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quinta-feira, 14 de junho de 2018

Florestas, lagos e a aventura de escrever uma tese

O sonho de ingressar no mestrado pode se transformar em pesadelo. No doutorado, as chances são ainda maiores. 

Costumam concorrer para isso, entre outras coisas, os caprichos do orientador, a grande quantidade de tarefas, as dificuldades financeiras e os problemas emocionais. Mas nada se compara ao desafio de escrever uma dissertação ou tese.

No meu caso, a experiência de mestrado foi tranquila. Mas o doutorado foi diferente. Faltando pouco mais de um ano para o término do prazo, a tese não passava de um esboço e eu tinha poucas esperanças de vencer o bloqueio. O medo de não produzir um trabalho digno praticamente me paralisava. 

Para contornar o problema, foi importante contar com o apoio da família, a confiança do orientador e o estímulo dos amigos. Também foi bom conversar com colegas experientes e perceber que aquela sensação de impotência não era nada original. Mas, nesse contexto, foi especialmente marcante a conversa que tive com um grande mestre.

Conhecedor do poder das parábolas, o professor João Baptista Villela me contou duas. Na primeira, o pintor entrava na floresta e, depois de contemplar tudo o que estava ao redor, decidia pintar uma única árvore, com todos os pormenores. Na segunda, o caminhante arremessava uma pedra ao lago e, depois, observava que as ondas produziam círculos cada vez mais amplos e, no entanto, cada vez mais fracos. 

Como bom discípulo, ao terminar de ouvir as histórias, perguntei que relação elas tinham com a minha angústia. E ele disse que a árvore era como o tema da tese. A floresta pode conter muitas coisas interessantes. Mas o pintor precisa escolher o aspecto que deseja retratar. E disse também que o tema da tese era como o exato lugar onde a pedra cai no lago. Os reflexos do evento podem se estender para lugares distantes, mas sempre o farão de modo impreciso. É somente nas imediações do fato que as consequências podem ser vistas com clareza. 

Saí do gabinete do professor Villela um pouco mais aliviado. Descobri que nenhuma produção acadêmica, nem mesmo uma tese de doutorado, pode ser vista como ponto final, resultado acabado, momento mais elevado de uma trajetória. Cada trabalho é apenas a descrição de uma árvore, no meio de uma floresta sem fim. Ou um ponto do tamanho de um seixo, no meio de um lago de grandes proporções.

A mosca azul da pesquisa

Quando ingressei no curso jurídico, tinha a vaga impressão de que seria advogado. Naquele momento, todas as outras possibilidades me pareciam muito distantes. Foi no terceiro período que surgiu um elemento novo. 

Curioso com a publicação de um edital de pesquisa, fui atrás de informações adicionais. Descobri que a candidatura dependia da elaboração de um projeto e da anuência de um orientador. Com o tema na cabeça, tentei contato com a professora da minha matéria favorita, mas não tive sucesso. Como segunda opção, procurei o professor de uma disciplina em que meu aproveitamento fora apenas razoável. E a conversa não poderia ter sido melhor, pois ele não somente aceitou o convite como também sugeriu que o resultado deveria ser publicado. Lembro-me claramente de suas palavras: “Não podemos escrever e depois deixar na gaveta”. 

A proposta foi aprovada, a pesquisa foi feita e o relatório final, de fato, foi publicado. Ao longo da realização do trabalho, meu entusiasmo era tão grande que o orientador disse algo mais ou menos assim: “Lamento informar, mas você foi picado pela mosca azul da pesquisa”. 

Eu não compreendia o alcance da frase, mas ele sabia exatamente o que estava dizendo.

A antiga lenda oriental, retomada por Machado de Assis no poema A Mosca Azul, conta a história de um homem muito simples, que ficou encantado com a beleza do pequeno inseto e, depois de aprisioná-lo, começou o minucioso trabalho de dissecação. Mas a mosca, coitada, não resistiu e acabou morrendo, “e com isto esvaiu-se-lhe aquela visão fantástica e sutil”. Por esse motivo, “dizem que ensandeceu e que não sabe como perdeu a sua mosca azul”.

No meu caso, o contato com a pesquisa, proporcionado pela experiência da iniciação científica, foi decisivo para a descoberta da vocação acadêmica. E uma vez conhecida, eu não fiz mais do que correr atrás de sua realização. 

Além da atividade de pesquisa, a monitoria também pode funcionar como teste vocacional. Trata-se da forma mais adequada de conhecer o cotidiano do magistério, com todos os seus desafios e alegrias. 

Ao longo do meu processo formativo, tive apenas um orientador, na monitoria, na iniciação científica, na monografia de final de curso, no mestrado e no doutorado. Foi o professor César Fiuza, uma das pessoas mais generosas que conheço. Devo muito a ele, inclusive a historinha da mosca azul.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Youtube, Padre Vieira e o desafio de falar em público

O padre Antônio Vieira é comumente apresentado como o maior orador da língua portuguesa. Nascido em Lisboa, em 1608, e falecido na Bahia, em 1697, levou uma vida agitada, repleta de aventuras e polêmicas. Em um de seus sermões mais luminosos, pregado na Capela Real, ofereceu cinco conselhos aos pregadores cristãos, que são úteis, na verdade, para todo tipo de discurso.

O primeiro tem a ver com a pessoa do pregador e sugere que deve haver coerência entre o que ele fala e o que ele pratica. É garantia de fracasso quando a vida faz apologia contra a doutrina e quando as palavras são refutadas pelas obras. 

O segundo refere-se ao estilo, que deve ser “muito fácil e muito natural”. As palavras do pregador devem ser como as estrelas, altas e claras. Tão claras que mesmo os que nada sabem podem entender. E tão altas que mesmo os que muito sabem podem aprender. 

O terceiro está relacionado com a matéria e, para o jesuíta português, “o sermão há-de ter um só assunto e uma só matéria”. O pregador que deseja tratar de muitos assuntos, na verdade, termina  não tratando de nenhum. 

O quarto é sobre a ciência. O pregador deve falar daquilo que aprendeu e construiu com esforço próprio. Não deve colher onde não semeou. Não deve utilizar material preparado por outras pessoas. Como diz o Vieira, “pregar o alheio é pregar o alheio, e com o alheio nunca se fez coisa boa”. 

No quinto conselho, que tem a ver com a voz do pregador, admite-se que possa se mostrar tão forte quanto o trovão, de modo que “faça tremer o mundo”, ou tão mansa quanto o orvalho, “que destila brandamente e sem ruído”, tudo conforme a ocasião exigir.

Os Sermões do Padre Antônio Vieira foram publicados e podem ser obtidos com relativa facilidade. Mas não é possível assisti-los no Youtube. Infelizmente, como próprio religioso reconheceu, os antigos sermões, uma vez colocados no papel, “sem a voz que os animara, ainda ressuscitados são cadáveres”.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

O que meus alunos me ensinaram sobre falar em público

Meus alunos foram meus mestres também na tarefa de falar em público. 

Nos primeiros anos de magistério, com alguma frequência, eles me advertiam sobre uma série de fragilidades. Na maioria das vezes, reclamavam da voz, que era muito baixa. Em outros momentos, davam claras demonstrações de que as aulas não eram atraentes.  

Mas foi nos últimos anos que o aprendizado se deu de modo intenso e metódico. A Faculdade de Direito da UFMG, onde trabalho, tem o privilégio de sediar o Senatus, grupo de debates liderado por estudantes. De uns semestres pra cá, nas disciplinas de graduação, tenho reservado uma ou duas aulas para que eles apresentem os princípios mais elementares da oratória. As turmas têm gostado muito. E eu, também.

Do que aprendi com meus mestres, pretendo apresentar, inicialmente, as quatro fases que um orador pode atravessar em seu processo de aprimoramento e, em seguida, os cinco itens básicos para uma boa expressão oral.

A primeira fase na vida de quem deseja adquirir a habilidade de falar em público é a dos vícios inconscientes. Nela, o orador erra e não sabe que erra. A segunda é a dos vícios conscientes. Nela, o orador erra e sabe que erra. A terceira é a das virtudes conscientes. Nela, o orador acerta porque se esforça para acertar. E a quarta fase é a das virtudes inconscientes. Nela, o orador acerta mesmo quando não se esforça para acertar. Trata-se, na verdade, do caminho natural da aquisição de qualquer hábito. O objetivo é ter a qualidade internalizada de tal modo que os comportamentos possam expressá-la com a máxima naturalidade.

