Mostrando postagens com marcador Qualidade do Ensino Jurídico. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Qualidade do Ensino Jurídico. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de junho de 2014

COMO SUPERAR OS FATORES QUE LIMITAM A APRENDIZAGEM?

Acabei de analisar os formulários de autoavaliação de duas turmas do Curso de Graduação em Direito da UFMG.

No total, exatamente cem estudantes do terceiro período responderam às seguintes questões: 1) aponte os principais fatores que limitam o seu aproveitamento no curso de Direito; 2) aponte duas medidas que a Faculdade de Direito poderia adotar para melhorar o seu aproveitamento; 3) aponte duas medidas que você poderia adotar para melhorar o seu aproveitamento.

Achei que ficaria mais didático agrupar os resultados em três campos, tendo como referência os sujeitos que poderiam implementar as medidas sugeridas. E ficou assim:


I. O que a instituição poderia fazer?

Medida
Percentual de indicações (%)
Ampliar a conexão entre teoria e prática
31
Reformular a matriz curricular
27
Melhorar a estrutura física da Faculdade
25
Aprimorar o sistema de avaliação
21
Melhorar a circulação das informações
16
Melhorar a Biblioteca
15
Ampliar a interdisciplinaridade
12

II. O que os professores poderiam fazer?

Medida
Percentual de indicações (%)
Melhorar a didática
26
Ampliar a postura crítica
23
Demonstrar mais compromisso com as atividades
15
Demonstrar mais abertura para o diálogo
6

III. O que cada estudante poderia fazer?

Medida
Percentual de indicações (%)
Melhorar a organização do tempo de estudo
59
Ampliar a realização de leitura de textos
40
Aumentar a participação nas aulas
11
Participar de grupos de estudo
15
Realizar pesquisa ou iniciação científica
10
Participar de atividades de extensão
9
Evitar distrações durante a aula
7
Melhorar a qualidade do sono
6
Ampliar a participação em eventos
5
Realizar estudos em conjunto com colegas
4
 

domingo, 18 de setembro de 2011

A REMUNERAÇÃO DOS PROFESSORES


Recentemente, participei de um debate sobre qualidade do ensino jurídico. Depois de ouvir observações sobre falta de preparo metodológico dos professores, falta de interesse dos alunos, tradicionalismo dos métodos didáticos e tantas outras possíveis causas para a chamada crise do ensino jurídico, chegou a minha vez de falar. Resumi a minha participação na indicação de um silogismo.

Premissa maior: Não é possível levar a educação a sério sem remunerar bem os professores.

Premissa menor: O Brasil remunera mal os professores.

Conclusão: O Brasil não leva a educação a sério.
Claro que isso é muito radical. Claro que isso é uma simplificação absurda. Claro que isso desconsidera inúmeros outros fatores. Eu sei de tudo isso. Mas é que me parece o cúmulo da hipocrisia discutir qualidade do ensino - infantil, fundamental ou superior - pagando uma miséria ao professor.

Na última edição da Revista Exame CEO, inteiramente dedicada à educação, Andreas Schileicher, diretor da OCDE, instituição responsável pela organização do Pisa, afirma que "a qualidade de um sistema educacional não pode exceder a de seus professores e diretores"(Exame CEO, Agosto de 2011, p. 33).

No mesmo texto, o autor indica as melhores práticas adotadas pelos países que estão na vanguarda da educação. A primeira é simples: destacar a educação como prioridade. Para isso, no entanto, os discursos são insuficientes. Na opinião do autor, para descobrir nossa situação em relação ao tema, deveríamos fazer as seguintes perguntas:

"Como o Brasil remunera seus professores? Como são esses salários na comparação com o de outros trabalhadores altamente especializados? Você gostaria que seu filho se tornasse professor?" (Exame CEO, Agosto de 2011, p. 33).

Enquanto não pudermos responder bem a essas perguntas, é melhor não ficar discutindo qualidade da educação. Ou, se alguém quiser discutir o assunto, mas sem considerar esse ponto, não me convide, por favor.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

SOBRE LESMAS, BORBOLETAS E CARACÓIS*

No meu tempo de menino, na bela e pacata cidade de Mantena, no interior de Minas, quando encontrávamos uma lesma se arrastando lentamente pelo chão, invariavelmente, cumpríamos o ritual, um tanto perverso, de colocar um bocado de sal em cima do pobre molusco. Algum tempo depois, quando voltávamos para ver o resultado, no lugar onde estava a lesma, só havia, então, uma pequenina poça d’água.

Certo dia, quando brincava com meus primos, achamos um casulo preso num galho do pé de goiaba. A descoberta nos impressionou muito, especialmente porque o estranho objeto realizava pequenos movimentos. Logo percebemos que a coitadinha da borboleta tentava se libertar, mas não tinha forças suficientes. Então, resolvemos ajudar. Com um estilete, que usávamos para apontar lápis, e com todo o cuidado do mundo, conseguimos tirá-la da prisão. Para nossa tristeza, no entanto, mesmo depois de alguns minutos, suas asinhas não se desenrugavam, e ela não conseguia voar.

Mas, o que essas duas memórias de minha infância querida têm a ver com a gestão contemporânea da educação e com o trabalho professor? Talvez, nada. É o que veremos um pouco mais adiante.

Nos nossos dias, a principal característica da gestão educacional é a deliberada adoção de métodos produzidos pela Ciência da Administração. A gestão da escola se aproxima da gestão da empresa. Isso implica, por exemplo, na elaboração de planejamento estratégico, na imposição de metas de produção, na realização de avaliação de resultados, na implementação de iniciativas de redução de custos.

Nas universidades públicas, a adoção desses métodos tem servido, principalmente, para buscar o aumento dos índices de produção acadêmica, além de permitir, em períodos eleitorais, que os governantes apresentem números positivos no campo educacional.

Nas escolas particulares, a adoção dos mesmos métodos tem servido, basicamente, para buscar a diminuição dos custos e a conseqüente maximização do lucro.

E, por fim, nas escolas particulares, sem finalidade lucrativa, os métodos têm servido principalmente para a busca de obtenção de melhores índices nos vários mecanismos de avaliação de desempenho escolar.

Mas, em todos os casos, privilegia-se o objeto e não o sujeito, a quantidade e não a qualidade.

Nas escolas públicas, o foco está direcionado para fatores como número de publicações, número de orientações de monografias ou teses, número de alunos matriculados, número de alunos concluintes.

Nas escolas particulares, para o lucro que o empreendimento proporciona.

E, nas escolas particulares, sem finalidade lucrativa, para o posicionamento da instituição nos mais variados rankings educacionais.

Em nenhum desses cenários, no entanto, os sujeitos são verdadeiramente importantes. Nem o aluno, nem o professor. O aluno só é importante pelo que pode produzir ou pagar. E o professor pelo que pode fazer para que o aluno produza ou pague. O aprendizado não está em jogo. O livre desenvolvimento da personalidade dos sujeitos envolvidos, muito menos.

Do professor, nas universidades públicas, espera-se que produza e, se possível, dê boas aulas.

Nas escolas particulares, espera-se que dê boas aulas, para que os alunos, melhor dizendo, os consumidores, felizes com a adequada prestação do serviço, remunerem adequadamente o fornecedor.

Nas escolas particulares, sem finalidade lucrativa, espera-se que o professor dê boas aulas, para que os alunos acumulem o máximo de dados, a fim de que possam se comportar bem nas avaliações a que serão submetidos.

Para que entregue esses resultados, o professor é submetido a cobranças de todo tipo.

Se não produz, perde pontos no relatório anual. Se não tem um bom currículo Lattes, não obtém financiamento de pesquisa. Se não realiza pesquisa com financiamento, não tem um bom currículo Lattes. Quando dá aulas muito críticas, os alunos reclamam que não tem didática. Quando dá aulas lineares, dizem que não tem profundidade.

Nada contra as cobranças, normais em qualquer ambiente profissional. O problema é que o conjunto dos elementos colocados à disposição do professor, para que entregue os resultados esperados, não é minimamente satisfatório.

Nas universidades públicas, muito embora os alunos tenham, em regra, boa formação escolar, o que permitiria o desenvolvimento de um bom trabalho educacional, a infra-estrutura é deficiente, a remuneração é pífia, o volume de trabalho é desumano.

Nas escolas particulares, ainda que a infra-estrutura seja, em regra, muito boa, a formação escolar de grande parte dos alunos não é satisfatória e a remuneração passa muito longe de ser adequada.

Resumindo, em qualquer contexto, espera-se muito do professor, mas não lhe são oferecidas condições adequadas de trabalho.

E isso provoca sofrimento.

Provocaria sofrimento em qualquer profissional.

Mas, em relação ao professor, a questão é ainda mais grave, por conta de uma circunstância especial. Comumente, trata-se o magistério como sacerdócio, como vocação pura, como atividade para pessoas idealistas, sonhadoras. E o professor, por acreditar nessa imagem, não apenas se submete às mais adversas condições de trabalho, como tem o seu sofrimento multiplicado quando fracassa no cumprimento de sua tarefa. Sim, porque, além de ficar privado das vantagens que obteria caso fosse bem sucedido, além de experimentar o prejuízo material decorrente de seu fracasso, o professor, em seu íntimo, sente-se abatido por não ter logrado êxito na missão de ensinar.

E não sofre apenas o professor. O aluno ressente-se, igualmente.

E a sociedade, de modo mais amplo, sofre com a qualidade da educação que recebe.

E o drama é que também esperamos muito da educação, apostamos muito na educação, falamos muito em educação, discutimos muito a educação, mas não saímos do lugar quando o assunto é educação.

Tragicamente, nossas reformas educacionais são antes estratégias de manipulação de números que mecanismos de profunda transformação.

