terça-feira, 15 de maio de 2018

Livros e livros

Vicente Mamede foi professor na Faculdade de Direito de São Paulo, exatamente na virada do Império para a República. Devotava tamanha admiração a um de seus mestres, o Antonio Joaquim Ribas, que tinha o hábito de dizer o seguinte:

Quando eu quero falar no Conselheiro Lafayette, eu digo Conselheiro Lafayette, porque quando eu disser “o Conselheiro”, é o Conselheiro Ribas.

No meu caso, quando pronuncio a palavra “livro”, deve ficar claro que me refiro ao objeto de papel, com letras impressas, em formato retangular. Para indicar textos publicados na internet, lidos por meio de dispositivos eletrônicos, parece-me conveniente utilizar outro nome.

Um livro é algo que se pode contemplar, tocar, manusear, folhear, medir o tamanho, experimentar o peso, sentir o cheiro, abraçar e, eventualmente, beijar. É um objeto com que se pode conversar e que serve de companhia tanto em longas viagens quanto em rápidas visitas ao médico.

Nas páginas de um livro, o leitor pode fazer pequenas anotações, como se falasse a um amigo, desde que a lápis, e com a melhor caligrafia de que for capaz.

Mas há certos fatores que podem dificultar a utilização dos livros. O primeiro é naturalmente o econômico. Em virtude de restrições orçamentárias, o leitor pode ser obrigado a se contentar com cópias virtuais. A raridade de uma obra, o tempo previsto para a entrega ou o espaço necessário para guardar os volumes, entre outras coisas, também justificam soluções improvisadas.

Com algum esforço, posso até imaginar que alguém prefira a tela fria de um aparelho eletrônico ao contato deliciosamente ameno com o papel. Acho pouco provável, no entanto.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

O cão vivo e o leão morto

Uma das cenas mais geniais de Chaplin está no filme O Circo. Ao fugir de um jumento que não lhe era simpático, o vagabundo acaba entrando na jaula do leão que, por sorte, curtia a soneca da tarde. Sua primeira reação é de pânico, principalmente ao perceber que não conseguia abrir a porta. Mas tudo muda quando o bicho abre os olhos, cheira o invasor e, depois, volta a se deitar preguiçosamente. Carlitos, percebendo que era observado pela filha do dono do circo, por quem nutria grande admiração, começa a exibir um comportamento corajoso. Certo de que o leão era inofensivo e não estava faminto, mantém a pose de serenidade e não abandona o local nem mesmo quando a porta é aberta. No entanto, basta o felino abrir a boca para que ele saia correndo em completo desespero. 

Entre outras coisas, a cena mostra que um leão é sempre um leão. Pode ser domesticado, pode parecer sonolento, pode estar bem alimentado, mas ainda é um leão. E um leão deve ser temido, em qualquer lugar, em todo o tempo, a menos que esteja morto.

É mais ou menos esse o assunto de um antigo provérbio judaico:

Para os vivos ainda há esperança, pois mais vale um cão vivo que um leão morto.

Um leão é uma grande fera, mas só enquanto está vivo. Um cão pode não ser lá muita coisa, mas, enquanto vive, é alguma coisa.

Você pode até reclamar do estilo da comparação, que é um tanto rude, mas não deveria perder a oportunidade de celebrar a esperança.

Talvez não haja mais tempo para escrever um tratado sobre a natureza humana, mas dá para escrever uma carta de amor.

Talvez não haja mais tempo para levantar um império empresarial, mas dá para construir uma casa na praia.

Talvez não haja mais tempo para fazer doutorado em teologia, mas dá para ler pausadamente o livro de Salmos.

Os erros cometidos até o dia de hoje limitam, mas não bloqueiam o dia de amanhã. As possibilidades podem diminuir com o passar do tempo, mas não até o ponto da completa extinção.

Por isso, quem deseja aprender sobre planejamento deve ter sempre presente que, enquanto há vida, há esperança. Ou, para usar a figura bíblica, deve saber que mais vale um cão vivo que um leão morto.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

A loucura do Rei e a sabedoria do Bobo da Corte

“O Rei Lear”, uma das mais belas peças de Shakespeare, conta a história de um velho monarca, cansado das tarefas de governo, que decidiu antecipar a própria sucessão e, ao fazê-lo, pediu às filhas que explicassem o tipo de amor que lhe devotavam.

Goneril, a mais velha, disse solenemente:

Senhor, eu o amo mais do mais do que podem exprimir quaisquer discursos; mais que a luz dos meus olhos, do que o espaço e a liberdade, acima de tudo que pode ser avaliado - rico ou sublime; não menos que a vida, com sua graça, beleza, honra e saúde; tanto quanto um filho jamais amou um pai ou um pai jamais se viu amado; um amor que torna a fala inútil e a palavra incapaz. Eu o amo além de todos os valores disso tudo.

