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quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Você concorda com o fim do exame especial?

Pergunta enviada pelo representante de turma do 2º período:

Você concorda com o fim do exame especial?

Resposta do Professor Doutor (e Pós-Doutor) Lemos:

Se não estou enganado (e raramente estou enganado), o exame especial é aquela provinha que os artistas, quer dizer, os alunos fazem quando atravessam o semestre inteiro sem obter a pontuação mínima. É isso mesmo, né? Se eu acho que deveria acabar? Nunca deveria ter existido. 

Em primeiro lugar porque é uma prova e, se é uma prova, significa que o professor deve elaborá-la e corrigi-la. Tudo bem que monitores e estagiários de docência estão aí para esse tipo de coisa, mas é inegável que dá algum trabalho, sim.

Em segundo lugar porque pode servir como prêmio à malandragem. Veja bem, o artista, quer dizer, o aluno leva o semestre inteiro na flauta e, depois, faz o diabo para tirar boa nota numa única prova, usando, quase sempre, de artifícios que não convém sequer mencionar aqui. 

Em terceiro lugar porque favorece a cultura do mimimi. Se o professor já tiver decidido reprovar um artista, quer dizer, um aluno, é melhor aceitar que ele já está reprovado. Não será uma segunda, terceira, quarta, quinta ou sexta chance que vai mudar isso. E o exame especial pode ser apenas mais uma oportunidade para reclamações, choradeira e esses recursos inúteis. 

Então, muito embora tenha o peso que tem, por ser minha, é apenas uma opinião. Evidentemente, ninguém está obrigado a concordar. E ninguém será perseguido se discordar. Claro que não vou ficar de marcação com alunos que se manifestarem de modo contrário. Jamais utilizaria meu poder, por exemplo, para ferrar com um representante de turma que faz papel de engraçadinho. Academia é lugar de dissenso. Eu respeito opiniões alheias, mesmo quando elas não têm sentido algum.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Como vencer votações no Colegiado do Curso?

Pergunta enviada por um jovem professor:

Como vencer votações no Colegiado do Curso?

Resposta do Professor Doutor (e Pós-Doutor) Lemos:

Notei, caro colega, que você usou o verbo “vencer”. Então, aprenda logo a primeira lição: o importante não é vencer as votações. É simplesmente não perdê-las. Tudo bem. Imagino que a diferença não tenha ficado clara. Vou explicar. Vencer uma votação implica que ela tenha sido realizada e que você tenha obtido a maioria dos votos. No entanto, para evitar a derrota será suficiente que ela não se realize. E esse é o grande segredo. Se você tiver a mínima suspeita de que não tem os votos necessários, basta seguir as minhas dicas. Você pode até não vencer, mas nenhuma outra pessoa vencerá.

A primeira providência é controlar a formação da pauta. Se for possível, tire o tema de lá, simplesmente. Se não, tente ao menos colocá-lo mais para o final da reunião.

A segunda providência é, durante os debates, falar pelo maior tempo possível, de modo a vencer os colegas pelo cansaço. Na melhor das hipóteses, o tema será deixado para a reunião seguinte. Se isso não acontecer, no entanto, os colegas estarão tão exaustos que ficarão mais suscetíveis à manobra seguinte.

A terceira providência é causar confusão. O caminho mais fácil é acusar o presidente de agir com autoritarismo, de não garantir o seu direito de fala, enfim, de tentar censurar suas opiniões. Outra possibilidade, perigosa, mas eficaz, é sugerir sutilmente que alguém ali tem interesse pessoal na questão. Também costuma dar certo pisar no velho calo de um colega mais exaltado. Se um deles  tiver enfrentado acusação de plágio, por exemplo, a mais vaga referência ao assunto pode ser o suficiente. Se outro tiver fama de puxa-saco, simplesmente use palavras como “servilismo”, “subserviência” e “bajulação”. Aumentar o tom de voz, colocar o dedo em riste, interromper o presidente da sessão, entre outras, são atitudes que podem produzir o clima desejado.

Também é possível tentar, a qualquer momento, uma saída regimental. Pense em algo como localizar um vício no procedimento, sair da sala para impedir a manutenção do quorum ou o bom e velho pedido de vista.

