqui, sentado, de frente para o computador, pensando. 

Se o papel do professor é ensinar, meu desempenho deve ter sido um fracasso. Ensinei muito pouco.

Mas não estou seguro se esse é o papel do professor.

Guardo comigo a estranha mania de não desconectar meios de fins. Os fins, quando bons, devem ser obtidos por meios igualmente bons. Não consigo, por exemplo, achar que passar horas e horas estudando é uma coisa boa se, na base, está apenas o medo de ser reprovado. Não consigo ver a graça de ter a sala repleta de alunos simplesmente aguardando o momento de dizer que estão presentes.

Se estudo e participação resultam de escolhas verdadeiras, penso que são coisas boas. Mas não sei o que dizer quando nascem de outras fontes.

De todo modo, ao planejar o próximo semestre letivo, preciso meditar no papel do professor.

Sinceramente, não sei o que fazer.

Mas não estou triste. Nem preocupado. Só não sei o que fazer.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O Valor Pedagógico da “Cola”

A “cola” é uma instituição nacional. Em todos os níveis de ensino, alunos tentam realizar e professores tentam evitar a fraude nos processos de avaliação. Uns e outros desenvolveram, ao longo do tempo, as mais variadas técnicas para a obtenção dos fins desejados. Inovações tecnológicas, no entanto, produziram seus impactos também nesta dimensão do cotidiano, facilitando a vida de uns e dificultando o trabalho de outros.

Na minha vida de estudante, a “cola” nunca foi uma estratégia de relevo. Os colegas não me pediam, pois sabiam que eu não tinha muita habilidade para fazer a coisa com discrição. Eu mesmo não pedia, primeiro porque sempre achei desonesto e depois porque, em geral, confiava mais em mim do que nos outros. Também nunca me dei ao trabalho de preparar, com antecedência, aqueles arquivos secretos para consultar no momento da avaliação. Na verdade, mesmo sendo um aluno bastante faltoso e muito relapso em certas atividades escolares, nunca deixei de estudar o suficiente para evitar um vexame nas provas. Mas preciso confessar dois pecados, os únicos de que me lembro agora, ao pensar no tema. No ensino médio, precisando desesperadamente de uns pontinhos em Química, aceitei a colaboração de uma colega na avaliação final. E creio que isso foi decisivo para a obtenção do resultado positivo. Na graduação em Direito, tendo me ausentado num dia de prova, fiquei sabendo que uma colega havia obtido uma folha extra e feito uma prova com o meu nome. E não fiz nada para evitar a confirmação da fraude.

Na minha experiência como professor universitário, passei por algumas fases em relação ao tema. 

A primeira, própria de minha imaturidade, foi a de vigiar, com a máxima atenção, e punir, com o máximo rigor. Nesse tempo, eu tomava as tentativas de “cola” como ofensas pessoais. Algumas vezes, não conseguia conter a irritação. Em todas as abordagens, recolhia a prova e avisava, em público, que o infrator receberia nota “zero”. Estou seguro de que a neurose me levou a ser injusto com muitos alunos.

Na segunda fase, consciente da complexidade do tema e dos limites da posição inicial, passei a adotar condutas profiláticas, como, por exemplo, pedir para que os alunos mais agitados mudassem de lugar na sala de aula. Nas abordagens, aos invés de sentenciar solenemente a nota “zero”, comecei a dizer, em tom mais ameno, que o estudante deveria realizar outra prova, uma vez que o primeiro método de avaliação não estava funcionando bem.

Antes de falar um pouco da fase atual, preciso dizer que as duas anteriores possuem caracaterísticas comuns. Nelas, eu sempre pressupunha que a “cola” era um ato de pura desonestidade intelectual. Em todas as avaliações, o que estava em jogo era a necessidade de verificar se os alunos haviam absorvido uma parte substancial do conteúdo estudado. E finalmente, eu compreendia que o meu papel, enquanto professor, era exatamente o de medir a quantidade de conteúdo apreendido pelos estudantes.

Hoje, muito embora continue achando que a "cola" sempre contém certa dose de desonestidade, faço a mim mesmo as duas perguntas que, agora, gostaria de compartilhar com estudantes e professores.

Em que medida a "cola", principalmente no ambiente universitário, não é um indicador seguro da ausência de autonomia dos estudantes na construção de sua trajetória acadêmica?

Em que medida a "cola", procedimento seguramente equivocado, não é também uma forma de protestar contra certos modos também equivocados de conduzir o processo de avaliação?