Regana, por sua vez, declarou:

Eu sou feita do mesmo metal de minha irmã e julgo ter valor igual ao dela. Do fundo do meu coração acho que exprimiu também o meu amor, ao exprimir o dela; fica distante porém quando me declaro inimiga desses prazeres que o sentido têm como supremos; só me sinto feliz em idolatrar Vossa Amada Alteza.

Cordélia, a caçula, incomodada com a falsidade das irmãs, afirmou o seguinte:

Infeliz de mim que não consigo trazer meu coração até a boca. Amo Vossa Majestade como é meu dever, nem mais nem menos.

O Rei, satisfeito com a confissão das filhas mais velhas, dividiu entre elas o poder soberano e a administração dos bens. Para a mais nova, no entanto, além de dizer palavras duras, não deixou um mísero centavo.

As consequências da decisão não foram agradáveis. Basta dizer que uma das cenas mais tristes da peça é a que mostra o rei completamente abandonado, exposto aos riscos de uma forte tempestade, enquanto as herdeiras permanecem insensíveis ao drama paterno.

Quem lê a história fica convencido de que o Rei cometeu um grande erro. E percebe que tudo poderia ter sido diferente se ele tivesse dado ouvidos ao seguinte conselho de Kent, um corajoso nobre da Corte: 

Que pretendes fazer, velho Rei? Julgas que o dever terá medo de falar quando o poder se curva à adulação? A honra tem de ser sincera quando a majestade se perde na loucura. Conserva o teu comando, considera e reflete, freia esse impulso hediondo. Respondo por minha opinião com minha vida; tua filha mais moça não é a que te ama menos; não está vazio o coração cujo som, por isso mesmo, não ressoa.

Para tomar decisões importantes, é necessário buscar aconselhamento. Confiar apenas nas próprias ideias não é seguro.

Como diz o antigo provérbio judaico:

Quem se isola insurge-se contra a verdadeira sabedoria.

Por isso, para qualquer pessoa, em qualquer contexto, vale o que o Bobo da Corte disse ao Rei Lear:

Tu não devias ter ficado velho antes de ter ficado sábio.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Sobre a incrível arte de dizer “não”

Com carinho e alguma insistência, pediram-me para falar sobre a difícil arte de dizer “não”. Eu bem que tentei recusar, mas não consegui. Por isso, nas próximas linhas, falo sobre a difícil arte de dizer “não” e, desde logo, peço desculpas se a abordagem parecer excessivamente teórica. É que não tenho experiência no assunto.

Começo com dois exemplos dramáticos. Em cada um deles, há uma pessoa que não soube dizer “não” e experimentou consequências desastrosas. No primeiro, o convite não foi feito por uma pessoa específica, em um momento específico, mas por um grupo de pessoas, numa sequência de pequenos eventos. No segundo, nem sequer houve convite, mas apenas sugestão interna. De todo modo, em ambos os casos, alguém não teve forças para dizer “não”.

Fantine, personagem de Victor Hugo em “Os Miseráveis”, é uma jovem garota, órfã, pobre, que ganhava a vida em Paris como costureira. Zéphine, Dahlia e Favourite também são costureiras, um pouco mais velhas e mais experientes. Tholomyès, Listolier, Fameuil e Blachevelle são estudantes de Direito, filhos de famílias abastadas, vindos do interior, que, além de eventualmente frequentar as aulas, aproveitam as coisas boas da vida. 

Cada um dos quatro rapazes escolheu namorar uma das quatro moças. Fantine foi a escolhida de Tholomyès, mas, enquanto, para ele, “tudo não passava de um namorico como outro qualquer; ela, porém, amava-o apaixonadamente”.

Depois de um longo passeio de domingo, em que os pares fizeram “todas as loucuras campestres possíveis”, os quatro rapazes, para executar um plano previamente combinado, abandonaram as quatro garotas e, no bilhete de despedida, entre outras coisas, disseram o seguinte:

Amantes queridas! 
Como vocês sabem, temos nossos pais; e isso de pais é algo que vocês não compreendem suficientemente. O código civil, honesto e pueril, chama-os de pai e mãe. Ora, nossos pais choram de saudade e, já idosos, nos chamam; bons velhinhos e bondosas senhoras que são, têm-nos como filhos pródigos, desejam a nossa volta e prometem banquetear-nos com um vitelo gordo. Nós, como somos virtuosos, obedecemos. Quando vocês estiverem lendo esta carta, cinco fogosos cavalos nos estarão levando a nossas mamãs e papás. Levantamos acampamento, como diz Bossuet. Fomos embora, partimos. 

(…) 

É do interesse da pátria que sejamos como todo mundo, prefeitos, pais de família, guardas campestres e conselheiros do Estado. Respeitem-nos, porque nos sacrificamos. Chorem-nos um pouco e substituam-nos depressa. Se esta carta as magoar, restituam-na. Durante quase dois anos, fizemo-las felizes. Não guardem rancor para conosco.