Mas lembre-se, jovem colega, que todas essas informações só devem ser utilizadas a bem da instituição e como forma de proteger a democracia. As pessoas nem sempre sabem o que querem. E nem sempre querem o melhor. Às vezes, meu caro, é preciso intervir, mas só para garantir a preservação do bem comum.

Não gosto do professor de Empresarial. O que devo fazer?

Pergunta enviada por um estudante do 8º período:

Não gosto do professor de Empresarial. Ele é bem fraquinho. O que devo fazer?

Resposta do Professor Doutor (e Pós Doutor) Lemos:

Olha, infelizmente, na verdade, a ética profissional me impede de tratar a questão com a clareza de costume. Não posso correr o risco de criticar um colega. Você diz que ele é fraquinho. Tudo bem, que seja. Mas quem sou eu para falar disso? E não é porque ele é feio, cospe enquanto fala, diz “pobrema” ao invés de “problema”, falha mais que o ataque do Galo, não é por isso que ele é mau professor. Tente perceber suas qualidades mais profundas, aquelas tão escondidas que ninguém vê, que nem mesmo ele sabe que tem, e que talvez ele não tenha, de fato. Procure evitar que a turma faça abaixo-assinado para pedir a cabeça do nobre colega. Todo mundo sabe que a Coordenação do Curso não pensaria duas vezes, né? Então, vocês não deveriam fazer isso. Tudo bem que poderia vir um professor bem melhor, mais novo, com doutorado e tudo. Mas pensem no pobre coitado. Por mais tentador que seja, não alimentem esse tipo de ideia. E tem mais: vejam a matéria que ele é obrigado a lecionar! Ninguém merece! No século XIX, chamava-se Direito Mercantil. No século XX, Direito Comercial. E agora, Direito Empresarial. Francamente, como levar a sério uma disciplina que não sabe nem o próprio nome? E como esperar que os alunos se interessem por coisas tão estranhas quanto letras de câmbio, cheques, duplicatas e cédulas de crédito rural? Então, vou resumir para os que têm dificuldade de entender. O professor é ruim? É. Ou melhor, pode ser que seja. Mas quem sou eu para criticar um colega? Ou sugerir algo que o possa prejudicar? Não esperem isso de mim, meninos. Não vou cair nessa. Jamais. Definitivamente. 

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Dicas para brilhar em entrevistas e provas orais


Professor Lemos

Antes de tudo, é preciso esclarecer que não me dirijo aos que estudaram e, portanto, estão prontos para qualquer tipo de prova. Ao contrário, escrevo para os tímidos, os inseguros, os de inteligência limitada e, sobretudo, os preguiçosos. Na verdade, quando a palavra “dica” aparece no título, o texto só é procurado por aqueles que pretendem achar um atalho. A eles, portanto, é que me dirijo.

A primeira providência para se dar bem em entrevistas e provas orais é buscar informações sobre os integrantes da banca. Faça o melhor levantamento que puder. Descubra principalmente os gostos pessoais. Se um examinador for cruzeirense, não deixe de dizer, como quem não quer nada, que o Tostão é o melhor jogador de todos os tempos. Se outro tiver pendores socialistas, insira no discurso, com a máxima naturalidade, palavrinhas como “opressão”, “ideologia” e “superestrutura”. E se ainda outro apreciar música sertaneja, pense na possibilidade de usar cinturão de couro, com fivela arredondada, e cantarolar distraidamente canções de Sérgio Reis ou Luan Santana, conforme o contexto exigir.

Outra iniciativa promissora é tentar identificar se há alguma rivalidade entre os integrantes da banca e, depois, usar isso em benefício próprio. Posso afirmar que, em 80% dos casos, há questões mal resolvidas entre os colegas que participam da avaliação. E nos outros 20% dá para dizer que eles se odeiam. Por isso, eleger a linha teórica adotada por um e rechaçada por outro pode criar um desequilíbrio altamente benéfico. Desse modo, se um dos examinadores disser que o seu trabalho é um lixo, o outro ficará tentado a afirmar que você, na verdade, é um gênio.

Recomendações disfarçadas também costumar dar certo. Por isso, se você e um examinador tiverem conhecidos ou amigos em comum, não se esqueça de dizer: “fulano te mandou um abraço”.