A expressão oral pode melhorar de forma significativa se alguns aspectos forem observados.

O primeiro é a base. Para falar em público, é preciso estar confortável. Antes de cumprimentar os ouvintes, portanto, é necessário dispor o corpo de maneira apropriada. Os pés devem estar bem colocados no chão, nem muito juntos, nem muito distantes, com o peso igualmente distribuído entre eles. É bom evitar atitudes como cruzar as pernas, apoiar as mãos na parede ou ficar balançando de um lado para o outro. Uma boa base transmite segurança e ajuda a comunicar as ideias com clareza.

O segundo é a movimentação. Explorar o espaço disponível pode útil. Mas também pode tirar a atenção dos ouvintes. Por isso, o orador deve se movimentar só quando tiver algum propósito em mente. Caso queira sugerir que pretende contar um segredo, por exemplo, pode movimentar-se para frente. Caso deseje enfatizar que um pensamento é perigoso, pode movimentar-se para trás. E se a ideia for sugerir dúvida ou ansiedade, pode andar de um lado para o outro. Em todos esses exemplos, o movimento reforça a fala. Mas não há nada pior que um palestrante nervoso, que se movimenta freneticamente, exigindo que a platéia se comporte como se estivesse numa partida de ping-pong.

O terceiro é a gesticulação. Durante a fala, todo o corpo participa, mas braços e mãos possuem funções de destaque. O ideal é utilizá-los para tornar as ideias ainda mais claras. Ou ao menos evitar que eles atrapalhem a comunicação. Balançar a cabeça verticalmente reforça a ideia de que algo é positivo. Balançar a cabeça horizontalmente faz o mesmo em relação ao que é negativo. Colocar as mãos no queixo e olhar para cima é o bastante para sugerir dúvida. Estalar os dedos mostra o aparecimento de alguma ideia nova. Por outro lado, cruzar os braços revela desinteresse, deixá-los pendentes junto ao corpo passa a ideia de desânimo e estender as mãos com as palmas voltadas para baixo pode soar excessivamente impositivo.

O quarto é a voz. No se refere à intensidade, o orador deve estar seguro de que seja suficiente para alcançar a audiência inteira. Se for muito baixa ou muito alta, provocará a desistência de uns e certamente causará incômodo a todos. No que se refere ao tom, o ideal é modulá-lo criativamente ao longo da fala, de modo a não cansar os ouvintes e enfatizar os conteúdos principais.

O quinto aspecto é o olhar. A ideia principal é distribuí-lo por toda a audiência, indicando, assim, que todos os destinatários são igualmente importantes. E nunca manter os olhos fixos no chão, no teto, numa certa parte do auditório ou, o que é ainda pior, numa única pessoa.

Creio que essas informações ajudam na desafiadora tarefa de comunicar ideias ao público. Mas é evidente que elas não nos desobrigam dos deveres de estudar, observar e meditar. Afinal, ninguém pode oferecer o que não tem.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Vamos falar de dinheiro?

Na hora de tomar decisões sobre carreira, poucas pessoas analisam friamente um tema fundamental: o dinheiro. Para ajudar nesse tipo de exercício, vou trabalhar com uma situação hipotética.

Renata é apaixonada por História. Na infância, uma de suas brincadeiras favoritas era lecionar para os amigos. Ao concluir o ensino médio, pensou que o caminho natural seria ingressar no curso de História e, depois, seguir carreira no magistério. Porém, de tanto ouvir que professores ganham pouco e não têm o valor que merecem, começou a pensar num curso mais charmoso, e em carreiras mais promissoras. Foi assim que lhe ocorreu a ideia de estudar Direito e, em seguida, fazer concurso para ingressar no ministério público ou na magistratura.

Caso escolhesse se tornar professora no ensino médio, trabalhando em dois turnos, Renata não ganharia mais do que 15 valores por mês ou 180 valores por ano; e caso exercesse a função de promotora ou juíza não ganharia menos do que 60 valores por mês ou 720 valores por ano.

Mas de que modo ela poderia olhar para esses números?

Talvez o primeiro cuidado fosse justamente o de não desconsiderá-los. É preciso encarar esse tipo de realidade de frente. Algumas carreiras pagam significativamente menos que outras. E isso não tem nada a ver com a beleza, a complexidade ou a relevância das tarefas que abrangem.

Em seguida, parece que o melhor seria refletir no padrão de vida que se deseja experimentar no futuro.

Vejamos duas situações bem diferentes. Para descrevê-las, com o objetivo de simplificar, considerarei que os gastos mais elevados de uma pessoa ficam distribuídos em apenas três categorias: habitação, transporte e lazer.

Na primeira hipótese, Renata espera desfrutar de um padrão bastante elevado. No que se refere à habitação, uma vez que pretende morar em bairro elegante e em apartamento amplo, deverá gastar em torno de 200 valores anuais. Em relação ao transporte, já que espera ter um carro para cada integrante da família, todos de luxo, gastará em torno de 100 valores anuais. Por fim, quanto ao lazer, uma vez que não abre mão de realizar duas viagens internacionais por ano e comparecer aos principais espetáculos e eventos esportivos de seu entorno, terá um gasto anual de aproximadamente 300 valores. No total, os gastos anuais ficariam em torno de 600 valores.

No segundo cenário, em que Renata se contenta com um padrão mais modesto, seus gastos anuais com habitação ficariam em torno de 80 valores, já que pretende morar em apartamento pequeno, localizado em bairro simples. No que se refere ao transporte, uma vez que espera possuir apenas um automóvel, de categoria popular, e utilizá-lo juntamente com o sistema público, terá despesas anuais de aproximadamente 50 valores. No caso do lazer, priorizando passeios regionais e explorando espaços públicos e gratuitos, terá gastos ao redor de 20 valores por ano. No total, os gastos anuais ficariam em torno de 150 valores.

O padrão mais elevado, descrito na primeira hipótese, é claramente incompatível com a remuneração típica do magistério. Já o padrão mais humilde pode funcionar tanto para uma professora quanto para uma juíza.

Para algumas pessoas, um padrão de vida elevado é algo de que não se pode abrir mão. Para elas, será necessário encontrar uma profissão que permita ganhar bem, ainda que não permita desenvolver o próprio potencial criativo.

Para outras pessoas, fazer coisas relevantes, e nas quais se acredita, é algo de que não se pode abrir mão. Para elas, será necessário definir um estilo de vida mais sóbrio, ainda que isso implique em desistir de certo número de possibilidades. 

sábado, 19 de maio de 2018

Minha lista de 12 livros para ler (ou não)

Uma lista de recomendações literárias é praticamente inútil para leitores maduros, que já descobriram suas preferências de gênero e estilo. E também não é necessária para quem está rodeado de bons leitores e, portanto, pode receber orientação de modo pessoal e afetuoso. É por isso que pensei numa que pudesse servir de guia inicial para os que desejam adquirir ou desenvolver o hábito da leitura, e não sabem com quem discutir o assunto.

Antes de começar, tenho três esclarecimentos sobre como pretendo realizar a tarefa. 

Primeiramente, devo dizer que só escolhi livros que tocaram o meu coração, que me fizeram refletir e que ainda me sinto bem só de pensar neles. Não incluí os de poesia, mas fica logo dito que meus poetas favoritos são Fernando Pessoa, Adélia Prado, Carlos Drummond de Andrade e Manuel de Barros. Em relação a eles, não me parece adequado recomendar um livro específico, pois todos podem ser lidos com prazer. As antologias, organizadas pelos próprios poetas ou por especialistas, podem ser úteis para um primeiro contato. E no que se refere a livros publicados em outros idiomas, sugiro cuidado com as traduções, quando houver mais de uma alternativa. Algumas são feitas em linguagem excessivamente complicada. Para os livros de Shakespeare, por exemplo, recomendo as de Millôr Fernandes, pela leveza com que foram feitas. E para o Dom Quixote, a de Eugênio Amado, pelo mesmo motivo.

