sábado, 4 de fevereiro de 2017

Saudação aos Calouros

Ato I

Cena I

Auditório da Faculdade Mundial e Internacional de Direito de Minas Gerais. (Entra o senhor doutor Diretor, acompanhado de uma Professora).

Diretor: Muito boa noite a todos! (Aplausos). Sejam benvindos à melhor faculdade de direito do País! (Aplausos). Isso mesmo, pela quinquagésima sétima vez consecutiva, o Jornal Folha de São Paulo considerou que a nossa faculdade é simplesmente a melhor do Brasil. (Aplausos). Um grande orgulho pra Minas Gerais e pra todos os mineiros. É preciso confessar uma coisa: esses paulistas sabem reconhecer o que é bom! Não que sejamos perfeitos. Não mesmo. Não é o caso. Por exemplo, ontem eu vi um pequeno risco na parede da sala 1475, coisa pequena, um risquinho de nada, e já mandei limpar, com urgência. Essas coisas acontecem. Mas estamos atentos. A gente sabe que é preciso buscar o aprimoramento contínuo. E estamos trabalhando nisso. Aproveito, inclusive, para anunciar, em primeira mão, que a faculdade acaba de adquirir pincéis atômicos de última geração, nas cores preto, vermelho e azul. (Aplausos). Os professores vão sentir logo a diferença. Ao contrário dos antigos, esses deslizam facilmente pelo quadro e, por conta de seu desenho especial, contribuem até para a caligrafia. Bom, mas vamos direto ao ponto. Estamos aqui para receber os nossos queridos calouros. Não se enganem, meus senhores: vocês fazem parte de uma pequena elite. (Aplausos). Muitos desejaram pisar esse solo quase sagrado, mas vocês estão aqui. E é isso que importa. O esfoço foi recompensado. O mérito foi reconhecido. A partir de agora, vocês entram para a história da melhor faculdade de Direito do mundo que, para nossa alegria, está sediada bem aqui, no coração das Minas Gerais. (Aplausos). Então, com imensa satisfação, eu passo a palavra à professora, a professora, bem a ilustre professora que está aqui ao meu lado, e que vai se apresentar a vocês.

Professora: Oi. Sejam benvindos. Quero compartilhar algumas ideias com vocês. Reconheço que elas podem destoar um pouco do clima festivo, mas minha consciência me obriga a fazê-lo. Em primeiro lugar, quero que saibam que aqui vocês vão estudar muita coisa que não é importante. Sim, grande parte dos tópicos que vocês serão obrigados a decorar não tem beleza, não tem utilidade e não tem nada a ver com a vida lá fora. Foram mantidos por inércia nas páginas envelhecidas do currículo. Ou simplesmente continuam sendo ensinados porque aparecem nas provas e nos concursos. (O Diretor faz gestos para o funcionário que controla a mesa de som). Em segundo lugar, quero que saibam que aqui vocês não vão estudar muita coisa que é verdadeiramente importante. (O Diretor gesticula cada vez com mais ênfase). Por exemplo, não esperem encontrar oportunidade de aprender coisas tão importantes quanto falar em público, trabalhar em equipe ou mediar conflitos. (O microfone da Professora para de funcionar).

Diretor: Então, meus queridos amigos, era isso que tínhamos para hoje. Sejam muito, mas muito benvindos à nossa Escola. Desfrutem de tudo que ela pode oferecer. De minha parte, saibam que creio no futuro brilhante de cada um de vocês! (Aplausos). Obrigado a todos. Obrigado à ilustre professora por suas palavras tão sábias e esclarecedoras. Obrigado a todos pela presença. Está encerrada a sessão. (Aplausos).

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A Grande Engrenagem

Às vezes, perco muito tempo pensando no papel das escolas e dos professores. Para que eles servem, afinal? 

Penso, por exemplo, na função que as faculdades de direito devem desempenhar. E sei que a resposta mais óbvia é formar profissionais para as várias carreiras jurídicas.

Mas o que isso significa, exatamente?

Que devemos fazer se as profissões jurídicas estão profundamente viciadas? Que devemos fazer se a própria sociedade a que servem ou a que deveriam servir também não dá sinais de grande vitalidade?