Uma tática perigosa, mas que pode dar certo, é a da ameaça velada. Caso saiba de um fato que desabone a conduta do examinador, você pode utilizá-lo. E se não souber, é só procurar direitinho. Nada que o Google não resolva. O essencial é que você escolha as palavras com tanto cuidado que nenhum dos demais presentes desconfie de qualquer coisa, enquanto o destinatário da ameaça possa perceber claramente o perigo que tem diante de si.

A lamúria é uma técnica que também dá bons resultados. Se você tem uma história cheia de obstáculos, dê um jeito de tocar no assunto, de preferência com frases dramáticas, pronunciadas com voz embargada. Algumas lágrimas, desde que bem dosadas, podem tornar a cena perfeita. Agora, se você sempre viveu numa boa, estudou nos melhores colégios e sempre passou férias na Europa, fale de alguma dificuldade de momento, tipo uma gripe que não sara ou uma dor de coluna que você quase não suporta.

Eu não poderia terminar sem uma referência à tradicional arte da bajulação. Aos iniciantes, recomendo prudência. Utilizem doses seguras. Algumas frases que podem funcionar: “li o seu artigo e gostei muito”, “só entendi o assunto quando estudei o seu livro” e “a sua palestra me fez rever inúmeros conceitos”. Sugiro que só os mais experimentados se arrisquem em elogios pessoais, do tipo “gostei do novo corte de cabelo” ou “como você emagreceu!”. 

Todas as dicas são poderosas. E dificilmente dão errado. Por isso, caso não tenha sucesso ao utilizá-las, é possível que o seu caso seja muito grave. Mas sempre restará uma última providência, que é justamente reclamar do arbítrio dos examinadores.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Como redigir a epígrafe perfeita

Professor Lemos

 Bom xibom, xibom, bombom!
Bom xibom, xibom, bombom!
Bom xibom, xibom, bombom!
Bom xibom, xibom, bombom!
(As Meninas, 1999)

Neófitos sempre me perguntam sobre como redigir a epígrafe perfeita. Aliás, perguntar é o que os neófitos fazem melhor e, desse modo, revelam ao mundo toda a extensão de sua insensatez.

Perguntar pela epígrafe perfeita, no caso de um neófito, é perguntar pelo impossível. A perfeição é para os gênios. E genialidade não se ensina, não se aprende. Falarei, portanto, da epígrafe possível, na esperança de ser útil aos consulentes.

O segredo de uma epígrafe é escolher uma frase completamente incompreensível, o que se pode obter de dois modos. O primeiro é retirar do contexto uma frase compreensível, tornando-a, assim, suficientemente obscura. O segundo, e mais fácil, é escolher uma frase qualquer de um escritor incompreensível. E há autores especialmente apropriados ao propósito. Experimente, por exemplo, Lacan, Sartre, Derrida ou qualquer outro sujeito que jamais escrevia sem antes fumar ou beber alguma substância de procedência duvidosa.

A razão para escolher uma epígrafe misteriosa é óbvia. E se me dou ao trabalho de explicá-la é porque me dirijo a neófitos. Uma vez que é certo que todo gênio é um incompreendido, nada melhor que a obscuridade para simular genialidade que, como disse, é algo que não se ensina, não se aprende, mas com o que se nasce.

E talvez seja melhor um gênio simulado que um gênio de verdade, pois a genialidade é uma ilha num oceano de estupidez. O gênio é um solitário. Sua única forma de ter comunhão é escrever e, depois, ler o que escreveu. Somente consigo é que um gênio pode dialogar. Ninguém deveria aspirar à genialidade. Primeiro, porque é inútil. Depois, porque ser gênio não é fácil. E eu digo por experiência própria.

Uma epígrafe incompreensível, portanto, é o melhor que se pode fazer. Diante dela, o leitor, cansado de imaginar algum sentido razoável, desiste, sucumbe, desmorona, reconhecendo, assim, a estreiteza de sua capacidade intelectual, sem ter outra coisa a fazer senão confessar que está na presença de um gênio.

Post scriptum

Se você não sabe o que são os neófitos, isso significa que você é um deles. Nesse caso, consulte o dicionário, que é o livro que todo neófito deve ter sempre por perto. Saia de casa sem a carteira, o celular e o guarda-chuva, mas não ande sem o Aurélio, bom e velho.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Palestra inspiradora para estagiários de docência*

Professor Lemos

Sinto-me honrado com o convite para falar aos senhores sobre o trabalho do professor. De acordo com as informações que recebi da organização, os senhores são estagiários de docência e estão se preparando para o início do semestre. É isso mesmo, não é? Pois bem, foi-me dito que a minha fala deveria “inspirar os pós-graduandos para atuação no magistério jurídico”. Então, vamos lá, que essa é uma das coisas que eu faço melhor. 