Em segundo lugar, esclareço que a ordem de apresentação dos textos não tem a ver com o tanto que gosto deles ou com o valor literário que imagino que possuem, mas com o grau de dificuldade que a leitura sugere. Para que ninguém fique desanimado, vou começar com livros pequenos, escritos em linguagem clara, deixando para o final os que costumam exigir maior esforço dos leitores. Pode parecer estranho, mas algumas das primeiras indicações são facilmente classificadas como literatura infantil. É que nesse caso, como em tantos outros, estou de acordo com C.S. Lewis, para quem “uma história para crianças de que só as crianças gostam é uma história ruim”.

Finalmente, uma vez que não sou crítico literário, fui constrangido a adotar uma forma diferente de apresentar os livros. Não falarei de seus autores e das escolas a que pertencem. Nem mesmo tentarei oferecer algo como um resumo das obras. Vou apenas transcrever as palavras inicias de cada uma ou, no caso das de teatro, um trecho de alguma fala mais interessante. Assim, espero que os próprios autores tenham a chance de conquistar seus novos leitores. 

Agora, pois, ao trabalho!

1. Campo Geral, de Guimarães Rosa:

Um certo Miguilim morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-D`Água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto, no Mutúm. No meio dos Campos Gerais, mas num covoão em trecho de matas, terra preta, pé de serra. Miguilim tinha oito anos.

2. Hamlet, de William Shakespeare:

HAMLET: Ser ou não ser - eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias -
E, combatendo-o, dar-lhe fim?

3. O Rei Lear, de William Shakespeare:

LEAR: Enquanto isso revelaremos nossas intenções mais reservadas. Dêem-me esse mapa aí. Saibam que dividimos em três o nosso reino. É nossa firme decisão diminuir o peso dos anos, livrando-nos de todos os encargos, negócios e tarefas, confiando-os a forças mais jovens, enquanto nós, liberados do fardo, caminharemos mais leves em direção à morte.

4. O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, de C.S. Lewis:

Era uma vez duas meninas e dois meninos: Susana, Lúcia, Pedro e Edmundo. Esta história nos conta algo que lhes aconteceu durante a guerra, quando tiveram de sair de Londres, por causa dos ataques aéreos. Foram os quatro levados para a cada de um velho professor, em pleno campo, a quinze quilômetros de distância da estrada de ferro e a mais três quilômetros da agência de correios mais próxima.

5. O Hobbit, de J.R.R Tolkien:

Numa toca no chão vivia um hobbit. Não uma toca desagradável, suja e úmida, cheia de restos de minhoca e com cheiro de lodo; tampouco um toca seca, vazia e arenosa, sem nada em que sentar ou o que comer: era a toca de um hobbit, e isso quer dizer conforto.

6. Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis:

Algum tempo hesitei se devia abrir essas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo.

7. Diário de Um Pároco de Aldeia, de George Bernanos: 

Minha paróquia é uma paróquia como as outras. Todas as paróquias se parecem. As paróquias de hoje, naturalmente. Ontem, eu dizia ao vigário de Norenfontes: o bem e o mal devem equilibrar-se numa paróquia, só que o centro de gravidade é colocado em baixo, muito embaixo. Ou, se se prefere, um e outro se sobrepõem, sem misturarem-se, como dois líquidos de densidade diferente. O padre riu em minha cara.

8. O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes:

Num lugar da Mancha, cujo nome não quero lembrar, vivia, não faz muito tempo, um fidalgo, desses de lança guardada em cabide, adarga antiga, rocim fluxo e galgo corredor.

9. O Homem que Era Quinta-Feira, de G.K.Chesterton:

O arrabalde de Saffron Park, rubro e esfarrapado como uma nuvem ao pôr do Sol, ficava a poente de Londres. Todo de tijolo vermelho, construído sem plano, tinha um perfil fantástico. Fora o grande rasgo de um construtor especulativo, besuntado de arte, que atribuía às suas construções, umas vezes, o estilo “isabelino”, outras vezes o do tempo da rainha Ana, parecendo confundir as duas soberanas.

10. Os Maias, de Eça de Queiroz:

A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinha da R. de São Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégio de Jesuítas.

11. Crime e Castigo, de Dostoiewski:

Numa tarde tórrida de princípio de Julho saiu um jovem do quarto mobilado que ocupava num enorme prédio de cinco andares situado na viela S. e dirigiu-se lentamente, e com ar indeciso, para a ponte K.

12. Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa:

- Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha em minha mocidade. 

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Dê uma chance ao pobre Machado de Assis

Quem foi obrigado a ler Machado de Assis na escola talvez nunca possa gostar de Machado de Assis. Se for esse o seu caso, deixe-me propor uma experiência. Num dia tranquilo, sem a pressão de compromissos urgentes, tome uma edição de O Alienista, que é uma das histórias mais divertidas que já li. Se não tiver o livro, que é sempre o melhor, utilize a versão disponível no Domínio Público, sítio eletrônico do Governo Federal (www.dominiopublico.gov.br). O livrinho tem menos de 40 páginas e pode ser lido em uma ou duas horas. O ideal é fazê-lo olhando o mar, sentado à sombra, tomando água de coco. Ou na montanha, de frente para a lareira, bebendo uma xícara de café. Mas também costuma funcionar em casa, na biblioteca ou na praça. O importante é ler. Mas faça isso devagar, aprecie, sinta o gosto de cada palavra, tal como se faz com um último pedaço de sobremesa. 

Para uma pequena amostra, veja como o nosso autor começa o texto:

As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia. 

— A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.

Bom, depois de fazer a experiência, não deixe de me dizer o que achou das aventuras e desventuras do Dr. Bacamarte e, principalmente, de ter lido o Machado sem tê-lo pendente sobre o pescoço.

Para melhorar a expressão em língua portuguesa, não consigo pensar em nada diferente de ler os clássicos. Certamente que têm seu lugar o estudo rigoroso da gramática, o hábito de escrever com frequência, o auxílio de profissionais especializados e mesmo a colaboração de amigos e colegas. Mas nada substitui a leitura de bons autores.

No prólogo de Como e Por Que Ler, Harold Bloom disse o seguinte:

Lemos, intensamente, por várias razões, a maioria das quais conhecidas: porque, na vida real, não temos condições de “conhecer” tantas pessoas, com tanta intimidade; porque precisamos nos conhecer melhor; porque necessitamos de conhecimento, não apenas de terceiros e de nós mesmos, mas das coisas da vida. Contudo, o motivo mais marcante, mais autêntico, que nos leva a ler, com seriedade, o cânone tradicional (hoje em dia tão desrespeitado), é a busca de um sofrido prazer.

Para o crítico literário estadunidense, esse “sofrido prazer”, articula-se de certo modo com o Sublime e encerra uma possibilidade de “transcendência secular”. 

Em Cristianismo Puro e Simples, C.S. Lewis dirá que essa fome de beleza, que pode ser despertada pela arte, na verdade, não pode ser satisfeita por ela, mas tem a possibilidade de nos remeter à fonte de toda a Beleza. 

Assim, pois, podemos ler para conhecer a nós mesmos, aos outros e ao mundo, para experimentar alguma forma de satisfação interior e, também, para despertar a sede por algo que seja maior que a realidade imanente. Agora, no entanto, sugiro apenas que a leitura, sobretudo dos clássicos, é a melhor forma de promover as habilidades de expressão escrita e oral.

Talvez fosse bom oferecer uma lista de sugestões. Mas isso fica para o próximo texto.

Para além de Marvel e DC

Sou incapaz de distinguir heróis da Marvel de heróis da DC. Periodicamente, sou submetido a sessões de tortura quando meu filho me leva para ver os filmes que eles protagonizam. As histórias são interessantes, mas as batalhas parecem não ter fim. Chego a ficar tonto.

De todo modo, reconheço que é bastante atraente a ideia de ter superpoderes. 

A tentação de conquistar faculdades sobre-humanas aparece elegantemente representada nas várias formas de contar a lenda alemã de Fausto, sobretudo na de Goethe, e também no modo como João Guimarães Rosa compôs o Riobaldo, personagem de Grande Sertão: Veredas.

Mas não é disso que tratarei aqui. Quero fornecer uma lista de habilidades valiosas e, no entanto, plenamente humanas. Para organizá-la, utilizei três critérios.

Em primeiro lugar, pensei nas que fossem acessíveis a um grande número de pessoas. Aprender a patinar no gelo pode ser bom, mas não faz sentido para quem mora num país tropical.

