sexta-feira, 18 de maio de 2018

Dê uma chance ao pobre Machado de Assis

Quem foi obrigado a ler Machado de Assis na escola talvez nunca possa gostar de Machado de Assis. Se for esse o seu caso, deixe-me propor uma experiência. Num dia tranquilo, sem a pressão de compromissos urgentes, tome uma edição de O Alienista, que é uma das histórias mais divertidas que já li. Se não tiver o livro, que é sempre o melhor, utilize a versão disponível no Domínio Público, sítio eletrônico do Governo Federal (www.dominiopublico.gov.br). O livrinho tem menos de 40 páginas e pode ser lido em uma ou duas horas. O ideal é fazê-lo olhando o mar, sentado à sombra, tomando água de coco. Ou na montanha, de frente para a lareira, bebendo uma xícara de café. Mas também costuma funcionar em casa, na biblioteca ou na praça. O importante é ler. Mas faça isso devagar, aprecie, sinta o gosto de cada palavra, tal como se faz com um último pedaço de sobremesa. 

Para uma pequena amostra, veja como o nosso autor começa o texto:

As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia. 

— A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.

Bom, depois de fazer a experiência, não deixe de me dizer o que achou das aventuras e desventuras do Dr. Bacamarte e, principalmente, de ter lido o Machado sem tê-lo pendente sobre o pescoço.

Para melhorar a expressão em língua portuguesa, não consigo pensar em nada diferente de ler os clássicos. Certamente que têm seu lugar o estudo rigoroso da gramática, o hábito de escrever com frequência, o auxílio de profissionais especializados e mesmo a colaboração de amigos e colegas. Mas nada substitui a leitura de bons autores.

No prólogo de Como e Por Que Ler, Harold Bloom disse o seguinte:

Lemos, intensamente, por várias razões, a maioria das quais conhecidas: porque, na vida real, não temos condições de “conhecer” tantas pessoas, com tanta intimidade; porque precisamos nos conhecer melhor; porque necessitamos de conhecimento, não apenas de terceiros e de nós mesmos, mas das coisas da vida. Contudo, o motivo mais marcante, mais autêntico, que nos leva a ler, com seriedade, o cânone tradicional (hoje em dia tão desrespeitado), é a busca de um sofrido prazer.

Para o crítico literário estadunidense, esse “sofrido prazer”, articula-se de certo modo com o Sublime e encerra uma possibilidade de “transcendência secular”. 

Em Cristianismo Puro e Simples, C.S. Lewis dirá que essa fome de beleza, que pode ser despertada pela arte, na verdade, não pode ser satisfeita por ela, mas tem a possibilidade de nos remeter à fonte de toda a Beleza. 

Assim, pois, podemos ler para conhecer a nós mesmos, aos outros e ao mundo, para experimentar alguma forma de satisfação interior e, também, para despertar a sede por algo que seja maior que a realidade imanente. Agora, no entanto, sugiro apenas que a leitura, sobretudo dos clássicos, é a melhor forma de promover as habilidades de expressão escrita e oral.

Talvez fosse bom oferecer uma lista de sugestões. Mas isso fica para o próximo texto.

Para além de Marvel e DC

Sou incapaz de distinguir heróis da Marvel de heróis da DC. Periodicamente, sou submetido a sessões de tortura quando meu filho me leva para ver os filmes que eles protagonizam. As histórias são interessantes, mas as batalhas parecem não ter fim. Chego a ficar tonto.

De todo modo, reconheço que é bastante atraente a ideia de ter superpoderes. 

A tentação de conquistar faculdades sobre-humanas aparece elegantemente representada nas várias formas de contar a lenda alemã de Fausto, sobretudo na de Goethe, e também no modo como João Guimarães Rosa compôs o Riobaldo, personagem de Grande Sertão: Veredas.

Mas não é disso que tratarei aqui. Quero fornecer uma lista de habilidades valiosas e, no entanto, plenamente humanas. Para organizá-la, utilizei três critérios.

Em primeiro lugar, pensei nas que fossem acessíveis a um grande número de pessoas. Aprender a patinar no gelo pode ser bom, mas não faz sentido para quem mora num país tropical.

Em segundo lugar, escolhi habilidades atuais, com amplo potencial de colaborar na solução de problemas contemporâneos. Aprender a caçar foi essencial para a sobrevivência da espécie humana, mas já não muda a vida de quem mora perto do supermercado.

Em terceiro, lugar, trabalhei com habilidades abrangentes, que podem ter aplicação em contextos diversos. Aprender a bela língua mirandesa é prova de curiosidade e bom gosto, mas só aproveita a quem se interessa especificamente por uma pequena região do Norte de Portugal.

A lista, que passarei a desenvolver nos próximos textos, tem os seguintes itens: expressar-se adequadamente em língua portuguesa, comunicar-se em língua inglesa, falar em público, agir de modo não violento, trabalhar em equipe, resolver conflitos e utilizar novas tecnologias. 