A primeira ideia é: seja um bom estagiário hoje e torça para ter bons estagiários amanhã! Sim, porque ninguém aceitaria as tarefas do estágio se não soubesse que isso é por pouco tempo e sobretudo por conta da expectativa de logo ter os próprios serviçais. 

A segunda ideia é: mesmo que você já tenha sido aluno, jamais caia na conversa de um aluno! Todo cuidado é pouco com as historinhas que eles gostam de contar, principalmente para justificar o atraso nas aulas e a ausência em dias de prova. O melhor é trabalhar com a presunção de que falam mentira. E presunção iure et de iure, é bom que se diga.

A terceira é: não seja idiota a ponto de tentar ser melhor que o professor! É muito comum que estagiários de docência, cheios de uma espécie infantil de arrogância, queiram fazer gracinhas aos estudantes, procurando obter aprovação e admiração. E tudo com o indisfarçado propósito de diminuir a autoridade do professor. Não façam isso, meninos! Lembrem-se de que um dia vocês também poderão estar aqui no topo.

E a quarta e última ideia é: saiba que a regra de ouro é a de sempre fazer o menor esforço! É preciso ter cuidado com essas baboseiras da área de educação e com esses escritores piegas, do tipo Rubem Alves e Miracy Gustin. Se a gente fizesse tudo o que eles mandam, como sobraria tempo para trabalhar e ganhar dinheiro? Eles é que não sabem como o meu escritório toma tempo! Então, nada de inventar moda. O negócio é aula no gogó, prova fechada e um trabalho em grupo. 

Assim, concluo a minha conferência, certo de que inspirei todos os senhores. E olha que eu só pensei nessas ideias enquanto vinha para cá. Eu tenho muita facilidade. Improviso é o meu sobrenome. Um dia vocês podem fazer algo parecido, desde que estudem o quanto estudei, e somente se tiverem uma boa dose de sorte.

* Palestra proferida pelo Professor Lemos, no Seminário de Iniciação à Docência, organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Direito, em agosto de 2018.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Entrevista exclusiva com o Professor Lemos

Depois de muitas tentativas frustradas, finalmente, conseguimos uma entrevista exclusiva com o Professor Lemos, que é um dos candidatos à diretoria da Faculdade.

Jornal: Professor Lemos, em primeiro lugar...

Lemos: Desculpe, mas é Senhor Professor Pós-Doutor Lemos.

Jornal: Sim, claro, Senhor Professor Pós-Doutor Lemos, em primeiro lugar, agradecemos a disponibilidade de nos conceder a entrevista.

Lemos: Estou à disposição. Fiquem totalmente à vontade para perguntar. Nos próximos 15 minutos, estou inteiramente à disposição dos senhores.

Jornal: É verdade que o Senhor será candidato à direção da Faculdade?

Lemos: É.

Jornal: E o que o levou a tomar essa decisão?

Lemos: A História. Por conta de minha larga experiência, inclusive no plano internacional, tenho a exata medida da importância histórica desse tipo de escolha. Sei que o fato ficará registrado em páginas imorredouras. Por isso, resolvi me candidatar e, assim, ligar o meu nome ao nome da Faculdade. Tenho a certeza de que isso engrandecerá enormemente a história da instituição.

Jornal: E que outros benefícios a candidatura pode trazer?

Lemos: Aprendizado. O exercício de uma função pública é, antes de tudo, uma oportunidade de aprendizado. Claro, se houver humildade, o aprendizado ocorrerá. É inevitável. E isso é importante principalmente num país atrasado e sem cultura, como é o nosso. Então, espero que minha passagem pela diretoria da Faculdade proporcione aprendizado. Na verdade, trata-se de uma oportunidade única para que os outros professores e os alunos aprendam como devem se comportar na presença de uma autoridade, como devem cumprir ordens com exatidão e eficiência, como fazer críticas verdadeiramente construtivas, além de outras coisas.