E aqui nem vale a pena olhar para traz, em busca de um passado glorioso, que, de resto, não temos.

Quando, independente o país, em 1822, e instalada a nossa primeira Assembléia Constituinte, em 1823, ante a oportunidade de organizar globalmente o ensino público, fizemos uma escolha de trágicas conseqüências (BRASIL, 1977, p. 23-25, 58, 174, 175).

Durante os debates sobre a criação de um curso jurídico, para dotar o país dos quadros administrativos de que tanto necessitava, o deputado Montezuma sugeriu que os trabalhos fossem suspensos, dando lugar à elaboração de um “plano geral de educação”.

Costa Barros concordava com a ideia. Por isso, dirigiu aos colegas a seguinte pergunta:

"Como procuramos já, de presente, estabelecer universidades onde não há mestre de primeiras letras?"

Em 1826, quando a proposta de fundação dos cursos jurídicos foi retomada, o deputado Ferreira França sugeriu que, antes de implantar o ensino superior, os parlamentares deveriam cuidar da "maneira de promover a primária instrução da mocidade, qual é o ler, escrever, contar, medir comumente, etc".

A opinião vencedora, no entanto, foi a de Souza França.

O deputado, depois de defender a urgência na implantação dos cursos jurídicos, para o provimento dos cargos administrativos do Estado, concluiu:

“Temos, ou não temos escolas de primeiras letras? Eu creio que em qualquer parte do Brasil, ou bem ou mal, sabe-se ler e escrever”.

Assim, a 11 de agosto de 1827, os cursos jurídicos foram criados no Brasil, antes, muito antes da organização global do sistema de ensino.

Adotamos, portanto, essa solução original de, querendo construir um edifício, o edifício da educação nacional, começarmos pelo teto e não pela base.

E de lá pra cá não foram poucas as reformas a que o nosso peculiar edifício foi submetido. Nenhuma delas, no entanto, ocupou-se de oferecer melhores condições a que o trabalho docente se desenvolva. As formas de avaliação são alteradas. Os modelos de ingresso nas universidades são modificados. Matérias são incluídas nos currículos. Matérias são retiradas dos currículos. Nada, no entanto, que melhore a situação do professor.

E, entre as muitas medidas que poderiam fazê-lo, como, por exemplo, a redução do número de alunos por turma, a adoção de medidas de qualidade de vida no trabalho, há uma sem a qual nenhuma outra faz sentido.

Trata-se do modo como se remunera professor, em todos os níveis de ensino. O problema é grave e antigo.

Quando o parlamento brasileiro discutia a criação dos cursos jurídicos, surgiu a idéia de se equiparar a remuneração dos professores catedráticos à dos desembargadores das Relações. E a Lei de 11 de agosto de 1827 fez isso. Nada mais que um pedaço de papel, no entanto.

Ao longo de todo o período imperial, os professores dos cursos jurídicos ficaram submetidos a baixas remunerações.

Em 1860, Aprígio Guimarães, professor na Faculdade de Direito do Recife, fez a seguinte reclamação: "Dão-nos as honras e o tratamento de desembargadores, e recusam-nos os ordenados destes [...]" (GUIMARÃES, 1860, p. 19).

Algum tempo depois, o falecimento de dois professores de Direito permitiu revelar o quanto a baixa remuneração, por vezes, conduzia a situações dramáticas, como se pode notar pela leitura do seguinte relatório, de 1870:

"Na idade de 77 anos e depois de 42 de aturado ensino, o nosso colega, de saudosa memória, o Conselheiro Lourenço Trigo de Loureiro, apesar de uma vida retirada e parcimoniosa, achou-se, em seus últimos momentos, em tal penúria, que, a não serem os cuidados de seus amigos, os seus restos mortais ficariam a cargo da gélida caridade oficial.

[...]

A não ser a Munificência Imperial, [...] em favor da desprotegida família de [...] nosso colega Dr. Braz Florentino Henriques de Souza, a esposa e filhos desse ilustre cidadão, que somente viveu para servir às ciências e ao país, achar-se-ia na luta contra as principais necessidades da vida!" (AGUIAR, 1870, P. 2).

Como se percebe, portanto, é muito longa a nossa tradição de remunerar mal os professores.

E sem enfrentar esse ponto, não há mecanismo contemporâneo de gestão que contribua para a melhoria da qualidade do ensino.

O professor, porque mal remunerado, ou se realiza profissionalmente fora do magistério, e acaba relegando-o a segundo plano, ou fica obrigado a trabalhar tanto, e, às vezes, em tantos lugares, que não consegue, ainda que queira muito, imprimir a qualidade desejada na execução de suas tarefas.

Agora, como resumo do foi dito, gostaria de propor as seguintes teses, para subsidiar futuras discussões:

1. A gestão contemporânea da educação se aproxima da gestão empresarial.

2. Em conseqüência, espera-se que o professor produza determinados resultados.

3. As atuais condições de trabalho de que o professor dispõe não permitem, no entanto, que ofereça resultados satisfatórios.

4. O fracasso escolar provoca sofrimento e decepção, principalmente no professor, mas também no aluno, e na sociedade de modo mais amplo.

5. A gestão escolar deveria se preocupar antes com a qualidade que com a quantidade, antes com o livre desenvolvimento dos sujeitos envolvidos que com a produção de estatísticas favoráveis.

6. Nenhum outro fator poderia colaborar com mais intensidade para as mudanças desejadas que a completa revisão do modo de remunerar o professor.

Eram essas as ideias que eu havia preparado para a nossa conversa. Permitam-me apenas, nessa despedida, retomar aquelas duas historinhas do início.

Vocês sabem por que nós, meninos levados, colocávamos sal na lesma? Não sei, mas suspeito que tenha algo a ver com o desprezo que sentíamos por aquele bichinho lento, preguiçoso, quase imóvel.

Vocês sabem por nós, meninos inquietos, ajudamos a borboleta a sair do casulo. Também não sei, mas suspeito que tenha algo a ver com impaciência, incapacidade de esperar, pressa.

Nós não gostamos de lentidão. Nós gostamos de pressa. Os mecanismos contemporâneos de gestão priorizam o número, a quantidade. É preciso, então, andar, correr, voar.

O problema é que com a educação é diferente. Não por outro motivo Rubem Alves deu ao seu último livro sobre o assunto o título de A Pedagogia dos Caracóis. Nele, o autor mineiro defende o valor da vagareza quando o negócio é aprender e ensinar.

O caracol, e não o gavião ou a lebre, é o modelo do bom professor e do bom aluno. E é então, com um pequenino trecho desse livro que me despeço:

“A lentidão é uma virtude a ser aprendida num mundo em que a vida é obrigada a correr ao ritmo das máquinas. Gastar tempo conversando com os alunos. Saber sobre sua vida, seus sonhos. Que importa que o programa fique atrasado? A vida é vagarosa. Os processos vitais são vagarosos. Quando a vida se apressa, é porque algo não vai bem” (ALVES, 2010, p. 79,80).

Referências Bibliográficas

AGUIAR, João José Ferreira de. Memória Histórico-Acadêmica do Ano de 1870. Recife: [s.n.], 1871.

ALVES, Rubem. A Pedagogia dos Caracóis. Campinas: Verus, 2010.

BRASIL. Câmara dos Deputados. Criação dos Cursos Jurídicos no Brasil. Brasília: Centro de Documentação e Informação, 1977.

GUIMARÃES, Aprígio Justiniano da Silva. Memória Histórica Acadêmica Apresentada na Primeira Sessão do Ano de 1860 à Faculdade de Direito do Recife, na Forma do Artigo 164 dos Estatutos. Recife: [s.n.], 1860.

*Questões apresentadas aos participantes do I Ciclo de Estudos sobre Trabalho e Saúde Mental, organizado pela Escola Judicial do TRT/MG, em 21 de maio de 2010.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

ENTREVISTA COM CÉSAR FIUZA



César Fiuza é professor de Direito Civil na UFMG, na PUC/MG e na FUMEC. Doutor em Direito pela UFMG. Autor, entre outros, de Direito Civil: Curso Completo, já na 13ª edição. Por muitos anos, foi diretor da Faculdade de Direito da PUC/MG, tendo implantado, naquela instituição, o Programa de Pós-Graduação. Recentemente, foi eleito chefe do Departamento de Direito e Processo Civil e Comercial da Faculdade de Direito da UFMG. No dia 21 de agosto de 2009, recebeu-nos, em sua residência, para a seguinte entrevista, em cuja realização Santiago Pinto e Luiza Amaral, monitores de Direito Civil, prestaram significativa colaboração.

“Eu acho que quem mais aprende na sala de aula é o professor. A todo o momento, eu estou aprendendo alguma coisa nova com os meus alunos.”

"Eu tinha um colega que falava que era diletante, que dava aula por diletantismo, e eu ficava pensando “mas vai ser diletante assim lá nos quintos do inferno”, porque ele devia dar umas 50 aulas."

"O jovem estudante que queira ingressar no magistério...tem que experimentar...para ver se gosta. Se não, faz um concurso, vai advogar, vai vender tomate na feira. Eu acho que a gente tem que ser feliz. Fazer o que gosta."

1. O que significa ser professor?

O que significa ser professor? Bom, para mim, significa trabalhar. Significa trabalhar em uma coisa de que eu gosto e pela qual eu fiz uma opção, há uns 20 anos atrás, não, menos, uns 15 anos. A opção de, de repente, abandonar tudo e ficar só na docência.

E como foi essa opção?

Eu tinha que optar. Chegou em um ponto que eu falei: “ou eu advogo ou eu dou aula”. E foi uma decisão muito difícil na minha vida. Muito difícil. Aí eu optei por dar aula, por deixar de trabalhar e ficar só dando aula. (Risos).