Estou seguro de que entregar os profissionais de que o mercado precisa é o maior desserviço que a universidade pode oferecer.

É obrigação da universidade pública frustrar falsas expectativas de seus alunos e de seus futuros empregadores.

Se for possível pensar no mundo como uma grande engrenagem, na escola como uma fábrica e nos alunos como peças que fazem a engrenagem girar, é nosso dever produzir peças disfuncionais, fora do padrão, com desenhos diferentes do modelo proposto. 

Se a engrenagem produz efeitos ruins, as peças que nós ajudamos a fabricar não devem fazê-la girar. Ao contrário, devem contribuir para atrapalhar o seu funcionamento.

No fim de tudo, é até possível que a engrenagem continue girando. Eu é que não quero dar a mínima contribuição para que isso aconteça.

sábado, 3 de dezembro de 2016

No fundo, no fundo, amo vocês


Nos últimos dias, escrevi textos bem duros. Um protesto contra a preferência pelas aulas expositivas. Um desabafo a respeito do sistema tradicional de avaliação. E sobrou até para os monitores e a monitoria. 

Mas na base de tudo isso, há umas ideias que preciso indicar.

Eu acredito na possibilidade de construção autônoma do conhecimento. Na verdade, se o estudante não participar ativamente do processo, haverá tudo, menos aprendizado. O que pode ficar para a vida é somente o que foi ativamente assumido e criativamente reelaborado. Tratar adultos como se fossem crianças não é uma forma de respeito ou carinho. Eu me recuso a utilizar as prerrogativas do cargo para obrigar os estudantes a fazer isso ou aquilo. Prefiro admitir que não façam e, depois, experimentem as consequências de suas escolhas.

Eu creio no talento dos estudantes universitários. O que me entristece, na verdade, é ver tanto potencial desperdiçado. Se imaginasse que fossem incapazes, poderia admitir a ideia de tomá-los pelas mãos e conduzi-los. Mas creio sinceramente no brilho e na inteligência dos meus alunos. Sinto apenas que eles acabam traçando, em muitos casos, objetivos excessivamente limitados.

Eu penso que o papel do professor universitário não é ensinar. No máximo, cabe a ele construir situações de aprendizagem, que podem ser entendidas como obstáculos, cuidadosamente planejados, para que os estudantes, no esforço de superá-los, possam construir o próprio aprendizado. Em outras palavras, os professores não fazem nada além de convites, que os estudantes podem livremente aceitar ou recusar.

Então, meus caros alunos, ao contrário do que pode parecer, no fundo, no fundo, amo vocês.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

E pra que serve a monitoria, afinal?

“Dar monitoria” é uma expressão muito comum na Faculdade de Direito da UFMG e significa a atividade em que o monitor, geralmente na véspera de uma prova difícil, explica os principais tópicos da matéria.

Se eu não estiver enganado, alunos e monitores adoram a iniciativa. Uns porque podem receber ajuda, sempre bem-vinda, nos momentos que antecedem a avaliação. Outros porque experimentam o raro prazer de se sentirem importantes.

Saindo da superfície, no entanto, o que a prática revela?

Em primeiro lugar, a centralidade do processo de avaliação na estrutura da educação superior, que a tudo sobrepuja e a tudo contamina. Os alunos, em geral, não solicitam “monitoria” porque desejam se aprofundar em determinado tema ou obter orientação sobre como conduzir uma investigação, mas simplesmente porque esperam encontrar o caminho das pedras.

Em segundo lugar, a crônica dependência das aulas expositivas. Para recuperar as informações que o professor ofereceu, por meio de aulas expositivas, agora, os estudantes escutam o que os monitores têm dizer, também por meio de aulas expositivas.

Numa estrutura em que o professor sabe tudo e os estudantes nada sabem, o monitor é o sujeito que “quase sabe” ou que já sabe um pouco e, portanto, está apto a "passar" adiante o conhecimento.

E a monitoria, praticada desse modo, contribui para a reprodução de um sistema profundamente viciado, em que o estudante foge da responsabilidade de dirigir a própria formação, com economia de esforços e sofrimento, é verdade, mas à custa de sua eterna menoridade intelectual.