Jornal: E o senhor pretende divulgar um plano com suas ideias e propostas?

Lemos: Evidentemente. Considero que não há democracia se os votos são concedidos unicamente em razão das qualidades pessoais dos candidatos. Terei um plano de governo e ele será amplamente divulgado. Na verdade, a empresa contratada para elaborá-lo me disse que já está quase tudo pronto. Falta apenas concluir as pesquisas qualitativas, eleger as ideias que foram mais mencionadas pela comunidade, e depois redigir um texto vago e impreciso. Mas teremos um plano de governo, sim. Claro que sim.

Jornal: E caso eleito, qual seria a sua primeira medida?

Lemos: Além de óbvia, a pergunta é simplista. A Faculdade é um universo. Não dá pra pensar em soluções mágicas. É difícil falar qual seria a primeira de todas as medidas. O que posso prometer é que vou trabalhar com prioridades, atacando, portanto, as questões mais urgentes. Vocês já entraram no gabinete do Diretor?

Jornal: Sim.

Lemos: Aquilo é um horror! É preciso fazer intervenções imediatas naquele local. Vou contratar os melhores arquitetos e decoradores.

Jornal: E a Faculdade tem verba para esse tipo de iniciativa?

Lemos: Não sei. Mas não preciso saber. Meu escritório vai custear tudo. Pode não parecer, mas sou uma pessoa generosa. E antes que eu me esqueça, quero dizer que também vou atacar outras prioridades. O elevador dos professores, por exemplo. De uns tempos pra cá, tenho notado a presença de alunos naquele meio de transporte. Vou implantar uma catraca ali e colocar dois ou três seguranças. E a garagem? Não parece chocante que, em pleno século XXI, não haja uma vaga reservada ao uso exclusivo do Diretor? A sala dos professores também precisa de reformas. Onde já se viu professores Pós-Doutores compartilharem o mesmo espaço, incluindo o banheiro, com professores que ainda não deram passo tão elementar? Pretendo dividir a sala em três ambientes: o primeiro para Pós-Doutores, o segundo para Doutores, e o terceiro para o resto.

Jornal: E quais são os planos para a Biblioteca?

Lemos: Infelizmente, senhores, nosso tempo está esgotado. O dever me chama. Foi um prazer falar com vocês.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Entrevista com o Professor Lemos



Crédito do desenho: Hugo Freitas

Antônio Carlos Lemos ou, simplesmente, Professor Lemos é Graduado, Mestre e Doutor em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais; Pós-Doutor pelas universidades de Bologna, Paris, Salamanca, Coimbra, Oxford e Atlântida; Professor Visitante nas universidades de Harvard, Cambridge, Heidelberg, Lisboa, Barcelona e Guarapari; Professor Catedrático Titular na Faculdade de Direito Lemos e Lemos; e Sócio Presidente do Lemos e Lemos Advogados Associados.

No dia 20 de outubro de 2017, o mestre recebeu-nos em sua residência de inverno, nos arredores de Belo Horizonte e, durante todo o tempo da entrevista, permaneceu acompanhado de seus três cães de estimação, Savigny, Puchta e Ihering.

1. O que significa ser professor?

Transferir conhecimento.

O senhor gostaria de completar…

Não, é só isso mesmo.

2. Como o senhor se decidiu pelo magistério?

Dar aulas pra mim é, antes de tudo, uma forma de devolver à sociedade um pouco do que recebi, além de ser, obviamente, um modo de me manter eternamente jovem. 

3. Quais foram os seus grandes mestres?

Eu tive grandes mestres. Um muito marcante foi o meu queridíssimo professor de Introdução ao Estudo do Direito, de cujo nome agora não me lembro, mas que me marcou muito, muito mesmo.

4. Como vai o ensino jurídico no Brasil?

A pergunta é maliciosa, porque isso depende. Aqui na Lemos e Lemos, por exemplo, estamos bem. Salas de aula sempre lotadas, alunos que pagam a mensalidade em dia e, principalmente, um método de ensino que entrega os profissionais que o mercado quer. Agora, já não posso dizer o que se passa nas outras faculdades.

5. Qual o pior defeito que um professor pode ter?

O pior defeito que um professor pode ter é achar que tem defeito. Confiança é tudo, meu jovem.