E como o senhor vê essa opção, agora, passados alguns anos?

Eu não me arrependo, não. Eu acho que foi uma forma de me fazer profissionalmente. Conquistar um espaço. Enfim, de galgar, de trilhar uma carreira. Fazer uma diferença. Fazer uma coisa que contasse.

2. Quais foram seus grandes mestres?

Meus grandes mestres... Pessoas que me influenciaram muito... Você diz só na academia?

Não necessariamente. Na vida.

Talvez os meus avós. Meu avô materno, meu avô paterno, por aí, não é? Talvez a gente comece por aí.

Na escola.. Mestres que me marcaram? Bom, um primeiro que me vem à mente é o professor João Bosco Leopoldino [da Fonseca], um grande mestre, que me marcou muito.

A professora Silma [Mendes Berti]. A professora Silma foi minha primeira professora de Direito Civil. Não, a minha primeira professora de Direito Civil foi a Lúcia [Massara], que também foi uma grande mestra que eu tive – grande amiga, eu gosto muito dela. E a professora Silma foi uma professora que me marcou muito porque ela dava aula – eu acho que ela estava começando, e nós éramos uns 20 alunos – ela dava uma aula muito legal. Eu não consigo repetir a aula que ela dava. Foi, eu acho, a grande professora de Direito Civil que eu tive, a professora Silma. Talvez ela que tenha, não, acho que não, acho que para o Direito Privado quem me puxou foi o meu avô paterno, para o Direito Comercial. E para o Direito Civil foi a vida.

3. E por falar em Direito Civil, o que Direito Civil: Curso Completo, já na 13ª edição, significa para você?

Olha, significa muita angústia porque ele está longe de ser o que eu gostaria que fosse. Então, toda vez que eu olho para ele, eu tenho vontade de enfiar debaixo da cama, sabe? Ficar lá quietinho. Porque sempre que eu olho para ele eu sinto uma sensação de incompletitude, de que: “gente, eu tenho que dar um jeito nisso aqui”. Eu preciso... E o material para colocar nele, para inserir nele, está só se acumulando, se acumulando, se acumulando... E eu não vejo a hora de poder parar e... Eu acho que vou ter que fazer um Pós-Doc só para poder fazer essa atualização que eu quero. Ficar assim uns 6 meses internado em um quarto de hotel, fazendo a atualização que eu gostaria de fazer. Aí ele vai dobrar de tamanho, mas...

Nessa trajetória de aproximadamente 10 anos, que experiências interessantes, significativas, a publicação deste livro já lhe proporcionou?

Não sei. Assim, não teve nenhuma experiência marcante com a publicação do livro não. A experiência mesmo que a gente adquire ao publicar um livro que vai tendo outras edições eu acho que é essa experiência de incompletitude. Quando eu olho para aquela primeira edição, eu falo: “meu Deus, como eu tive coragem de publicar esse negócio?”. Mas deu certo. Quer dizer, se aos meus olhos hoje aquela primeira edição é uma porcaria, não foi na época. O público gostou. Tanto que teve a segunda, a terceira, a quarta, a quinta...

Então, quer dizer, a grande experiência, a grande lição que eu tiro disso tudo é que a gente às vezes tem que ter coragem, sim, de pôr a cara, de receber críticas e de ver, enfim, que as coisas são assim mesmo, que a gente não pode ter medo não.

4. Como o senhor percebe a qualidade do ensino jurídico brasileiro?

Olha, eu acho que as coisas estão mudando. O Brasil – eu não sei se é o Brasil ou se é o mundo, mas a gente pode falar do Brasil –, eu acho que a LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional] melhorou muito o ensino. A primeira coisa que a LDB fez – na minha opinião, a grande virada que ela deu – foi a profissionalização do ensino. Na minha época de estudante, todo mundo tinha a impressão, e esta impressão era de uma certa forma estimulada pelos professores, de que professor dava aula por bico, por diletantismo, e até hoje eu vejo colegas, e às vezes eu me espanto porque são meninos, meninos de 20 e poucos anos, 30 anos, que falam assim: “não, eu sou um advogado que dá aula”. Aí eu fico pensando: mas que bobagem. A LDB acabou com esse tipo e profissionalizou a docência. Esse aí, para mim, foi o primeiro passo para melhorar a qualidade do ensino. Quer dizer, hoje, o professor é um profissional. Ele é docente por profissão. Ele não é docente por bico, por diletantismo, por nada disso.

Eu tinha um colega que falava que era diletante, que dava aula por diletantismo, e eu ficava pensando “mas vai ser diletante assim lá nos quintos do inferno”, porque ele devia dar umas 50 aulas. Vai gostar de ser diletante assim lá longe.

Mas, enfim, eu acho que isso aí foi uma grande coisa. Não sei. Eu acho que o ensino melhorou. Hoje em dia, a faculdade de Direito não é mais curso de giz, quer dizer, ela é muito mais do que isso. Hoje, o aluno tem que fazer iniciação científica, monografia, atividades complementares, o professor tem que se titular, tem que correr atrás, tem que publicar, ter bolsa de produtividade [do CNPq]. Isso eu acho que melhorou, fez com que a qualidade do ensino melhorasse.

5. Que diferenças mais significativas o senhor percebe entre o curso jurídico em uma escola pública e em uma escola particular?

Olha, eu vejo assim, do ponto de vista institucional, você tem problemas e vantagens na escola pública. E o interessante é que eu fui Chefe de Departamento em uma escola particular e agora sou em uma escola pública. Na escola particular, a coisa é mais tensa, porque você sabe que tem que espremer para conseguir. Na escola pública, você fica mais relaxado, porque sabe que não adianta espremer que não vai conseguir nada mesmo. Porque não tem verba, não tem nada. Mas assim mesmo a gente vai tentando, e o Judiciário tem até nos ajudado neste ponto. Agora a gente [no Departamento de Direito e Processo Civil e Comercial] ganhou um professor para fazer frente a essa molecagem do Governo Federal. Então, na escola particular, a relação é mais tensa. Eu sinto isso, não sei. Talvez porque eu tenha me tornado Chefe de Departamento na escola pública depois de uma experiência na escola particular de muitos anos e então eu já tenha entrado com mais cabedal. Talvez isso tenha me relaxado mais. Mas, na escola particular, a relação era mais tensa. Na PUC – estou falando aqui é da PUC – a gente tinha que estar a toda hora batendo nas portas dos pró-Reitores, do Reitor, a choração era maior para conseguir as coisas. Na Federal, a gente sabe até onde pode ir. Mais do que aquilo, não adianta ir, porque aí sai da esfera até da Reitoria, passa para a do Ministro. E aí é que entra o Judiciário, porque se o Ministério do Planejamento age com molecagem, o Judiciário põe a coisa no lugar.

O senhor quer dar um exemplo dessa molecagem?

O exemplo é o seguinte: não tem vaga para professor efetivo, mas para substituto tem. Quer dizer, então, para cada um efetivo você tem 10 substitutos, que podem ser até muito bons – não estou dizendo que não são – mas que são professores muito limitados, porque não podem orientar, não podem lecionar na Pós-Graduação, não podem fazer nada. Fica aquele professor, às vezes, excelente professor, não estou dizendo que não seja – eu já fui substituto, você já foi – mas poxa vida, se tem vaga para substituto de um professor que se aposentou, então é porque tem vaga, não é? Por que não se abre um concurso? Porque não querem. Porque tem que sobrar dinheiro para pagar cartão coorporativo, para pagar o cabeleireiro da dona Marisa, para pagar os atos secretos dos senadores. Então, aí, realmente não sobra dinheiro para contratar professor para as nossas Universidades.

6. E, falando de administração escolar, que habilidades o senhor destacaria como importantes para quem participa dessa atividade?

Olha, eu acho que o perfil do administrador acadêmico é um perfil diferente. Ele não pode ser um administrador de um supermercado. Ou de uma indústria. Mas de qualquer forma ele tem que ter um ponto em comum, porque existe aí uma qualidade que é comum: é o jogo de cintura, a inteligência emocional, o respeito pelos colegas, pelos funcionários. Além, é claro, de uma visão acadêmica do que se espera da Universidade naquele momento. Isso eu acho muito importante. Daquilo que a gente tem, que a gente pode mudar, e daquilo que a gente tem que se adaptar mesmo.

7. E, agora, saindo das atividades administrativas e ingressando na sala de aula, como o senhor percebe esse espaço?

Olha, é um espaço de que eu gosto. É um espaço muito divertido, onde a gente aprende muito. Eu acho que quem mais aprende na sala de aula é o professor. A todo o momento, eu estou aprendendo alguma coisa nova com os meus alunos. Eu fico, às vezes, abismado como tem gente inteligente, como tem gente atualizada, pessoas que fazem questões interessantes. Eu gosto muito deste espaço da sala de aula. Agora, é óbvio que com algumas turmas a gente se identifica mais, com uns alunos se identifica mais. Isso aí é assim mesmo. Às vezes, tem turma com que a gente não se identifica, alunos com quem a gente não se identifica. Mas isso faz parte do jogo. Eu acho muito legal.

8. Qual a pior falha que um professor pode cometer?

A pior falha de um professor? Eu acho que a pior falha de um professor é perseguir os seus alunos. Na minha carreira docente eu acho que nunca vi um professor perseguir um aluno. Eu já vi aluno se achar perseguido. Isso aí eu já vi. Mas é gente com mania de perseguição. Agora, rigorosamente, um professor que persiga um aluno, nunca vi não. Acho que já... Não, já vi sim... Uma única vez... Eu acho isso deprimente. É a falta de respeito mesmo. Eu acho que este é o pior defeito que um professor pode ter. Faltar com o respeito com os seus alunos.