Em segundo lugar, escolhi habilidades atuais, com amplo potencial de colaborar na solução de problemas contemporâneos. Aprender a caçar foi essencial para a sobrevivência da espécie humana, mas já não muda a vida de quem mora perto do supermercado.

Em terceiro, lugar, trabalhei com habilidades abrangentes, que podem ter aplicação em contextos diversos. Aprender a bela língua mirandesa é prova de curiosidade e bom gosto, mas só aproveita a quem se interessa especificamente por uma pequena região do Norte de Portugal.

A lista, que passarei a desenvolver nos próximos textos, tem os seguintes itens: expressar-se adequadamente em língua portuguesa, comunicar-se em língua inglesa, falar em público, agir de modo não violento, trabalhar em equipe, resolver conflitos e utilizar novas tecnologias. 

A composição é provisória e ficaria feliz se pudesse receber sugestões de aprimoramento. O essencial é identificar habilidades que, uma vez obtidas ou quando adequadamente desenvolvidas, permitam que o interessado faça melhor as tarefas atuais ou fique melhor preparado para novas oportunidades.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Você já leu todos esses livros?

Na segunda edição das Poesias Completas, de Machado de Assis, publicada em 1902, no lugar em que o autor tinha escrito “cegara o juízo”, o funcionário da tipografia, involuntariamente, trocou o “e” por um “a”, produzindo um defeito editorial nada agradável.

Numa edição inglesa da Bíblia, feita em 1631, o tipógrafo teve a ideia de brincar com o texto do sétimo mandamento, simplesmente suprimindo a palavra “não”. Como tinha de ser, os exemplares que traziam o comando “Cometerás adultério” foram recolhidos e o profissional foi condenado ao pagamento de elevada quantia em dinheiro.

A impressão de A Arte de Furtar, do Padre Antônio Vieira, feita em 1821, a pedido de Hipólito da Costa, tinha a seguinte dedicatória: “Oferecida ao Ilmo. Sr. S.F.R. Targine, ex-tesoureiro-mor do erário do Rio de Janeiro”. A associação entre o título do livro e o cargo do homenageado já seria suficiente para revelar as verdadeiras intenções do jornalista. Para não deixar dúvidas, no entanto, ele acrescentou a seguinte frase: “Qual pirata iníquo dos trabalhos alheios feito rico”.

Flor de Sangue, romance pouco expressivo de Valentim Moraes, publicado em 1897, trazia uma errata absolutamente singular, que dizia: “à página 285, quarta linha, em vez de “estourar os miolos” leia-se “cortar o pescoço”.

Essas e outras historinhas estão em O Bibliófilo Aprendiz, delicioso guia de Rubens Borba de Moraes, especialmente útil para quem deseja colecionar livros.

Das orientações do autor, algumas podem ser indicadas aqui.

Primeiramente, o interessado escolheria um gênero de livro a que se dedicar. Quem compra tudo o que vê pode construir “uma vasta livraria”, mas nunca terá uma verdadeira coleção. Os dois caminhos mais naturais são a escolha de um assunto ou a escolha de um autor. Assim, pensando nos em próprios meus interesses, seria possível colecionar livros de Direito Civil, publicados no Brasil Imperial, ou livros de Clovis Bevilaqua, importante jurista brasileiro.

Em segundo lugar, conceberia um plano sobre o tipo de coleção que se deseja, sendo necessário estudar o assunto com o máximo cuidado.

Uma terceira sugestão seria restringir a coleção aos meios que possui. A falta de espaço, por exemplo, pode ser um grave problema. E a de dinheiro, também.

De todo modo, o mais importante é lembrar que os estudiosos podem e devem organizar sua própria biblioteca, compatível, é claro, com os recursos disponíveis.

E à medida que o trabalho for avançando, o bibliófilo ouvirá, cada vez com mais frequência, a seguinte pergunta: Você já leu todos esses livros?

Se não puder respondê-la com brandura e educação, explicando que ninguém lê todos os livros de sua biblioteca, é porque ou não leu nada de valioso ou leu mas não chegou a aprender. 

terça-feira, 15 de maio de 2018

Uma historinha para quem não gosta de ler

Sei de pessoas que aprendem melhor ouvindo do que lendo. Frequentam aulas, assistem vídeos e escutam palestras. E são bem-sucedidas nas mais diversas atividades.

Também conheço pessoas que não se lembram de livros nos momentos de descanso e lazer. Gostam de aparelhos eletrônicos, produtores de imagens, sons ou das duas coisas ao mesmo tempo, que podem até exibir textos, mas sempre de modo fragmentado e secundário. E essas pessoas não parecem especialmente tristes.

Não acho que o hábito de ler seja essencial para todo tipo de aprendizado, muito embora o seja para alguns. E também não acredito que seja fundamental para o repouso ou a felicidade.

Então, o que dizer para quem não sente falta dos livros?

Talvez seja melhor simplesmente não dizer nada. Mas se você leu até aqui, pode ser que tenha paciência para uma pequena história, que me foi contada pelo pai de um amigo de infância. É uma historinha simples, despretensiosa, dessas que os sertanejos declamam ao redor da fogueira, em noites de lua cheia.

Um homem de condição humilde, presenteado com um passeio de navio, teve o cuidado de levar consigo boa provisão de água e farinha. No momento das refeições, tão logo escutava a convocação, recolhia-se a um lugar reservado, para somente então comer e beber, na máxima simplicidade. Enquanto isso, nos salões bem decorados, os outros desfrutavam do bom e do melhor. Ele, no entanto, consolava-se ao pensar na fortuna que tudo aquilo devia custar. Consciente de sua situação econômica, nem lhe ocorreu perguntar o preço de uma omelete ou de uma limonada. Foi só depois de concluir a viagem, quando recebia as malas no porto, é que descobriu que a alimentação estava incluída no valor da passagem.

Livros e livros

Vicente Mamede foi professor na Faculdade de Direito de São Paulo, exatamente na virada do Império para a República. Devotava tamanha admiração a um de seus mestres, o Antonio Joaquim Ribas, que tinha o hábito de dizer o seguinte:

Quando eu quero falar no Conselheiro Lafayette, eu digo Conselheiro Lafayette, porque quando eu disser “o Conselheiro”, é o Conselheiro Ribas.

No meu caso, quando pronuncio a palavra “livro”, deve ficar claro que me refiro ao objeto de papel, com letras impressas, em formato retangular. Para indicar textos publicados na internet, lidos por meio de dispositivos eletrônicos, parece-me conveniente utilizar outro nome.

Um livro é algo que se pode contemplar, tocar, manusear, folhear, medir o tamanho, experimentar o peso, sentir o cheiro, abraçar e, eventualmente, beijar. É um objeto com que se pode conversar e que serve de companhia tanto em longas viagens quanto em rápidas visitas ao médico.

Nas páginas de um livro, o leitor pode fazer pequenas anotações, como se falasse a um amigo, desde que a lápis, e com a melhor caligrafia de que for capaz.

Mas há certos fatores que podem dificultar a utilização dos livros. O primeiro é naturalmente o econômico. Em virtude de restrições orçamentárias, o leitor pode ser obrigado a se contentar com cópias virtuais. A raridade de uma obra, o tempo previsto para a entrega ou o espaço necessário para guardar os volumes, entre outras coisas, também justificam soluções improvisadas.

Com algum esforço, posso até imaginar que alguém prefira a tela fria de um aparelho eletrônico ao contato deliciosamente ameno com o papel. Acho pouco provável, no entanto.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

O cão vivo e o leão morto

Uma das cenas mais geniais de Chaplin está no filme O Circo. Ao fugir de um jumento que não lhe era simpático, o vagabundo acaba entrando na jaula do leão que, por sorte, curtia a soneca da tarde. Sua primeira reação é de pânico, principalmente ao perceber que não conseguia abrir a porta. Mas tudo muda quando o bicho abre os olhos, cheira o invasor e, depois, volta a se deitar preguiçosamente. Carlitos, percebendo que era observado pela filha do dono do circo, por quem nutria grande admiração, começa a exibir um comportamento corajoso. Certo de que o leão era inofensivo e não estava faminto, mantém a pose de serenidade e não abandona o local nem mesmo quando a porta é aberta. No entanto, basta o felino abrir a boca para que ele saia correndo em completo desespero. 