6. Quais são os seus livros favoritos?

Posso falar de livros de outros autores ou preciso falar só dos meus?

Fique à vontade.

Bom, dos meus livros, é difícil escolher, mas posso citar: “Breve História do Direito Processual Civil: do Código de Hamurabi ao Código do meu amigo Fux”, “Eu, o Professor Lemos: autobiografia autorizada”; e “O Futuro do Direito no Sistema Solar: impressões iniciais de um simples observador”.

De outros grandes autores, também menciono três, que é pra manter a simetria.

O primeiro se chama “Como Fazer Pessoas e Influenciar Amigos”, ou alguma coisa do tipo.

O segundo é “A Arte da Guerra”, livrinho pequeno, mas muito interessante, de um autor chinês, chamado Tolstoi, ou Dostoievski, não sei bem. 

E o terceiro é “O Príncipe”, de Maquiavel, na versão com os comentários de Michel Temer.

7. O senhor gostaria de fazer mais alguma consideração?

Hoje, no desjejum, eu conversava com o Savigny justamente sobre essa coisa de ensino jurídico e tal. O fato é que essa meninada de agora não quer saber de nada. Mas comigo é sem conversa. Se não escrever na prova exatamente o que eu falei na aula, paciência, vai ter de estudar de novo, repetir o semestre, até aprender. Desaforo.


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Como dar conta da competitividade do ambiente acadêmico?

Pergunta enviada por uma estudante do terceiro período:

Como dar conta da competitividade do ambiente acadêmico?

Resposta do Professor Lemos (Doutor e Pós-Doutor):

Como dar conta da competitividade? Competindo e, de preferência, vencendo. Houve um tempo em que as pessoas primeiramente se perguntavam sobre o sentido da vida e, somente depois, tentavam alcançá-lo. Mas é muito evidente que isso não funciona. Não se pode recuperar o tempo perdido em elucubrações dessa natureza. Enquanto alguém medita sobre propósito, vocação e outras inutilidades, o coleguinha ao lado avança. Na verdade, tudo o que importa é correr com a máxima velocidade e fazer o que for necessário para chegar à frente. Se você me pergunta para onde estamos indo, eu sou obrigado a dizer que essa pergunta não faz o menor sentido. Insistir nessas coisas é abrir as portas ao fracasso. É pedir para ser deixado pra trás. Quer uma prova? Olhe o coleguinha ao lado.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Como enfrentar o produtivismo acadêmico?

Pergunta enviada por um jovem Doutor:

“Como enfrentar o produtivismo acadêmico?”

Resposta do Professor Lemos (Doutor e Pós-Doutor):

Jovem, a sua pergunta revela um pequeno rastro de idealismo, talvez inconsciente, mas ainda assim perigoso. É como se as coisas pudessem ser de outro modo. Ora, as coisas são assim porque são assim. O que você chama de “produtivismo acadêmico”, com uma nota negativa, é apenas a quantidade de trabalho que cada professor deve entregar. É só isso, nem mais, nem menos. Na verdade, há uma lógica simples, que explica a coisa toda: o Governo brasileiro deseja boa posição nas comparações internacionais e, por isso, pressiona o Ministério da Educação que, por sua vez, pressiona a CAPES, que pressiona as universidades, que pressionam os programas de pós-graduação, que pressionam os professores. E o que fazer, então? Apenas continuar o processo, meu jovem. Nós, Professores Doutores, pressionamos os doutorandos que, por sua vez, pressionam os mestrandos, que pressionam os pesquisadores da iniciação científica que, não tendo a quem pressionar, escrevem. Terceirização, meu amigo, terceirização é o futuro. Se eles querem quantidade, nós entregamos quantidade. Número é o que conta, com o perdão do trocadilho. Guarde uma lição, meu jovem, que é pra vida toda: academia não é lugar para os fracos. Quem não dá conta, pede pra sair. 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Como responder perguntas difíceis?

Pergunta enviada por um professor iniciante:

"Sou professor iniciante e gostaria de saber como agir quando não consigo responder a pergunta de um aluno?"