Bom, eram essas as questões que eu havia proposto. Há alguma consideração que o senhor gostaria de fazer a um jovem estudante de Direito que cogita ingressar no magistério, que tem dúvidas sobre isso?

Eu acho que o jovem estudante que queira ingressar no magistério tem que pensar naquilo que a Universidade espera dele, que o meio acadêmico espera dele. E, hoje, é titulação, publicação, pesquisa. Tem que experimentar: iniciação científica, monitoria. Depois, começa, vai dando aula por aí, vai experimentando para ver se gosta. Se não, faz um concurso, vai advogar, vai vender tomate na feira. Eu acho que a gente tem que ser feliz. Fazer o que gosta.

Professor, eu agradeço muitíssimo a gentileza de nos receber aqui, hoje, e agradeço muito especialmente por tudo que o senhor representa para mim, para a minha formação, desde a iniciação científica, passando pela monitoria, monografia de final de curso, dissertação de mestrado, até a tese de doutoramento, além de toda orientação, apoio, incentivo. Minha gratidão por tudo isso. Muito obrigado, professor.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

GALUPPO OU VILLELA: QUEM TEM RAZÃO?

Como vai o ensino jurídico no Brasil?

Em entrevista ao blog, João Baptista Villela fez a seguinte declaração:

"O ensino brasileiro vai de mal a pior. Nunca o vi tão decadente em toda a minha vida".

Marcelo Galuppo, por sua vez, afirmou o seguinte:

“Eu acho que o ensino jurídico brasileiro é ótimo. Eu sou a favor de abrir um curso de Direito em cada esquina”.

Afinal, quem tem razão?

segunda-feira, 13 de julho de 2009

ENTREVISTA COM MARCELO GALUPPO - 2ª PARTE



“Eu acho que o ensino jurídico brasileiro é ótimo. Eu sou a favor de abrir um curso de Direito em cada esquina”.

“Acho que não existe gênio. Toda vez que alguém se apresenta para mim como sendo gênio, eu sei que estou diante de um “picareta”. É mais um homem que fala javanês”.


7. Como você percebe a qualidade do ensino jurídico?

Eu acho que o ensino jurídico brasileiro é ótimo. Eu sou a favor de abrir um curso de Direito em cada esquina. Eu acho abusivo o controle que a OAB faz nos cursos de Direito. Acho que tem que haver controle pelo Ministério da Educação, mas isso não é assunto da OAB. Acho que é um equívoco histórico. Isso tem que ser revisto em algum momento.

Por que eu acho que tem que ter um curso de Direito em cada esquina? Deixa eu te contar um caso, que um amigo me contou, o Claudio Michelon. Claudio Michelon, hoje, é professor em Edimburgo, era assistente do MacCormick. E ele é professor, também, na Federal do Rio Grande do Sul. E, antes de ser professor da Federal do Rio Grande do Sul, era professor de uma Faculdade do interior, dessas populares, em uma cidade lá perto. Num dia, já professor da Federal, ele voltou a essa cidade, foi a um bar comprar uma água e um rapaz virou para ele e falou: – “Professor, o senhor aqui?”. O rapaz era o faxineiro, estava limpando o bar. ¬Ele falou: – “É, você é quem?”. – “Eu fui seu aluno há não sei quantos anos atrás, tô aqui nesse bar”. Aí o Cláudio falou assim: – “Então, não adiantou nada, você fez um curso de Direito e é faxineiro”. – “Não, adiantou sim! Porque agora eu sou doutor também. Agora eu não bato mais na minha mulher”. A história, ela parece cômica, mas é verdade. Qualquer educação amplia as perspectivas e transforma as pessoas. Não acho que há trabalho para esse tanto de pessoas que se formam em Direito, mas eu acho que a educação superior não serve só para arrumar trabalho para as pessoas. Então, a primeira coisa é essa: eu sou a favor de uma ampliação do número de vagas.

A segunda coisa é o seguinte: eu acho que o ensino jurídico tem alguns problemas. O primeiro problema do ensino jurídico é que nós não formamos pessoas qualificadas para atuar no Direito. O curso de Direito não faz isso. Conversando com o Juventino [Gomes de Miranda Filho], professor da PUC, outro dia, eu falei assim: a advocacia é uma atividade tão complexa, tão complexa, que, às vezes, envolve até Direito. O quê que a faculdade não ensina? Não ensina, por exemplo, a negociar. Não ensina a trabalhar em conjunto. Não ensina a administrar financeiramente um escritório. Há coisas que são fundamentais para a advocacia, para magistratura, para o Ministério Público que não são ensinadas. E aí a gente fica criando profissionais que têm como modelo de atuação a litigiosidade. Isso não tem mais lugar no mundo contemporâneo. O mundo contemporâneo é um mundo de sinergia. As pessoas não são contra, elas são com umas com as outras. Eu fico pensando se a gente não tem uma deformação do caráter dos estudantes, que acaba tornando eles muito litigiosos. Isso é um problema do ensino jurídico. Outro problema do ensino jurídico é um problema de conflito de geração. Os professores se formaram em uma geração muito diferente dos alunos. E, volta e meia, eu ouço um discurso assim: os alunos de hoje são preguiçosos, os alunos de hoje não querem estudar, os alunos de hoje não lêem mais. Na verdade, o que aconteceu foi uma mudança muito radical, a sociedade da informação, a internet. Eu li, há pouco tempo, um artigo, no Valor Econômico, de um professor do Rio de Janeiro. Ele falava o seguinte: quando ele era aluno – isso aconteceu comigo – quando a gente fazia uma petição, a gente tinha que procurar na doutrina, porque era impossível encontrar jurisprudência. Você tinha que pegar volume por volume da revista, olhar uma por uma, e procurar. Enquanto, na verdade, na doutrina, pelo caráter sistematizador, você encontrava a informação muito mais facilmente. Só que, hoje, com a internet, isso se inverteu. É só você ver as petições. As petições são pautadas hoje por jurisprudência. Mas por quê? Porque hoje é possível encontrar facilmente jurisprudência. Então, um problema do ensino jurídico é esse: mudou o mundo e os professores ainda vivem no mundo antigo. Há pouco tempo foi lançado no Brasil um livro do Win Veen, sobrenome de um dos autores, um holandês, chama-se “Homo Zapiens – Educando na Era Digital”. Eu fui, há algum tempo atrás, a uma exposição do Darwin. Estava em um Congresso em Lisboa, tinha um tempo livre, aquela exposição que estava em São Paulo estava lá, e eu fui. Eu olhei os textos na parede e falei assim: “Olha, nem eu não agüento ler esses textos”. Havia um monte de textos escritos na parede. E fiquei me perguntando assim: será que as pessoas mais jovens, com a metade da minha idade, vinte anos, será que vão ler? Não vão ler. Eles querem informações precisas, e uma característica da informação precisa é que ela é curta. Algo mudou no mundo e o ensino jurídico ainda não percebeu isso.

Uma terceira coisa no ensino jurídico é que a experiência mais frutífera que já houve no Direito é a adoção da monografia de graduação. Os alunos eram completamente diferentes antes disso. O processo de formação deles ficou muito mais aprimorado, em termos de capacidade de pesquisar algo para fazer uma petição, por exemplo. Então, eu acho que esses três elementos, eles têm que ser levados em conta. Primeiro, é preciso aumentar o número de cursos de Direito, porque curso de Direito não serve só para formar advogado. Ele tem uma natureza civilizatória, como qualquer curso tem. Segundo, os professores precisam ter em vista que o mundo não é mais o mundo em que eles se formaram. Terceiro, nada é mais importante no curso de Direito do que aquilo que o aluno ensina a si mesmo. Isso é importante porque eu fico pensando, por exemplo, em uma questão muito séria. Eu estou convencido de que a tópica está correta, na concepção dela. E, portanto, acho que é estranha a tentativa dos professores de ensinar Direito Civil, Direito Penal, Direito Comercial de modo sistemático. Algo que precisa ser repensado é o ensino a partir de casos, mas entendendo o que está por trás disso. Está por trás disso a ideia de que é impossível o conhecimento sistemático, abarcante de todo o Direito. Mas, no entanto, quando os professores ensinam, é o velho modelo. Teoria Geral, Obrigações, aí os Contratos, Teoria Geral dos Contratos, depois os Contratos em Espécie, dentro dos Contratos em Espécie, os típicos e os atípicos, depois.... A vida não funciona assim. Esse é o problema.

Especificamente sobre esse ponto...

Ah, tem também a questão do que nós não ensinamos aos nossos alunos. Aquilo que eu estava falando de habilidades que compõe as profissões jurídicas para além do Direito. O Direito é uma parte importante. Eu fiz aquela brincadeira, mas o Direito é uma parte realmente importante. Mas não é tudo. Não é tudo.

Especificamente sobre esse ponto da velocidade, da dificuldade de se deter em textos longos, os manuais chegaram ao fim?

Eu tenho pensado, Giordano, em escrever um livro de Introdução [ao Estudo do Direito] inteiro na internet. O aluno, no início do semestre, compra uma chave, que dura seis meses. Ele compra a chave por dez reais, de forma que seja desestimulado a copiar o livro de outra pessoa. Tenho pensado nisso. Não sei até que ponto eu conseguiria fazer isso, porque, talvez, a minha mentalidade esteja muito no velho modelo. Não sei.