Entre outras coisas, a cena mostra que um leão é sempre um leão. Pode ser domesticado, pode parecer sonolento, pode estar bem alimentado, mas ainda é um leão. E um leão deve ser temido, em qualquer lugar, em todo o tempo, a menos que esteja morto.

É mais ou menos esse o assunto de um antigo provérbio judaico:

Para os vivos ainda há esperança, pois mais vale um cão vivo que um leão morto.

Um leão é uma grande fera, mas só enquanto está vivo. Um cão pode não ser lá muita coisa, mas, enquanto vive, é alguma coisa.

Você pode até reclamar do estilo da comparação, que é um tanto rude, mas não deveria perder a oportunidade de celebrar a esperança.

Talvez não haja mais tempo para escrever um tratado sobre a natureza humana, mas dá para escrever uma carta de amor.

Talvez não haja mais tempo para levantar um império empresarial, mas dá para construir uma casa na praia.

Talvez não haja mais tempo para fazer doutorado em teologia, mas dá para ler pausadamente o livro de Salmos.

Os erros cometidos até o dia de hoje limitam, mas não bloqueiam o dia de amanhã. As possibilidades podem diminuir com o passar do tempo, mas não até o ponto da completa extinção.

Por isso, quem deseja aprender sobre planejamento deve ter sempre presente que, enquanto há vida, há esperança. Ou, para usar a figura bíblica, deve saber que mais vale um cão vivo que um leão morto.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

A loucura do Rei e a sabedoria do Bobo da Corte

“O Rei Lear”, uma das mais belas peças de Shakespeare, conta a história de um velho monarca, cansado das tarefas de governo, que decidiu antecipar a própria sucessão e, ao fazê-lo, pediu às filhas que explicassem o tipo de amor que lhe devotavam.

Goneril, a mais velha, disse solenemente:

Senhor, eu o amo mais do mais do que podem exprimir quaisquer discursos; mais que a luz dos meus olhos, do que o espaço e a liberdade, acima de tudo que pode ser avaliado - rico ou sublime; não menos que a vida, com sua graça, beleza, honra e saúde; tanto quanto um filho jamais amou um pai ou um pai jamais se viu amado; um amor que torna a fala inútil e a palavra incapaz. Eu o amo além de todos os valores disso tudo.

Regana, por sua vez, declarou:

Eu sou feita do mesmo metal de minha irmã e julgo ter valor igual ao dela. Do fundo do meu coração acho que exprimiu também o meu amor, ao exprimir o dela; fica distante porém quando me declaro inimiga desses prazeres que o sentido têm como supremos; só me sinto feliz em idolatrar Vossa Amada Alteza.

Cordélia, a caçula, incomodada com a falsidade das irmãs, afirmou o seguinte:

Infeliz de mim que não consigo trazer meu coração até a boca. Amo Vossa Majestade como é meu dever, nem mais nem menos.

O Rei, satisfeito com a confissão das filhas mais velhas, dividiu entre elas o poder soberano e a administração dos bens. Para a mais nova, no entanto, além de dizer palavras duras, não deixou um mísero centavo.

As consequências da decisão não foram agradáveis. Basta dizer que uma das cenas mais tristes da peça é a que mostra o rei completamente abandonado, exposto aos riscos de uma forte tempestade, enquanto as herdeiras permanecem insensíveis ao drama paterno.

Quem lê a história fica convencido de que o Rei cometeu um grande erro. E percebe que tudo poderia ter sido diferente se ele tivesse dado ouvidos ao seguinte conselho de Kent, um corajoso nobre da Corte: 

Que pretendes fazer, velho Rei? Julgas que o dever terá medo de falar quando o poder se curva à adulação? A honra tem de ser sincera quando a majestade se perde na loucura. Conserva o teu comando, considera e reflete, freia esse impulso hediondo. Respondo por minha opinião com minha vida; tua filha mais moça não é a que te ama menos; não está vazio o coração cujo som, por isso mesmo, não ressoa.

Para tomar decisões importantes, é necessário buscar aconselhamento. Confiar apenas nas próprias ideias não é seguro.

Como diz o antigo provérbio judaico:

Quem se isola insurge-se contra a verdadeira sabedoria.

Por isso, para qualquer pessoa, em qualquer contexto, vale o que o Bobo da Corte disse ao Rei Lear:

Tu não devias ter ficado velho antes de ter ficado sábio.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Sobre a incrível arte de dizer “não”

Com carinho e alguma insistência, pediram-me para falar sobre a difícil arte de dizer “não”. Eu bem que tentei recusar, mas não consegui. Por isso, nas próximas linhas, falo sobre a difícil arte de dizer “não” e, desde logo, peço desculpas se a abordagem parecer excessivamente teórica. É que não tenho experiência no assunto.

Começo com dois exemplos dramáticos. Em cada um deles, há uma pessoa que não soube dizer “não” e experimentou consequências desastrosas. No primeiro, o convite não foi feito por uma pessoa específica, em um momento específico, mas por um grupo de pessoas, numa sequência de pequenos eventos. No segundo, nem sequer houve convite, mas apenas sugestão interna. De todo modo, em ambos os casos, alguém não teve forças para dizer “não”.

Fantine, personagem de Victor Hugo em “Os Miseráveis”, é uma jovem garota, órfã, pobre, que ganhava a vida em Paris como costureira. Zéphine, Dahlia e Favourite também são costureiras, um pouco mais velhas e mais experientes. Tholomyès, Listolier, Fameuil e Blachevelle são estudantes de Direito, filhos de famílias abastadas, vindos do interior, que, além de eventualmente frequentar as aulas, aproveitam as coisas boas da vida. 

Cada um dos quatro rapazes escolheu namorar uma das quatro moças. Fantine foi a escolhida de Tholomyès, mas, enquanto, para ele, “tudo não passava de um namorico como outro qualquer; ela, porém, amava-o apaixonadamente”.

Depois de um longo passeio de domingo, em que os pares fizeram “todas as loucuras campestres possíveis”, os quatro rapazes, para executar um plano previamente combinado, abandonaram as quatro garotas e, no bilhete de despedida, entre outras coisas, disseram o seguinte:

Amantes queridas! 
Como vocês sabem, temos nossos pais; e isso de pais é algo que vocês não compreendem suficientemente. O código civil, honesto e pueril, chama-os de pai e mãe. Ora, nossos pais choram de saudade e, já idosos, nos chamam; bons velhinhos e bondosas senhoras que são, têm-nos como filhos pródigos, desejam a nossa volta e prometem banquetear-nos com um vitelo gordo. Nós, como somos virtuosos, obedecemos. Quando vocês estiverem lendo esta carta, cinco fogosos cavalos nos estarão levando a nossas mamãs e papás. Levantamos acampamento, como diz Bossuet. Fomos embora, partimos. 

(…) 

É do interesse da pátria que sejamos como todo mundo, prefeitos, pais de família, guardas campestres e conselheiros do Estado. Respeitem-nos, porque nos sacrificamos. Chorem-nos um pouco e substituam-nos depressa. Se esta carta as magoar, restituam-na. Durante quase dois anos, fizemo-las felizes. Não guardem rancor para conosco.

As outras meninas consideram tudo uma grande brincadeira, mas Fantine sentiu o golpe, pois “era o seu primeiro amor; entregou-se a Tholomyès como a um marido, e, coitada, tinha uma filhinha”.

E o pior é que, acreditando nas promessas do namorado, fora levada a “desprezar o humilde ofício que constituía o seu ganha-pão, negligenciara-o e não o pudera recomeçar” e, agora, abandonada pelo amante e pelas amigas, via-se obrigada a fugir da miséria, acompanhada de sua filha.

Nos capítulos seguintes, Victor Hugo descreve as desventuras da pobre Fantine e da pequena Cosette.

Raskolnikov, personagem de Dostoiewski em “Crime e Castigo”, é um estudante de Direito, pobre, solitário, com vários meses de aluguel em atraso, que, de repente, começa a cultivar uma ideia maluca e, ainda sem saber se teria coragem de executá-la, diz a si mesmo:

- Meu Deus, como tudo isso é abominável! Será possível, será verdadeiramente possível que eu… Não, é uma tolice, um absurdo! Como pode me ocorrer ideia tão espantosa? De que infâmias serei capaz? Isso é odioso, ignóbil, repugnante!