Resposta do Professor Lemos (Doutor e Pós-Doutor):

"Desnecessário dizer que és iniciante, desnecessário, caro colega. É prova mais do que suficiente o não conseguires responder ao questionamento de um aluno. Logo se vê que não és Doutor. Um Doutor não duvida. Afirma. Não vacila. Professa. Perdoou-te, no entanto, por conta da juventude, que é um mal que o tempo há de remediar. Minha primeira sugestão é que simplesmente não permitas as perguntas. É algo que se deve cortar pela raiz. E há inúmeras formas de fazê-lo, diretas ou indiretas. Se cuidares de interromper o primeiro arguente, logo no meio da frase, é improvável que outro pratique semelhante ousadia. Se não for suficiente, o caminho é ridicularizar a pergunta. Mostre ao impertinente o seu lugar. Reduza-o à própria insignificância. Se, mesmo assim, aparecer uma pergunta difícil, dessas que somente um Doutor poderia responder, o mais seguro é dizer que o tema será estudado um pouco mais adiante, talvez no final do semestre, talvez no oitavo período. Faça-os perceber que ainda precisam escutar muitas aulas e ler muitos livros antes de se dedicarem a temas complexos. As questões difíceis, que aos doutos servem de estímulo, podem destruir os incautos. Enfim, teria ainda muito que dizer, mas acho que isso já basta. Um pouco de cada vez, meu caro, que é pra não cansar." 

O que devo fazer para aproveitar bem o curso de Direito?

 Pergunta enviada por um calouro:

“O que devo fazer para aproveitar bem o curso de Direito?”

Resposta do Professor Lemos (Doutor e Pós-Doutor em Direito):

“O que mais se espera de um neófito é que ele não espere muito do curso. Em outras palavras, que faça apenas o que tiver que fazer, o que lhe for exigido, sem nada de perguntar, pedir explicações ou exigir a razão das coisas. O hábito de questionar, quando adquirido nos bancos acadêmicos, costuma não fazer bem aos profissionais da área jurídica. O essencial é saber que o objetivo do curso de Direito é fornecer o certificado de conclusão do curso de Direito.”

Nova Sessão: "Pergunte ao Professor Lemos"

O “blog” tem a alegria de anunciar uma nova sessão: “Pergunte ao Professor Lemos”. Num ato de puro desprendimento, o ilustre catedrático, doutor e pós-doutor em Direito, colocou-se à disposição para compartilhar um pouco de sua imensa sabedoria e, assim, contribuir para a diminuição da ignorância e do obscurantismo. As cartas podem ser enviadas ao endereço da redação. Só um aviso: serão liminarmente descartadas as missivas que não apresentarem vernaculidade, ou, como diria o Ruy Barbosa, “a casta correção no escrever”. 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Dez vantagens da educação bancária


Texto gentilmente cedido pelo Professor Lemos

A “educação bancária” tem dez vantagens se comparada com a “pedagogia da autonomia”.

Em primeiro lugar, deixa claro que o professor sabe infinitamente mais que os alunos.

Em segundo lugar, deixa claro que os alunos sabem infinitamente menos que os professores.

Em terceiro lugar, demonstra que, no processo de ensino e aprendizagem, o professor somente ensina.

Em quarto lugar, demonstra que, no processo de ensino e aprendizagem, o aluno somente aprende.

Em quinto lugar, proporciona maior eficácia na transmissão das informações da cabeça do professor à cabeça dos alunos.

Em sexto lugar, permite a conferência, por meio de testes e provas, da quantidade das informações transmitidas da cabeça do professor à cabeça dos alunos

Em sétimo lugar, permite que o fracasso escolar seja creditado exclusivamente na conta do aluno que, por falta de disciplina ou inteligência, não conseguiu absorver a quantidade necessária de informações.

Em oitavo lugar, garante que os professores não sejam incomodados por perguntas difíceis.

Em nono lugar, garante que os alunos também não sejam incomodados por perguntas difíceis.

Em décimo lugar, evita que os alunos se sintam tentados a pensar por eles mesmos.

Observação: as expressões “educação bancária” e “pedagogia da autonomia” são comumente atribuídas a Paulo Freire. Nunca li nada de Paulo Freire, mas sei que as teorias dele já estão ultrapassadas. Ouvi dizer que as teorias de Paulo Freire se inspiram nas ideias de um filósofo chamado Sócrates. Até fiquei com vontade de ler os livros escritos por Sócrates, mas acabei desistindo, pois, em minha modesta opinião, Sócrates está ainda mais ultrapassado que Paulo Freire.