Efetivamente, uma coisa que você pode perceber é que os livros têm diminuído de tamanho. Os livros são cada vez menores, a não ser em Portugal. Mas aqui no Brasil os livros são cada vez menores, não é? Cada vez são menores. Deixa eu dar um exemplo: César Fiuza. César Fiuza é uma pessoa que percebeu isso antes da hora. Não há mais espaço para o Tratado de Direito Privado. Não é mais possível um aluno estudar, um aluno de graduação, estudar Direito Privado através do Tratado de Direito Privado. Agora, ao mesmo tempo, quando eu quero aprofundar em uma questão, uma questão pontual, não vou ter que ler os sessenta volumes do Tratado para descobrir que, na verdade, o que caracteriza a hipoteca é a não transferência do domínio. Eu leio um pedacinho só. Não há mais lugar para esses grandes livros. Por exemplo, quando eu estudei Direito, no início da história da Constituição de 1988, o Celso Bastos e o Ives Gandra, os dois fizeram Comentários à Constituição em vários volumes. Não existem mais comentários à Constituição em vários volumes. Sobre o Código de Processo Civil, há uma obra clássica, que é o comentário da Forense. Hoje, os comentários, Nelson Nery, por exemplo, são em um volume só. Isso é uma marca do tempo. E se você comparar o comentário da Forense com o do Nelson Nery, por exemplo, você vai ver que o do Nelson Nery está estruturado em jurisprudência, enquanto o da Forense é doutrina. O modelo mudou e nós não nos demos conta. Os professores não se deram conta disso. Isso é um problema.

8. O que você pensa do sistema utilizado no último vestibular da UFMG, segundo o qual os egressos da escola pública tiveram bônus de dez por cento e, entre esses, aqueles que se autodeclararam pretos ou pardos tiveram bônus de quinze por cento?

Eu sou a favor das cotas. A PUC, ela não tem uma experiência com cotas, mas ela tem uma outra experiência, com o ProUni. Quando o ProUni foi criado, o medo que havia era o de que o nível dos alunos caísse muito. O que aconteceu, na prática? O que aconteceu na prática é que os pontos necessários, no ProUni, para que o aluno entrasse na PUC são tão altos que só os alunos bons do ensino público foram para a PUC. O desempenho dos alunos do ProUni tem sido maior do que o dos aprovados no vestibular. No caso das cotas, é a mesma coisa. Eu acho que o que vai acontecer é que os alunos que vão entrar pelas cotas são alunos que, por várias injunções, provavelmente nem tentariam fazer o vestibular, apesar de terem condições. Eu acho que a gente vai ter que esperar para ver se vai funcionar ou não. Eu acho que a discussão talvez mais séria é sobre o futuro do vestibular. Isso é uma questão séria.

E o quê você pensa sobre isso?

Não tenho...

Substituir por um sorteio?

O Rubem Alves fala isso. Que seria muito mais justo e muito mais humano sortear. O Rubem Alves não fala em sorteio, não, o Rubem Alves fala assim: pega todos os vestibulandos e solta lá no meio da floresta amazônica. Quem chegar com vida aqui tem vaga. É uma ideia, porque o vestibular é desumano. No caso do Direito, não. No Direito, passar é um pouquinho difícil. Depois que passou, você se forma tranquilamente. Se estudar pouco, pouco eu não digo, mas se estudar o que uma pessoa deve estudar, passa. No caso da Medicina, em que você tem que praticamente fechar uma prova de vestibular, em física, geografia – não estou dizendo que física e geografia não sejam importante – mas fechar uma prova de vestibular para entrar em um curso de Medicina? É uma exigência muito desumana. E que, por definição, exclui pessoas que vieram do ensino público, que tiveram condições de vida mais adversas.

9. O magistério para você é fonte de angústia ou de alegria?

De alegria.

Não te angustia, não?

Não. Por quê? Por que me angustiaria? Qual angústia?

Eu percebo inúmeras angústias envolvidas na tarefa de ensinar. Mas isso, na sua experiência, não é muito relevante?

Mas que tipo de angústia?

Uma angústia é a de lidar, em um espaço tão curto de tempo, com tantas pessoas e tão diferentes...

Eu perdi, como se diz, eu perdi a fantasia, por exemplo, de que seria capaz de memorizar o rosto e o nome dos meus alunos. Já não tenho mais essa ilusão. Alguns eu vou memorizar. Não são necessariamente os melhores. Às vezes, por várias injunções, uma pessoa chama atenção no meio da turma. Não é possível mais isso. O número de alunos ficou muito grande para a gente memorizar tudo. Mas isso não me angustia mais. Isso não me angustia.

Eu sempre tive muita facilidade, por exemplo, eu nunca tive angústia em dar uma aula. Não tenho esse medo: como será que eles vão achar que a minha aula é? Não é o que passa pela minha cabeça. É difícil. Não me angustia. Para mim, o magistério é uma fonte de prazer.

10. Qual é o pior defeito que um professor pode ter?

Ah, eu vou ter que pensar... Não sei, Giordano... eu tenho que pensar um pouco. Essa eu teria que pensar.

11. E se tivesse que começar de novo, o magistério seria a sua escolha?

Seria. Seria. Mas cada vez mais eu acho... Há algum tempo atrás, eu voltei a advogar. Eu parei de advogar depois do meu doutorado e acho que foi ruim. Porque, ao voltar a advogar – claro que depois de eu ter amadurecido, quando eu advogava antes do meu doutorado eu não percebia isso – eu comecei a perceber algumas coisas importantes que estão fora do meio acadêmico. Eu acho, então, que em um saber tipicamente profissional, aplicado, como o nosso, a prática é tão importante quanto a teoria. E acho que é importante que os alunos façam estágio. Acho que as coisas estão ficando um pouco exageradas. Os estágios estão começando no quarto período. Mas eu acho que, mesmo para um aluno que tem pretensões acadêmicas, a experiência prática é enriquecedora.

No caso do novo bacharel, você acha que é possível começar duas carreiras ao mesmo tempo, o magistério e a advocacia, por exemplo?

Eu acho que sim. Acho que sim. Eu acho que, na verdade, é preciso compreender melhor os limites e as especificidades de cada uma delas. Mas a gente só compreende esses limites quando a gente vive as duas. Porque, por exemplo, a tendência dos professores acadêmicos é academicizar tudo, e a dos advogados é praticizar tudo. E acho que falta um meio termo, um equilíbrio, que é importante.

Marcelo, eu agradeço muitíssimo a...

Eu estou aqui pensando qual seria o maior defeito que o professor pode ter. Eu sei qual é o maior defeito. O maior defeito que um professor pode ter é achar que não tem defeitos. O problema é que eu sei de tantos defeitos que eu tenho, e acho que eles são tão graves, que eu não sei qual seria o pior. Eu costumo dizer para os meus alunos o seguinte: Eu tenho a impressão de que a vida acadêmica é mais ou menos como "O Homem que Falava Javanês", do Lima Barreto. Ou, então, pra ficar mais professoral, tem a aula do Roland Barthes. Roland Barthes fala que, quando a gente começa a vida intelectual, a gente ensina mais do que sabe. A gente não entende as coisas direito, mas ensina assim mesmo. E, com o passar do tempo, nós passamos a ensinar o que sabemos e, depois, quando a gente realmente começa a saber as coisas, menos do que a gente sabe. Mas que o objetivo do intelectual é esquecer o que sabe. O bom professor é aquele que esqueceu tudo o que sabia.

Tudo isso tem a ver com a mesma ideia. Eu tenho muito medo, Giordano, de pessoas que se acham gênios. Eu não acredito que existam gênios. Eu não acredito em inteligências brilhantes. Ao contrário, eu percebo inteligências multifuncionais. Acho que gênios, que escrevem milhões de livros, que conhecem todo o Direito, mas que têm uma vida emocional falida...Não sei, acho que o equilíbrio é importante. Acho que não existe gênio. Toda vez que alguém se apresenta para mim como sendo gênio, eu sei que estou diante de um picareta. É mais um homem que fala javanês.

Marcelo, muito obrigado pelo carinho, pela atenção e por tudo que o privilégio de ter sido seu aluno me proporcionou ao longo do tempo.

A maior felicidade de um professor é ver que seus alunos conseguem trilhar um caminho próprio. Fazer o seu próprio caminho. Fazer a sua própria luz brilhar. Acho que é o maior prazer que um professor tem.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

VAI CONSTRUIR? COMECE PELO TELHADO!



À exceção de uma brincadeira, como a que fez um advogado em Belo Horizonte, a construção das casas não começa pelo telhado.

Os parlamentares brasileiros, no entanto, quando discutiam a organização do nosso sistema de ensino, nos primeiros anos depois da Independência, não se preocupavam com questões desse tipo.

Na Assembléia Geral Constituinte, em 1823, quando se debatia a criação de universidades e a fundação dos cursos jurídicos, o deputado Montezuma sugeriu que os trabalhos fossem suspensos, dando lugar à elaboração de um “plano geral de educação”.

Costa Barros concordava com a ideia. Por isso, dirigiu aos colegas a seguinte pergunta:

"Como procuramos já, de presente, estabelecer universidades onde não há mestre de primeiras letras?"

Em 1826, quando a proposta de fundação dos cursos jurídicos foi retomada, o deputado Ferreira França sugeriu que, antes de implantar o ensino superior, os parlamentares deveriam cuidar da "maneira de promover a primária instrução da mocidade, qual é o ler, escrever, contar, medir comumente, etc".

A opinião vencedora, no entanto, foi a de Souza França.

O deputado, depois de defender a urgência na implantação dos cursos jurídicos, para o provimento dos cargos administrativos do Estado, concluiu:

“Temos, ou não temos escolas de primeiras letras? Eu creio que em qualquer parte do Brasil, ou bem ou mal, sabe-se ler e escrever”.