O modo como Raskolnikov acaba executando o plano e as consequências que fica obrigado a suportar são os assuntos que Dostoiewski desenvolve no restante da obra.

Eu disse que os exemplos iniciais eram dramáticos. Fantine, envolvida por sugestões das amigas e do namorado, embarcou numa aventura romântica, deixando de lado os compromissos com o trabalho. Raskolnikov, atropelado pelos próprios pensamentos, colocou em prática um plano macabro. Ambos não souberam dizer “não”. E ambos sofreram consequências desagradáveis.

Mas talvez o leitor esperasse um pouco menos de drama. De fato, em algumas ocasiões, dizer “sim” ou “não” pode abrir caminho para as melhores coisas da vida ou para grandes dificuldades. Na maioria das vezes, contudo, os resultados são limitados. Por exemplo, quando dizemos “sim” a uma reunião, perdemos, no máximo, uma ou duas horas de trabalho. Ou quando dizemos “sim” a uma tarefa, aceitamos a criação de um vínculo que consome tempo e energia, mas que cedo ou tarde termina.

Crispin Soares, personagem de Machado de Assis em “O Alienista, é um boticário, morador da vila de Itaguaí, que acabou se tornando confidente do Dr. Simão Bacamarte, famoso médico que se ocupava do tratamento da loucura. Quando o alienista decidiu que a esposa viajaria ao Rio de Janeiro, lembrou-se de pedir ao amigo que também enviasse a mulher, de modo que as duas pudessem fazer companhia uma à outra. Talvez para não estragar a amizade, Crispin Soares aceitou. O objetivo de Simão Bacamarte, na verdade, era se livrar temporariamente de Dona Evarista e, assim, ter mais liberdade para se dedicar aos trabalhos da Casa Verde. Crispin Soares, no entanto, que nunca tinha ficado longe de sua amada Cesária, arrependido, cheio de saudades, disse a si mesmo as seguintes palavras:

- Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr. Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda, aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes “amém” a tudo, não é? aí tens o lucro, biltre!

Agora, sim, temos um caso menos dramático e, portanto, mais próximo das situações cotidianas, de incapacidade de dizer “não”. Muitas vezes, surpreendidos por um pedido ou um convite, acabamos dizendo “sim”, e só depois percebemos a completa falta de sentido do compromisso firmado. Para evitar esse tipo de situação, sugiro que o interessado pense em três perguntas e observe um cuidado adicional. Essas ideias me parecem muito bonitas e, talvez, funcionem na prática. De todo modo, é preciso tentar.

A primeira pergunta é: por que dizer “não”? E a resposta é simples: porque o dia tem 24 horas. Isso mesmo. Como o tempo não permite fazer tudo, é preciso escolher algumas coisas para fazer e outras coisas para não fazer.

A segunda pergunta é: quando dizer “não”? De modo simples, deveríamos dizer “não” aos compromissos que não estivessem relacionados com a nossa missão, com as nossas metas, com os papéis que escolhemos desempenhar. A razão para aceitar uma tarefa pode ser o desejo de não desagradar, a vontade de provar alguma coisa ou o medo de perder uma chance. Mas não deveria ser assim. Quem não tem coragem de definir uma agenda, acaba seguindo a agenda alheia. 

A terceira pergunta é: como dizer “não”? Nada melhor do que falar de forma direta, sem rodeios e sem maiores explicações. Se o destinatário do “não” ficar magoado, é muito provável que ele estivesse mais interessado na tarefa do que em você.

Um cuidado adicional pode ser bloquear horários ou dias na agenda, de modo a não assumir neles qualquer compromisso novo. Isso pode ser especialmente interessante para pessoas que têm dificuldade de pronunciar a palavrinha “não”.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Rubem Alves e as dimensões do planejamento pessoal

Quando ouvia a pergunta “quantos anos você tem?”, Rubem Alves tinha uma resposta padrão: “Não sei”. E se o interlocutor fizesse cara de dúvida, ele explicava: “Não sei quantos anos ainda tenho pela frente; é impossível saber. Mas apenas quantos não tenho, que são exatamente os que eu já vivi”. 

Ao falar desse modo, é possível que o escritor mineiro tivesse em mente a seguinte advertência bíblica, registrada na Carta de Tiago:

Ouçam agora, vocês que dizem: "Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro”. Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa. Ao invés disso, deveriam dizer: "Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo".

Todo cristão deveria saber que seus projetos são falíveis. Na verdade, qualquer pessoa, independentemente do modo como encara a vida, já teve expectativas frustradas e sabe como isso pode ser desagradável. 

Ainda assim, o planejamento pessoal tem o seu lugar e todos podem tirar proveito do hábito de elaborá-lo.

A primeira dúvida é sobre o lapso temporal que deve ser coberto pelo exercício. E cada um deve descobrir o que faz sentido para seus propósitos. Eu gosto de fazer planos anuais, mensais, semanais e diários.

No planejamento anual, além de revisar a missão, é o momento de estabelecer ou avaliar as metas pessoais. No entanto, pode ser interessante não trabalhar com um número excessivo. Christian Barbosa recomenda, no máximo, oito metas para o período de um ano. E isso não significa que todas devam ser atingidas nesse intervalo. É só lembrar que as metas de médio e longo prazo abrangem vários anos. O negócio é pensar naquelas que serão objeto de atenção nos próximos 365 dias. 

O principal propósito do planejamento mensal é definir as metas que terão atenção prioritária no período. Christian Barbosa sugere, no máximo, quatro.

No planejamento semanal, é hora de afunilar mais um pouco e escolher duas metas para atenção prioritária. Para Christian Barbosa, é nesse momento que se deve elaborar a listas das tarefas que serão executadas no dia-a-dia. Para ele, a semana é a unidade básica do planejamento.

O planejamento diário, para quem decide fazê-lo, é o momento certo para a distribuição das atividades. Ao realizá-lo, deve-se observar os projetos em curso e as metas prioritárias e, a partir daí, escolher as tarefas que serão enfrentadas ao longo do dia. Descontas as horas já ocupadas com compromissos, é possível saber quantas estão disponíveis para trabalho. Ao listar as tarefas, além de prever as horas ou os minutos que serão gastos em cada uma, deve-se cuidar de classificá-las como importantes, urgentes ou circunstanciais, pois, somente assim, será possível avaliar a qualidade de utilização do tempo.

Vanderlei Luxemburgo e os itens básicos de um “pojeto"

Eu juro que tento evitar, mas quando penso na palavra “projeto”, o nome que me vem imediatamente à cabeça é o de Vanderlei Luxemburgo, muito embora, para o “pofexor”, a “ponúncia" correta seja “pojeto”. 

Quem acompanha o futebol brasileiro, sabe que o talentoso treinador, depois de obter sucesso na década de 1990 e no início dos anos 2000, vem colecionando experiências desastrosas em quase todos os clubes da primeira divisão. Mas, nas entrevistas de estreia e sempre que o time perde uma partida importante, é inevitável que ele diga a frase: “Voxês xabem que eu xó tabalho com pojeto”.

E trabalhar com projeto, na verdade, ainda que não garanta o sucesso da iniciativa, pode ser mesmo uma boa escolha. Aliás, sempre que um objetivo exige a realização de duas um mais atividades, esse é o melhor modo de alcançá-lo.

No curso de “Introdução à Administração”, Antonio Maximiano define projeto como “atividade com começo e fim programados, que têm o objetivo de fornecer um produto singular”.

Evidentemente, uns podem ser muito simples e outros muito complexos. Se houver várias pessoas envolvidas, por exemplo, será necessário incluir um item sobre equipe, com distribuição de tarefas e mecanismos de acompanhamento. Se for necessário mobilizar recursos financeiros, será o caso de elaborar um orçamento. No entanto, no caso de um projeto feito no âmbito do planejamento pessoal, pode ser suficiente trabalhar com apenas três elementos: objetivo, atividades e prazos.

Objetivo é o resultado que se deseja obter com o projeto. É preciso descrevê-lo com clareza.

Atividades são as tarefas e os compromissos que deverão ser realizados para alcançar o objetivo proposto. No caso de uma tarefa, deve-se assinalar o dia em que ela será realizada. No caso de um compromisso, além do dia, também é necessário prever o horário. Ainda pode ser conveniente estabelecer a ordem de prioridade para a realização dos itens indicados. 