As outras meninas consideram tudo uma grande brincadeira, mas Fantine sentiu o golpe, pois “era o seu primeiro amor; entregou-se a Tholomyès como a um marido, e, coitada, tinha uma filhinha”.

E o pior é que, acreditando nas promessas do namorado, fora levada a “desprezar o humilde ofício que constituía o seu ganha-pão, negligenciara-o e não o pudera recomeçar” e, agora, abandonada pelo amante e pelas amigas, via-se obrigada a fugir da miséria, acompanhada de sua filha.

Nos capítulos seguintes, Victor Hugo descreve as desventuras da pobre Fantine e da pequena Cosette.

Raskolnikov, personagem de Dostoiewski em “Crime e Castigo”, é um estudante de Direito, pobre, solitário, com vários meses de aluguel em atraso, que, de repente, começa a cultivar uma ideia maluca e, ainda sem saber se teria coragem de executá-la, diz a si mesmo:

- Meu Deus, como tudo isso é abominável! Será possível, será verdadeiramente possível que eu… Não, é uma tolice, um absurdo! Como pode me ocorrer ideia tão espantosa? De que infâmias serei capaz? Isso é odioso, ignóbil, repugnante!

O modo como Raskolnikov acaba executando o plano e as consequências que fica obrigado a suportar são os assuntos que Dostoiewski desenvolve no restante da obra.

Eu disse que os exemplos iniciais eram dramáticos. Fantine, envolvida por sugestões das amigas e do namorado, embarcou numa aventura romântica, deixando de lado os compromissos com o trabalho. Raskolnikov, atropelado pelos próprios pensamentos, colocou em prática um plano macabro. Ambos não souberam dizer “não”. E ambos sofreram consequências desagradáveis.

Mas talvez o leitor esperasse um pouco menos de drama. De fato, em algumas ocasiões, dizer “sim” ou “não” pode abrir caminho para as melhores coisas da vida ou para grandes dificuldades. Na maioria das vezes, contudo, os resultados são limitados. Por exemplo, quando dizemos “sim” a uma reunião, perdemos, no máximo, uma ou duas horas de trabalho. Ou quando dizemos “sim” a uma tarefa, aceitamos a criação de um vínculo que consome tempo e energia, mas que cedo ou tarde termina.

Crispin Soares, personagem de Machado de Assis em “O Alienista, é um boticário, morador da vila de Itaguaí, que acabou se tornando confidente do Dr. Simão Bacamarte, famoso médico que se ocupava do tratamento da loucura. Quando o alienista decidiu que a esposa viajaria ao Rio de Janeiro, lembrou-se de pedir ao amigo que também enviasse a mulher, de modo que as duas pudessem fazer companhia uma à outra. Talvez para não estragar a amizade, Crispin Soares aceitou. O objetivo de Simão Bacamarte, na verdade, era se livrar temporariamente de Dona Evarista e, assim, ter mais liberdade para se dedicar aos trabalhos da Casa Verde. Crispin Soares, no entanto, que nunca tinha ficado longe de sua amada Cesária, arrependido, cheio de saudades, disse a si mesmo as seguintes palavras:

- Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr. Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda, aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes “amém” a tudo, não é? aí tens o lucro, biltre!

Agora, sim, temos um caso menos dramático e, portanto, mais próximo das situações cotidianas, de incapacidade de dizer “não”. Muitas vezes, surpreendidos por um pedido ou um convite, acabamos dizendo “sim”, e só depois percebemos a completa falta de sentido do compromisso firmado. Para evitar esse tipo de situação, sugiro que o interessado pense em três perguntas e observe um cuidado adicional. Essas ideias me parecem muito bonitas e, talvez, funcionem na prática. De todo modo, é preciso tentar.

A primeira pergunta é: por que dizer “não”? E a resposta é simples: porque o dia tem 24 horas. Isso mesmo. Como o tempo não permite fazer tudo, é preciso escolher algumas coisas para fazer e outras coisas para não fazer.

A segunda pergunta é: quando dizer “não”? De modo simples, deveríamos dizer “não” aos compromissos que não estivessem relacionados com a nossa missão, com as nossas metas, com os papéis que escolhemos desempenhar. A razão para aceitar uma tarefa pode ser o desejo de não desagradar, a vontade de provar alguma coisa ou o medo de perder uma chance. Mas não deveria ser assim. Quem não tem coragem de definir uma agenda, acaba seguindo a agenda alheia. 

A terceira pergunta é: como dizer “não”? Nada melhor do que falar de forma direta, sem rodeios e sem maiores explicações. Se o destinatário do “não” ficar magoado, é muito provável que ele estivesse mais interessado na tarefa do que em você.

Um cuidado adicional pode ser bloquear horários ou dias na agenda, de modo a não assumir neles qualquer compromisso novo. Isso pode ser especialmente interessante para pessoas que têm dificuldade de pronunciar a palavrinha “não”.