Assim, a 11 de agosto de 1827, os cursos jurídicos foram criados no Brasil, antes, muito antes da organização global do sistema de ensino.


(BRASIL. Câmara dos Deputados. Criação dos Cursos Jurídicos no Brasil. Brasília: Centro de Documentação e Informação, 1977, p. 23-25, 58, 174, 175).


segunda-feira, 15 de junho de 2009

ENTREVISTA COM SÉRGIO RESENDE, PRESIDENTE DO TJMG



Sérgio Resende é o atual presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Com a experiência de quem exerceu a Magistratura por mais de quarenta anos e o Magistério Jurídico por mais de trinta, o desembargador, muito gentilmente, nos recebeu em seu gabinete, no dia 28 de abril de 2009, e nos concedeu a seguinte entrevista. A edição final do texto contou com a preciosa colaboração de Santiago Pinto.


1. Como o senhor percebe a qualidade do ensino jurídico brasileiro na atualidade?

Eu percebo com muita apreensão, exatamente em função do seguinte fato: eu sou professor universitário desde 1974. Inclusive, me aposentei como professor, e continuei lecionando depois de aposentado. Lecionei, em Divinópolis, durante doze anos e, em 1986, iniciei na Milton Campos, e lá permaneci e ainda permaneço há vinte e dois anos. Durante, vamos supor, vinte anos, Belo Horizonte possuía as três Faculdades, aquelas tradicionais, a Federal, a PUC e a Milton Campos. Agora, sinceramente, eu não consigo mais detectar quantas Faculdades há, não apenas em Belo Horizonte, mas na grande Belo Horizonte. E, se nós formos analisar no Estado de Minas Gerais, então, nem se fala. E, evidentemente, isso é muito preocupante para a qualidade do ensino jurídico. Como que estas Faculdades novas estão conseguindo professores? O professor de Direito não pode surgir no dia seguinte à formatura. Há uma maturação, há um aprendizado, sobretudo em matérias básicas, os pilares do Direito: Penal, Processual Penal, Civil, Processual Civil, Constitucional. Enfim, é preciso um tempo de maturação, de convivência, de vivência. Fico muito preocupado, portanto, com o ensino jurídico brasileiro, em função exatamente desta irresponsabilidade do Governo Federal de permitir que se instalassem inúmeras Faculdades de Direito sem o menor critério, sem ter os pés no chão, sem ter os pés na realidade do País.

2. E os estudantes têm saído das Faculdades de Direito preparados para exercer a advocacia e a magistratura?

Bom, é aquela história. Como lecionei – eu posso dizer com orgulho até – em uma Faculdade muito boa, que é a Faculdade Milton Campos, preciso falar por ela, e não pelas outras. E não preciso dizer nada da Federal e da PUC, evidentemente. Nos concursos de Juiz, que é a minha área, posso dizer que a participação dessas três Faculdades sempre foi muito relevante. Eu me recordo de um caso específico da Milton Campos que, no penúltimo concurso de Juiz, nos oito primeiros lugares, tinha quatro alunos, inclusive o primeiro lugar. E isso é muito relevante. A Federal também, sempre presente, e a PUC. Estou falando das três, porque são as três antigas. Mas com essa quantidade exagerada de Faculdades é evidente que o nível tende a cair. Não tem como. Parece que o Governo agora está voltando os olhos para essa realidade. É por isso que a OAB institui, com razão e com energia, o exame da Ordem. Porque uma coisa é você querer ser bacharel: está aqui o seu diploma. Outra coisa é você querer ser advogado: então aprenda. Se houvesse um critério lógico, razoável, enérgico, de Faculdades de Direito, não haveria necessidade do exame da Ordem. Ele surgiu exatamente em função de se obrigar aquele que se formou em Direito a ter consciência do que o advogado vai fazer. O bacharel em Direito tem que ter noção de que ser advogado é muito sério. Eu, que estou na magistratura há mais de quarenta anos, posso dizer: quantas causas eu vi alguém perder ou deixar de ganhar, vamos colocar assim, por descuido, desídia, incúria do advogado. Só que o Juiz não pode fazer nada. A função do Juiz não é suprir a deficiência do advogado. Mas você percebe, no curso dos anos, que, muitas vezes, se a pessoa estivesse assistida por advogado que agisse com maior presteza, com maior acuidade, não teria perdido o prazo, teria feito uma defesa mais condizente. Quem é que vai saber disso? Ele não vai falar que foi irresponsável. Mas o Juiz percebe quando certa pessoa está sendo mal defendida e que vai perder por isso ou por aquilo. Portanto, acredito que o advogado tem, sim, muita responsabilidade ao peticionar, ao pegar uma causa para defender. E qual é a responsabilidade maior? Aprender o Direito, para poder defender alguém, ou entrar em juízo em nome de alguém.

3. E se o senhor fosse Ministro da Educação, e tivesse ampla liberdade de ação, que medidas implementaria para melhorar a qualidade de ensino no Brasil?

Não tenho a mínima idéia. Eu só te digo uma coisa: eu não faria o que os outros fizeram. Já é alguma coisa.

É uma excelente proposta, um plano de Governo muito bem feito...

4. Em sua opinião, é adequado o diálogo que atualmente se dá entre o Direito pensado nas Academias e o Direito aplicado nos Tribunais?

Você fala do divórcio que há entre as duas posições?

Isso. A falta de diálogo. O senhor sente que há falta de diálogo ou que o diálogo é bom?

O diálogo, como?

O senhor nota se há comunicação entre o Direito que está sendo estudado nas Academias e o Direito que está sendo aplicado pelos juízes?

Eu não sei dizer. Sinceramente, não sei dizer... Você fala daquilo que se leciona, e que se passa para o aluno, ou daquilo que acontece no dia-a-dia?

Isso. A doutrina tem estudado o que a jurisprudência produz? E a jurisprudência tem estudado o que a doutrina produz? Ou cada uma delas tem se autoalimentado?

Acho que a doutrina é mais estática. A jurisprudência faz o direito viver no dia-a-dia. O grande problema no Brasil, é que, se há um dispositivo de lei, a jurisprudência interpreta suas várias facetas, até definir uma que seja certa, até encontrar uma tendência. Depois que se solidifica um entendimento jurisprudencial a respeito de determinada norma jurídica, o País vem e modifica a norma. Então fica perdido, todo aquele esforço e que demorou anos para se solidificar. Reinicia-se, toda a discussão, em torno, às vezes, de uma mudança não muito grande, mas que dá ensejo a várias interpretações. Não há estabilização no nosso Direito. A quantidade de leis, de reformas legislativas, faz com que nós sejamos um País sem jurisprudência. Você não tem uma jurisprudência solidificada. Não dá tempo de ela se solidificar, que já vem uma modificação legislativa. É muito complicado. No Brasil, nós temos medo de fazer certas afirmações sobre lei ou sobre a jurisprudência. Ficamos pensando: será que não houve uma modificação? Acontece com a própria Constituição. Fico triste quando vejo alguém falar assim: “a atual Constituição”. Um País que usa a expressão “a atual Constituição” torna-se complicado. Você vai nos países tradicionais e eles não falam “atual Constituição”. E sim, a Constituição. Atual? O que quer dizer? É uma situação estranha você dizer “atual Constituição”. No Brasil, a Constituição é modificada como se mudam as leis ordinárias. Fico muito preocupado com o Congresso Constituinte. Outro dia estava dizendo que os deputados, que são cassados, que estão sendo objeto de processos, não são apenas deputados. A minha preocupação é que eles são constituintes. Isso é muito mais sério. Entendeu? É muito mais sério. Nós não pensamos que ele é constituinte, que ele pode modificar nossa Lei Maior. Está sendo processado. Não é meramente deputado, ele é constituinte. Acredito que chegou a hora do País parar, e se for o caso criar uma Assembléia Constituinte, com mandatos temporários. Não podemos continuar dessa forma, porque o Presidente da República, por exemplo, muda a Constituição, pois tem maioria. O que ele quiser, consegue. Tem a caneta. Consegue a maioria. O Presidente muda a Constituição ao seu bel prazer. O Fernando Henrique Cardoso não quis ser reeleito? Criou a reeleição. E para não falar que foi para ele, estendeu para todos os mandatos executivos. Não teve a mínima noção do que criou nos Tribunais. Se o Lula quiser um terceiro mandato, consegue. Essas são as censuras que a gente faz...

Dr. Sérgio, nós agradecemos a gentileza de nos ter recebido aqui e esperamos ter ocasião de voltar a conversar sobre esses assuntos com o senhor.

Nós temos que discutir. O País não pode ficar omisso. Vocês, que são mais novos, que são estudantes, têm que reagir. Nós todos temos que nos rebelar contra esse estado de coisas. Nós não podemos deixar um País da grandeza do Brasil, um País como o nosso, sendo levado por meia dúzia de pessoas. Nós temos quinhentos e tantos deputados, mas quais os que estão sempre na mídia? O que é esse tal “acordo de liderança”? Quem vota são os mesmos de sempre. Tem quinhentos e tantos, mas você não tira cinquenta que opinam? Isso é um absurdo. Isso não é representatividade. Quantos efetivamente têm voz lá dentro?

Dr. Sérgio, aproveitando, então, esse nosso assunto, o senhor acha que há esperança para os jovens estudantes de Direito? Há possibilidade de promover alguma alteração nessas instituições tão viciadas?

Eu acho que sim. Sabe aquele filme... Benjamin... como se chama, mesmo? Aquele em que o sujeito nasce velho... e vai morrendo...

O Curioso Caso de Benjamin Button.