Prazos são os marcos temporais dispostos no planejamento. Para cada projeto, deve-se anotar a data de início e a data marcada para a conclusão. Além disso, é preciso prever o tempo a ser consumido em cada tarefa ou compromisso, bem como o total das horas reservadas para o projeto como um todo.

Assim, se um estudante deseja se preparar para uma prova de monitoria, pode ser conveniente elaborar um projeto. Para isso, depois de descrever o objetivo, o próximo passo será listar as atividades, anotando, por exemplo, as tarefas de “fazer a inscrição”, “obter os textos indicados na bibliografia de referência” e “ler os textos indicados”, com o dia para realização e o tempo previsto para cada uma, além de compromissos como “realizar a prova escrita” e “participar da entrevista”, com indicação de data e horário. Se desejar, também pode estabelecer a ordem de prioridade de cada uma das atividades previstas. Em seguida, deve cuidar dos prazos, registrando a data de início e a data prevista para o término, o tempo previsto para cada atividade e o número de horas reservadas para a conclusão do projeto.

Mas não basta elaborar “pojetos". É preciso por a mão na massa. Do contrário, será o caso ter uma boa lista de desculpas para explicar objetivos jamais alcançados.

sábado, 17 de março de 2018

Dom Quixote e a diferença entre sonhos e metas

Ninguém pode acusar Dom Quixote de não ter sonhos. Talvez lhe faltasse apenas uma certa dimensão prática e a capacidade de antever os alvos com clareza.

Depois de adquirir todos os livros de cavalaria que encontrou e de passar dias e noites lendo e lendo, sem parar, esquecendo-se de todas as outras atividades, vejam o que aconteceu ao nobre fidalgo:

Por fim, perdido o resto de juízo que ainda conservava, ocorreu-lhe o mais estranho pensamento que jamais passara pela cabeça de outro louco neste mundo: pareceu-lhe conveniente e necessário, tanto para o engrandecimento de sua honra como para o proveito da república, fazer-se cavaleiro andante, e sair pelo mundo com armas e cavalo, em busca de aventuras, e a exercitar-se em tudo o que havia lido acerca das práticas dos cavaleiros andantes, desfazendo todo gênero de agravos, enfrentando agruras e perigos, a fim de que, vencendo, pudesse granjear fama e nome eternos.

Tomada a decisão, Dom Quixote ainda se lembrou de algumas providências. 

Em primeiro lugar, restaurou as armas que haviam pertencido a seus bisavós, uma vez que, “cobertas de ferrugem, jaziam esquecidas há séculos num canto”.

Em seguida, gastou quatro dias pensando no nome que daria a seu cavalo, escolhendo, por fim, o de Rocinante que, para ele, era “eminente e sonoro, e que, ademais, indicava o que o animal havia sido outrora, quando não passava de um rocim, antes de ser o que agora era: o que vinha primeiro e antes de todos os rocins do mundo”. 

A terceira medida foi dar a si, depois de oitos dias de pensamento, o nome de Dom Quixote de la Mancha, “com o que, na sua opinião, declarava alto e bom som sua linhagem e pátria, honrando-a com o tomar-lhe emprestado o seu sobrenome”.

E por fim cuidou de escolher uma dama, para que dela se enamorasse, “já que cavaleiro andante sem amores era árvore sem folhas e frutos, e corpo sem alma”. A escolhida não passava de simples camponesa, moradora da aldeia vizinha, a quem decidiu chamar Dulcinéia del Toboso, nome que, “a seu ver, era musical, peregrino e significativo, como aliás os demais que dera a si e atribuía às suas coisas”.

Depois de concluir preparativos tão singelos, o nobre fidalgo deixou logo sua casa, sem saber exatamente para onde ia, pois, “não quis ele protelar por mais tempo a realização dos seus planos, servindo-lhe como incentivo a falta que, no seu entender, estaria fazendo ao mundo a sua tardança, tantos eram os agravos que tencionava desfazer, os tortos a endireitar, as injustiças a emendar, os abusos a reduzir e as dívidas a saldar”.

Não que o caminho tenha deixado de lhe reservar grandes surpresas e extraordinárias aventuras, mas todos podem concordar que o nosso cavaleiro andante não foi um planejador muito meticuloso. 

É por isso que pode ter alguma importância distinguir sonhos, metas e projetos, uma vez que, embora todos se refiram a objetivos futuros, somente os dois últimos cuidam da dimensão prática.

Nas próximas linhas, discutiremos as características que as metas devem possuir, deixando para o texto seguinte o estudo dos projetos.

Baseados principalmente em “A Tríade do Tempo”, de Christian Barbosa, podemos definir meta como um objetivo pessoal, relevante, desafiador, possível, específico, mensurável e temporal.

Pessoal é o objetivo que diz algo sobre quem o formula e, portanto, está ligado à sua missão e aos seus papéis.

Relevante é o objetivo que pode ter impacto no futuro, que tem aptidão para levar o autor a uma nova dimensão.

Desafiador é o objetivo que implica em algum tipo de risco, que demanda a mobilização de recursos significativos.

Possível é o objetivo para cuja realização o interessado disponha de recursos ou, no mínimo, tem possibilidade de obtê-los. 

Específico é o objetivo elaborado de modo a permitir que seu autor tenha elementos para suficientes para visualizar, desde logo, a sua realização. 

Mensurável é o objetivo formulado de tal forma que, depois de algum tempo, seja possível dizer com segurança se ele foi ou não alcançado.

Temporal é o objetivo com indicação de data para acontecer.

Assim, por exemplo, um estudante do primeiro período do curso de Direito, que deseja trabalhar com tributos, poderia formular a seguinte meta: realizar um ano de estágio em escritório de Direito Tributário, localizado na mesma cidade onde estudo, classificado entre os melhores do ramo, a partir do sétimo período do curso. 

Nesse caso, o objetivo seria pessoal, pois está conectado com o desejo de trabalhar com tributos; relevante, pois pode produzir impactos na carreira escolhida; desafiador, pois implica no risco de disputar a vaga em processos seletivos geralmente muito concorridos; possível, pois o escritório está localizado na mesma cidade do curso e esse tipo de vaga é destinada a estudantes de Direito; específico, pois indica não só a especialidade do escritório, mas também a sua avaliação perante a comunidade; mensurável, pois indica o período de um ano para sua realização; e também temporal, pois assinalada o momento a partir do qual deve acontecer. 

Pode ser interessante pensar em metas de curto prazo (de até um ano), de médio prazo (de até cinco anos) e de longo prazo (de mais de cinco anos) e, em seguida, registrá-las em alguma base de dados.

No planejamento, a ser feito no início do dia, do mês ou do ano, as metas devem ser observadas e desdobradas em tarefas.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Ariano Suassuna e planejamento pessoal

Caso tenha dado os passos sugeridos anteriormente, você já deve estar com dois documentos importantes. O primeiro é um esboço de sua missão. O segundo é uma lista de tarefas pendentes. E também já possui elementos para classificar as atividades em importantes, urgentes e circunstanciais. 

No entanto, para avançar no planejamento pessoal, precisamos introduzir quatro novos conceitos. 

1. Compromissos e tarefas

O tempo que dedicamos ao trabalho é basicamente preenchido com compromissos e tarefas. 

Compromissos são atividades com hora marcada para começar e, preferencialmente, para terminar. Em geral, mas não necessariamente, envolvem a participação de outras pessoas, tais como chefes, clientes, colegas de trabalho ou integrantes de uma equipe. Entram nessa categoria, por exemplo, reuniões, eventos e aulas.

Tarefas são atividades que não precisam ser feitas em horários específicos. 

2. Projetos e metas

Muito embora compromissos e tarefas possam figurar na agenda de modo avulso, é possível organizá-los no interior de projetos e metas. Na verdade, esse é o modo de colocá-los a serviço da missão pessoal.

De acordo com Christian Barbosa, meta é um “objetivo (ou sonho) definido por escrito, de realização possível, importante e que você realmente queira alcançar”.

Um projeto é diferente por duas razões. A primeira tem a ver com a importância, que é menor. E a segunda tem a ver com a dificuldade, que também é menor. 