Aquilo não pode. Nós não podemos matar a ilusão. É preciso que o jovem tenha sempre ilusão, porque se ele sonha com alguma coisa, ainda que pequena, vai conseguir. As pessoas mais velhas, já tarimbadas, estão muito tristes com a vida, desiludidas. Então, é preciso sonhar. Os sonhos não podem morrer, não é? É preciso que o sonho sempre exista. Navegar é preciso, sonhar idem. Eu acho que vocês têm que continuar sonhando, estudando, acreditando.

Dr. Sérgio, muito obrigado pela gentileza da entrevista.

Disponha.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

ENTREVISTA COM JOÃO BAPTISTA VILLELA



SEGUNDA PARTE

“O ensino brasileiro vai de mal a pior.
Nunca o vi tão decadente em toda a minha vida”.


1. Como o senhor percebe a qualidade do ensino jurídico brasileiro na atualidade?

Muito mal. O ensino brasileiro vai de mal a pior. Nunca o vi tão decadente em toda a minha vida. Eu tenho aí algo como quase 50 anos de magistério jurídico, acho que o ensino jurídico no Brasil vai muito mal, a grande maioria dos professores não sabem, não preparam, não têm amor ao magistério e, mutatis mutandis, pode-se dizer o mesmo dos alunos. Os alunos são, em grande maioria, despreparados e não dão à atividade discente o que ela cobra. Ninguém aprende por osmose, ninguém aprende sem um pesado investimento de esforço, e eu não vejo esforço por parte dos discentes – estou falando em termos gerais – não vejo esforço por parte dos docentes e não vejo interesse da sociedade. A nossa sociedade hoje se move por valores marcados por tudo, menos pela cultura. É uma sociedade preordenada ao obscurantismo.

2. Se o senhor fosse ministro da educação, e tivesse ampla liberdade de atuação, que medidas implementaria para melhorar a qualidade do ensino jurídico no Brasil?

Reduziria a um décimo, pelo menos a um décimo, o número de estabelecimentos de ensino existentes no Brasil. Significa que eu cortaria 90 %. Mandaria fechar. E se eu não fosse ministro do Brasil, mas de Cuba, mandaria essas pessoas que estão lá plantar cana. Seria muito mais produtivo para a sociedade. Investiria pesado nas que remanescessem, melhorando as instalações, as condições de uso, melhorando as bibliotecas, melhorando a remuneração e concedendo bolsas para os alunos que não pudessem pagar. Em nenhuma hipótese eu dispensaria o talento e o esforço dos alunos. A Universidade é um segmento para os bem dotados. Ninguém precisa ter um curso universitário para ser feliz, para ter o essencial da vida. É preciso também acabar com essa ilusão de que não há caminho para o bem estar que não passe pela Universidade. Há, perfeitamente, e todos têm direto ao bem estar, todos têm direito à felicidade. Agora, a Universidade é uma instância de serviço e, como os recursos em qualquer caso são limitados, para esse serviço devem ir as pessoas que estão em melhores condições de o prestar ou retornar os investimentos à sociedade.

3. Se o senhor pudesse salvar apenas três livros de sua biblioteca, quais seriam?

Você sabe uma pergunta semelhante que fizeram ao Chesterton?

Não.

Perguntaram, se ele fosse ter que viver em uma ilha, completamente isolada, qual é o livro que ele levaria?

Imagino.

Qual é?

A Bíblia.

Não...

Chesterton, o teólogo britânico!?!

Pois é. Não. O manual do construtor de barcos.

(Risos)

É difícil. Essa pergunta é muito difícil. Não é limitada ao universo jurídico, não? Livros em geral?

A gente poderia dividi-la: três livros extrajurídicos e depois três jurídicos.

Eu levaria, para ser mais preciso, eu levaria comigo os Evangelhos. Se eu tivesse que, digamos, ter um número de páginas limitado, eu sacrificaria parte da Bíblia, e ficaria com os Evangelhos, para ter espaço para levar alguma outra coisa. Levaria não mais do que uma página que contivesse um soneto de um místico espanhol do século XV ou XVI que se chama “A Cristo Crucificado”. É apenas um soneto. Então, eu também, digamos, sacrificaria o mais do livro para levar esse soneto. E como terceira obra, o que eu levaria, meu Deus do céu!? Como terceira obra.... difícil essa pergunta.... Bem, eu tenho que responder, então, eu vou incluir como terceira justamente a “Oração aos Moços”.

Gostaria de mencionar agora três obras jurídicas que o senhor salvaria?

Ah.... sim. Vamos lá: a “Nueva Filosofía de la Interpretación del Derecho”, do Recaséns Siches, “Direito e Coerção”, do Mata Machado, e as “Pandectas”, de Pothier.

4. Qual foi a maior alegria que o senhor experimentou no exercício do magistério?

É muito difícil. Eu experimentei muitas e fortes alegrias no exercício do magistério. Seria difícil eu apontar aqui exatamente qual foi a maior. Mas eu responderia à sua pergunta evocando uma alegria recente que eu tive. Eu estava nos corredores da Faculdade de Direito da USP, tinha estado lá para alguma atividade. Conversava com uma pessoa lá dentro quando percebi que uma terceira pessoa, que eu não conhecia, aguardava para falar comigo. Terminada a conversa com meu interlocutor imediato, essa pessoa se aproximou, se apresentou, disse o seu nome e que era de uma determinada cidade aqui do interior de Minas, e que tinha se apresentado vários anos antes aqui ao exame da Pós-Graduação, para entrar no Mestrado, creio, e foi examinado por mim. E que eu o reprovei, mas que ele me pediu alguns conselhos sobre o que poderia fazer para se preparar convenientemente. Eu não me lembrava, mas ele disse que eu passei alguns conselhos, que ele os seguiu e obtivera sucesso. Estava agora a caminho de terminar a sua Pós-Graduação em São Paulo e dizia que jamais havia esquecido das minhas sugestões. Que ficou feliz em ter aquela oportunidade de agradecer.

5. E alguma tristeza, professor?

Tristezas também tive, colecionei algumas tristezas que, em geral, se reconduzem àquele sentimento de frustração do professor que se vê magoado, ou que se vê agredido precisamente pelo que ele faz de bom, de bem. Por exemplo, a revolta dos alunos com respeito a nota sempre me causou mal-estar. Eu passei por situações muito agudas nesse particular. Não é o aluno que me dissesse “olha eu não gostei da sua aula, o senhor não explicou bem, o senhor parece que não preparou bem a matéria ou não a soube explicar” Não. É aluno que se julgou gênio e cujo amor próprio não tolera qualquer restrição. Uma nota que não lhe agrada é como se fosse uma ofensa à sua honra. Ora, sem humildade, ninguém se aplica ao estudo. Sem tolerância para admitir as limitações, não há diálogo na Universidade.
Então, as tristezas que eu tive são mais a expressão, assim, de frustrações, por ver-me desestimado, agredido, precisamente quando eu fazia o melhor, o melhor para o aluno, queria levá-lo ao crescimento, à superação de si mesmo.

6. Professor, se o senhor tivesse que começar tudo outra vez, escolheria novamente o magistério?

Ah, sem dúvida nenhuma! Essa aí é a pergunta que menos me deu dificuldade para responder. Claro, começaria. Eu me sinto muito feliz de ter optado pelo magistério e fico, às vezes, na quadra em que eu estou na vida, avaliando o passado – o Norberto Bobbio é quem diz isso, que na idade senil a vida é muito feita de memória do que fizemos, do que fomos. E quando eu me pergunto se eu escolhi o caminho certo, dou graças a Deus por ter me concedido essa benção de ter escolhido o magistério. Penso que nada me realizaria tanto quanto o magistério.

E nós, seus alunos, também agradecemos, professor. Obrigado. E obrigado pelo carinho de nos ter recebido.

Por nada.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

OS ESTUDANTES BRASILEIROS SÃO PREGUIÇOSOS?



Cartas a um Jovem Advogado é um livro interessante.

O autor, Francisco Müssnich, é sócio de um grande escritório de advocacia, especializado em Direito Empresarial, com participação ativa em operações tão complexas quanto a criação da Ambev e a fusão da Sadia com a Perdigão.

Ao longo do texto, há frases contundentes sobre o comportamento dos estudantes brasileiros, como as seguintes:

“Geralmente, os alunos brasileiros não gostam de se preparar para as aulas. Esperam que o professor apresente o conhecimento pronto, mastigado” (p. 17).

“Os estudantes acham que, se chegaram à faculdade, está tudo resolvido. Torna-se uma questão de decurso de prazo, e não uma obra de esforço pessoal” (p. 17, 18).

“Os estudantes brasileiros aproveitariam bem mais a universidade se a encarassem como transição para o meio profissional – e, portanto, fossem mais profissionais em sala de aula” (p. 66).

É verdade? Os estudantes brasileiros esperam tudo pronto? Os estudantes brasileiros são amadores? Ou, perguntando de outro modo, e com mais sinceridade, os estudantes brasileiros são preguiçosos?

segunda-feira, 1 de junho de 2009

ENTREVISTA COM MIRACY GUSTIN


Entre as múltiplas atividades da Professora Miracy Barbosa de Sousa Gustin, está a de lecionar Metodologia do Ensino na Pós-Graduação da Faculdade de Direito da UFMG. Os alunos que cursam a matéria são privilegiados. Miracy não é apenas mais uma teórica da Educação, mas alguém que vive o ensino em todas as suas dimensões. Recentemente aposentada, Miracy continua dando suas aulas e segue trabalhando, sem descanso, na coordenação do Programa Pólos de Cidadania (www.polos.ufmg.br).

No dia 1º de abril de 2009, ao término de uma lição, ela nos concedeu a seguinte entrevista. A edição final do texto contou com a preciosa colaboração de Aline Rose Barbosa Pereira.