Ambos se relacionam com a missão e podem concorrer para o seu sucesso. Mas enquanto a meta é uma aposta mais alta e mais arriscada, o projeto não passa da previsão de um objetivo e da descrição dos passos necessários para alcançá-lo. 

3. E o que Ariano tem a ver com isso?

Acho que uma historinha pode ajudar na visualização dos conceitos.

Em 1990, Ariano Suassuna tomou posse na Academia Brasileira de Letras. No dia seguinte ao da cerimônia, convidado por um “casal rico”, participou de um jantar em sua homenagem. A anfitriã, com vontade de puxar assunto, dirigiu a ele a seguinte pergunta: - “Você naturalmente já foi à Disney, não é?”. Tendo respondido que não, que nunca fora à Disney, a mulher replicou: - “Mas o senhor foi aos Estados Unidos e não foi à Disney?”. Ele calmamente respondeu que nunca tinha ido aos Estados Unidos, aliás, nunca tinha saído do Brasil. E uma vez que a mulher não conseguia esconder a decepção, Ariano imaginou que talvez ela dividisse “a humanidade em duas categorias: quem foi à Disney e quem não foi”.

A sessão de posse na Academia e o jantar de gala deveriam ter aparecido na agenda de Ariano como compromissos, uma vez que eram atividades com hora marcada para começar. Como parte da preparação para os eventos, podemos supor que ele tenha elaborado um discurso e comprado alguma lembrança para o casal de anfitriões, atividades que, não tendo hora certa para acontecer, deveriam ter sido previstas como tarefas.

A ideia de fazer uma nova viagem para a Disney, no caso da dona da festa, não exigiria mais do que a elaboração de um projeto, com previsão de ações a realizar, tais como renovar passaporte, adquirir passagens e fazer reservas. Mas no caso de Ariano, uma ideia desse tipo, naquele momento da vida, teria a estrutura de meta, uma vez que implicaria em desafios de elevada complexidade.

No final das contas, Ariano não foi à Disney. Parece que não se interessou pelo programa. Mas os livrinhos que escreveu ainda estão aí e podem ser lidos com grande proveito.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Que tipo de gente ainda compra agenda de papel?

Meus amigos sabem que não sou fã de novas tecnologias. Nunca li um livro digital, por exemplo. Mas quero deixar claro que não compro agendas de papel. Isso mesmo. Já abandonei esse velho hábito. Não vejo graça naquelas bancas que as livrarias organizam no mês de janeiro e que, aliás, ficam menores a cada ano. Quero deixar bem claro, então, que não compro agendas de papel. Na verdade, de uns tempos pra cá, eu mesmo fabrico minhas agendas de papel. Como? É simples. Eu explico. 

Antes, no entanto, preciso dizer que o essencial é ter uma agenda, de papel, de plástico, de ferro, de alumínio, de papiro ou mesmo num desses aparelinhos que as pessoas usam como extensão do corpo. E a razão é simples: não dá para organizar a vida se as informações permanecem apenas na cabeça ou se estão espalhadas em diferentes locais. É preciso colocar tudo no mesmo ambiente, que deve ser simples, adaptável, portátil e, de preferência, barato. Não consigo pensar em nada melhor que uma agenda de papel, feita sob medida, mas cada um deve encontrar o próprio estilo.

Para fabricar uma agenda de papel, o primeiro passo é comprar um caderno pautado. Eu prefiro o “Mais”, da “Tilibra”, com 96 folhas, que custa por volta de R$5,00. 

Depois, é preciso criar divisões internas. Eu sempre trabalho com três. 

Na parte inicial, que é o “Calendário”, anoto os dias, de modo que segunda, terça e quarta fiquem numa página, e quinta, sexta, sábado e domingo, na página ao lado. Assim, consigo visualizar a semana inteira. Reservo seis linhas para o registro dos compromissos dos dias úteis (de segunda a sexta) e duas para os demais (sábado e domingo). Em geral, para cada caderno, anoto os dias correspondentes a apenas três ou quatro meses. 

A próxima parte fica com o nome de “Missão, metas e projetos” e é nela que registro informações sobre esses tópicos, para que possa consultá-las a qualquer momento e em qualquer lugar. 

A parte final, que chamo de “Planejamento e registro”, é reservada para anotações diárias. No início do mês, uso uma página para registrar as prioridades do período. E faço o mesmo para o início da semana. No começo de cada dia, anoto as tarefas que pretendo realizar, classificando-as como importantes, urgentes ou circunstanciais, e prevendo o tempo destinado a cada uma delas. E é também nessa parte que faço registros das reuniões que frequento, das palestras e sermões que escuto, das leituras que realizo, das ideias que me ocorrem e de outras coisas que me parecem úteis, tendo sempre o cuidado de destacar itens que demandam atenção futura, para, em seguida, transformá-los em ações, tarefas ou compromissos. 

Na verdade, eu me sinto muito feliz com esse tipo de ferramenta. Percebo que, ao utilizá-la, além de organizar bem as atividades, fico conectado com o meu próprio tempo. Afinal, as pessoas não devem ter medo de inovar. A vida exige coragem. E ousadia.

sexta-feira, 2 de março de 2018

A primeira tarefa é esvaziar a mochila

“O Peregrino”, um dos maiores clássicos da literatura cristã, foi publicado em Londres, no final do século XVII. Ao escrevê-lo, John Bunyan, que era um homem simples, de quase nenhuma instrução formal, estava preso, por conta de suas pregações independentes, feitas sem autorização da Igreja Anglicana. O livro inteiro é belíssimo e ainda tem muito a nos dizer. No entanto, para ilustrar o tema que me interessa, basta a leitura do primeiro parágrafo:

Andando pelas regiões desertas deste mundo, achei-me em certo lugar onde havia uma caverna; ali deitei-me para dormir e, dormindo, tive um sonho. Vi um homem vestido de trapos, de pé em determinado lugar, com o rosto voltado para o lado oposto da própria casa, um livro na mão e um grande fardo às costas. Olhei e o vi abrir o livro, e lê-lo; e lendo, chorava e tremia, e já não se contendo rebentou num choro sentido, dizendo: “Que devo fazer?”.

Quem deseja percorrer o Caminho de Santiago, ou qualquer outra rota de peregrinação, deve tomar inúmeras precauções. Uma das mais importantes é pensar cuidadosamente no tamanho da mochila. Levar muito peso pode deixar a caminhada insuportável. Mas esquecer um item essencial pode gerar desconforto e sofrimento. E ao peregrino que deseja viajar não apenas nas estradas poeirentas, mas também nos caminhos do coração, cada item da viajem é uma oportunidade para meditar.

Especificamente sobre a mochila, José María Alvear, no manual denominado “El Camino de Santiago: cuaderno del peregrino”, faz a seguinte advertência:

Se tienes que cargar con tus cosas, aprende a hacer bien tu mochila. Non metas em ella nada que non sea imprescindible, porque el Camino te invita a andar ligero de equipaje. 

Numa peregrinação espontânea e artificial, como a que certas pessoas fazem no Caminho de Santiago, ou numa peregrinação necessária e real, como a que todos fazemos, a natureza e o tamanho do fardo importam, e muito.

É certo que a ideia permite aplicações profundas, como a que faz John Bunyan, por exemplo. Mas o meu desejo é utilizá-la para falar de algo extremamente simples.

O primeiro passo para fazer um bom planejamento pessoal é tirar da mochila tudo o que não é importante. Isso significa que, antes de pensar em objetivos e metas, é conveniente realizar o exercício que Christian Barbosa chama de “descarregar”. 

E para deixar o trabalho um pouco mais fácil, sugiro dividi-lo em três momentos.

1. Liste as pendências

Abra um arquivo novo ou pegue uma folha de papel e escreva todas as atividades que você precisa fazer. Ainda não é o momento de pensar na importância das tarefas. Faça a lista mais abrangente que puder. 

2. Pense na missão e nos papéis

Em seguida, compare a lista das tarefas pendentes com as anotações que você tiver feito sobre a sua missão e os seus papéis. Tente perceber como cada uma delas se conecta com os seus interesses mais verdadeiros. Imagine que impactos poderiam ser produzidos no futuro se você fizesse algumas e deixasse de fazer outras.

3. Elimine o supérfluo.

Finalmente, com muita coragem, elimine as tarefas que não sejam nem importantes nem urgentes.