“Acho que ser professor é um processo dialético permanente de contribuir
e de receber contribuições que transformam as nossas visões de mundo
e que nos inserem em uma roda viva de ações emancipadoras”.


1. O que significa ser professor?

Certa vez alguém me fez essa indagação. Era, aliás, outro professor aqui desta Escola. Nós estávamos num grupo e a pessoa, que é religiosa, perguntou para todas as pessoas que estavam no grupo: “Por que você veio? Por que você está aqui? Qual seu papel em nosso mundo?” A única resposta que eu tinha no momento era: “Ser professora”. Eu não pensava em nada mais! E por mais incrível que pareça, eu sou mãe, avó, esposa, e só me vinha aquela resposta: Ser professora. Eu acho que ser professor é uma relação de responsabilidade que temos permanentemente com a sociedade, com nossa cultura. Ser professor supõe a condição permanente de atuação na transformação social, cultural, mas que também recebe dos alunos constantes subsídios para a sua própria transformação. Acho que ser professor é um processo dialético permanente de contribuir e de receber contribuições que transformam as nossas visões de mundo e que nos inserem em uma roda viva de ações emancipadoras.

2. Qual a maior alegria que a senhora experimentou no exercício do magistério?

Ah! Eu tive tantas alegrias!! (Risos). Bem, talvez, a maior alegria tenha sido quando escreveram um livro em minha homenagem. Mas eu tive outras alegrias também. Quando eu vejo, por exemplo, alunos de Metodologia do Ensino de nossa Pós-Graduação relatando-me experiências inovadoras nas salas onde eles estão em outras Faculdades de Direito e até mesmo aqui, que eu nunca tinha pensado que poderiam ser desenvolvidas! Ou seja, eles me superam a todo o momento, e trazem inovações que eu pensava nunca serem possíveis em uma Faculdade de Direito. Foram inúmeras as alegrias que eu tive ao longo da minha trajetória como professora de Metodologia do Ensino, aqui nesta nossa Faculdade. Eu já fui também professora de professores primários. Eu era professora do curso de formação de professores. Também ali tive essa mesma alegria: ver as minhas ex-alunas com relatos de experiências de tal forma inovadoras sobre as quais eu nunca havia pensado. Vejam, há muito tempo eu tenho tido esse retorno alegre. Talvez, por isso, eu seja uma pessoa feliz.

3. E a maior tristeza, professora?

Maior tristeza, como professora? Ai meu Deus, eu acho que não tive. A maior tristeza... como professora... Sim, eu tive uma tristeza muito grande, mas não se refere ao ensino superior, e nem à sala de aula. Eu pertenci ao Núcleo de Educação da antiga FEBEM e nós fizemos uma mudança bastante significativa no sistema educacional dessa instituição, no final da década de 70. Nós, do Núcleo de Educação, fizemos uma pesquisa e verificamos que nossos alunos iam para o Exército sem terem a oitava série e sem terem uma profissionalização. Então, fizemos uma reformulação no sistema de ensino da FEBEM e propusemos para o Conselho Estadual de Educação, à época, o chamado Curso Intensivo de Primeiro Grau, que era feito em seis anos. Todos os alunos sairiam com o curso completo e profissionalizados. E conseguimos isso. A minha tristeza – até aí é só alegria – a minha tristeza foi quando fomos colocados para fora, nós todos, do Núcleo de Educação da antiga FEBEM. Fomos colocados para fora da FEBEM, em razão da inovação que tínhamos provocado em benefício dos meninos que estavam lá. Ocorre que todos do Núcleo de Educação se deram muito bem fora de lá. Se nós temos hoje construtivismo em Minas Gerais, veio do Balão Vermelho, que foi organizado por pessoas do Núcleo de Educação da FEBEM. E há outras pessoas que trabalharam conosco e que, inclusive, conseguiram escrever artigo importante com Paulo Freire. Vejam, nem sempre as perseguições e as tristezas da tarefa de educar redundam em fracassos para sempre. É preciso acreditar que as mudanças em benefício da educação se não ocorrem imediatamente, elas se efetivarão algum dia.


4. Quais as habilidades ou competências que um bom professor deveria possuir ou desenvolver?

A primeira é a sensibilidade. Acho que o professor tem que ser sensível à diversidade das suas salas de aula. O segundo é a inclusão dos alunos na sala de aula, no sentido de que os professores, de um modo geral, excluem os alunos em suas aulas. Não porque querem, mas porque não percebem que alunos que não têm bibliotecas em casa, que são mais tímidos, etc., ficam calados e excluídos em sala de aula. Esta exclusão, para mim, é uma das piores exclusões, que é a exclusão do saber. E, além da sensibilidade e da capacidade de inclusão dos alunos em sala de aula, eu acho que o professor deve se dedicar aos estudos de pedagogia e de suas inovações. Ele deve ler muito, deve se aprimorar permanentemente, ele deve permanentemente estar à altura de corresponder às necessidades e demandas da turma. Deve ser alguém que estimula a capacidade de autonomia crítica em si mesmo e em seus alunos.

5. A senhora poderia indicar um autor ou alguns autores de Educação para um jovem professor começar a ler?

Anísio Teixeira, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Lauro de Oliveira Lima, Edgar Morin. Ah, bem, tem mais. Eu não citei uma mulher!? Não façamos essa injustiça. Temos, por exemplo, Bárbara Freitag, apesar de ela agora não mais escrever sobre educação, ainda permanece seu livro "Escola, Estado e Sociedade". Também, Maria Helena Patto com o livro "A Produção do Fracasso Escolar" e Marise Nogueira com sua produção sobre a pedagogia das competências, dentre muitas outras que enriqueceram a educação nacional e mineira. Seria possível esquecer uma Helena Antipoff?

6. Aproveitando, então, o tema, se a senhora precisasse salvar apenas três livros de sua biblioteca, só três, quais seriam?

Ah... Eu salvaria "Pedagogia da Autonomia", do Paulo Freire. São três de educação?

Qualquer livro de sua biblioteca.

Eu salvaria o livro que eu e Guida escrevemos, é minha dissertação de mestrado e a tese de doutoramento dela, que é "Semeando Democracia". Eu gostaria de salvar esse. Em terceiro, acho que salvaria a Bíblia. Ninguém espera por esta minha última resposta, não é mesmo? (Risos)

A senhora quer falar um pouquinho sobre por que salvaria a Bíblia?

Eu acho que a Bíblia é a maior riqueza que a humanidade já teve, no sentido de um relato histórico, teológico, e humanitário. A Bíblia muda ao longo das nossas interpretações, e as interpretações atuais sobre os fenômenos relatados na Bíblia são de uma importância fora do comum. Primeiro, para a paz mundial, a questão da relação nossa com a humanidade como um todo, a relação com as diversas culturas. Isso tudo está lá. Mas, principalmente, o aprendizado do amor, do reconhecimento de nossas alteridades, de nossa relação de respeito com o outro.

7. Como a senhora percebe a qualidade do ensino jurídico brasileiro na atualidade?

Olha, eu acho que o ensino jurídico tem tido uma transformação muito grande. Eu escrevi, e há poucos dias lemos [na aula de Metodologia da Pesquisa], um texto meu sobre isso, falando sobre os tipos diversos de Faculdades de Direito. Nós temos aquelas que massificam o ensino, os alunos, etc., que não têm um projeto acadêmico, nem qualquer metodologia. Esse tipo de Faculdade de Direito não forma ninguém, e nem mesmo informa. Existem outras Faculdades de Direito, e eu estou falando da atualidade, que formam. Que têm um perfil mais técnico, às vezes técnico-dogmático e, se fosse possível – eu acho que dogmática e zetética são inseparáveis – mas eles se dizem Faculdades mais técnicas. Essas Faculdades pelo menos informam, o que não é o ideal. E, em busca do que é ideal, eu acho que está havendo uma transformação muito grande nas melhores Faculdades de Direito, com relação à formação de professores mais jovens, novos, que passaram por cursos de Metodologia do Ensino, que se dedicam às turmas como se aquela fosse a última turma que eles teriam. Eles são idealistas, e esse pessoal está transformando as Faculdades de Direito, no sentido de que eles vão não só informar, mas eles estão desenvolvendo habilidades e produzindo um profissional competente ao final do curso. Então, esse eu acho que é o objetivo maior de uma Faculdade de Direito. Formar competências emancipadas.

8. Se a senhora pudesse começar tudo outra vez, o que escolheria?

Seria professora!!! (risos) Mais o quê, se eu estou aposentada e continuo trabalhando!? (risos) e sem receber nada por isso. Mas, olha, é interessante, sabe? Eu, hoje em dia, gostaria muito, sabe Giordano, de aliar a questão do magistério a alguma coisa na área das artes. Eu tenho uma inveja, uma inveja no sentido positivo, inveja daquelas pessoas mais criativas, que se dedicam a uma reformulação do mundo por meio da criação maior do individuo, que é a arte, aquele senso artístico, seja do pintor, seja do escultor, seja do grafiteiro, sabe? Aqui na nossa cidade tem grafiteiros com um senso de estética muito grande. E eu, infelizmente, não tive essa capacidade. Isso me faz falta. Eu gostaria muito de aliar essas duas coisas. Eu penso que eu seria uma professora mais inovadora, mais criativa, mais aberta, mais completa.

Se isso fosse possível. (Risos)

Humberto Maturana fala um pouco sobre isso. Se essa completude fosse possível, seria ótimo.

Professora, muito obrigado. Nós, seus alunos, agradecemos por toda a sua dedicação ao magistério e também pela gentileza de nos receber aqui hoje.

Eu lhes agradeço, agradeço muito, por essa oportunidade que me ofereceram.