A composição é provisória e ficaria feliz se pudesse receber sugestões de aprimoramento. O essencial é identificar habilidades que, uma vez obtidas ou quando adequadamente desenvolvidas, permitam que o interessado faça melhor as tarefas atuais ou fique melhor preparado para novas oportunidades.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Você já leu todos esses livros?

Na segunda edição das Poesias Completas, de Machado de Assis, publicada em 1902, no lugar em que o autor tinha escrito “cegara o juízo”, o funcionário da tipografia, involuntariamente, trocou o “e” por um “a”, produzindo um defeito editorial nada agradável.

Numa edição inglesa da Bíblia, feita em 1631, o tipógrafo teve a ideia de brincar com o texto do sétimo mandamento, simplesmente suprimindo a palavra “não”. Como tinha de ser, os exemplares que traziam o comando “Cometerás adultério” foram recolhidos e o profissional foi condenado ao pagamento de elevada quantia em dinheiro.

A impressão de A Arte de Furtar, do Padre Antônio Vieira, feita em 1821, a pedido de Hipólito da Costa, tinha a seguinte dedicatória: “Oferecida ao Ilmo. Sr. S.F.R. Targine, ex-tesoureiro-mor do erário do Rio de Janeiro”. A associação entre o título do livro e o cargo do homenageado já seria suficiente para revelar as verdadeiras intenções do jornalista. Para não deixar dúvidas, no entanto, ele acrescentou a seguinte frase: “Qual pirata iníquo dos trabalhos alheios feito rico”.

Flor de Sangue, romance pouco expressivo de Valentim Moraes, publicado em 1897, trazia uma errata absolutamente singular, que dizia: “à página 285, quarta linha, em vez de “estourar os miolos” leia-se “cortar o pescoço”.

Essas e outras historinhas estão em O Bibliófilo Aprendiz, delicioso guia de Rubens Borba de Moraes, especialmente útil para quem deseja colecionar livros.

Das orientações do autor, algumas podem ser indicadas aqui.

Primeiramente, o interessado escolheria um gênero de livro a que se dedicar. Quem compra tudo o que vê pode construir “uma vasta livraria”, mas nunca terá uma verdadeira coleção. Os dois caminhos mais naturais são a escolha de um assunto ou a escolha de um autor. Assim, pensando nos em próprios meus interesses, seria possível colecionar livros de Direito Civil, publicados no Brasil Imperial, ou livros de Clovis Bevilaqua, importante jurista brasileiro.

Em segundo lugar, conceberia um plano sobre o tipo de coleção que se deseja, sendo necessário estudar o assunto com o máximo cuidado.

Uma terceira sugestão seria restringir a coleção aos meios que possui. A falta de espaço, por exemplo, pode ser um grave problema. E a de dinheiro, também.

De todo modo, o mais importante é lembrar que os estudiosos podem e devem organizar sua própria biblioteca, compatível, é claro, com os recursos disponíveis.

E à medida que o trabalho for avançando, o bibliófilo ouvirá, cada vez com mais frequência, a seguinte pergunta: Você já leu todos esses livros?

Se não puder respondê-la com brandura e educação, explicando que ninguém lê todos os livros de sua biblioteca, é porque ou não leu nada de valioso ou leu mas não chegou a aprender. 

terça-feira, 15 de maio de 2018

Uma historinha para quem não gosta de ler

Sei de pessoas que aprendem melhor ouvindo do que lendo. Frequentam aulas, assistem vídeos e escutam palestras. E são bem-sucedidas nas mais diversas atividades.

Também conheço pessoas que não se lembram de livros nos momentos de descanso e lazer. Gostam de aparelhos eletrônicos, produtores de imagens, sons ou das duas coisas ao mesmo tempo, que podem até exibir textos, mas sempre de modo fragmentado e secundário. E essas pessoas não parecem especialmente tristes.

Não acho que o hábito de ler seja essencial para todo tipo de aprendizado, muito embora o seja para alguns. E também não acredito que seja fundamental para o repouso ou a felicidade.

Então, o que dizer para quem não sente falta dos livros?

Talvez seja melhor simplesmente não dizer nada. Mas se você leu até aqui, pode ser que tenha paciência para uma pequena história, que me foi contada pelo pai de um amigo de infância. É uma historinha simples, despretensiosa, dessas que os sertanejos declamam ao redor da fogueira, em noites de lua cheia.

Um homem de condição humilde, presenteado com um passeio de navio, teve o cuidado de levar consigo boa provisão de água e farinha. No momento das refeições, tão logo escutava a convocação, recolhia-se a um lugar reservado, para somente então comer e beber, na máxima simplicidade. Enquanto isso, nos salões bem decorados, os outros desfrutavam do bom e do melhor. Ele, no entanto, consolava-se ao pensar na fortuna que tudo aquilo devia custar. Consciente de sua situação econômica, nem lhe ocorreu perguntar o preço de uma omelete ou de uma limonada. Foi só depois de concluir a viagem, quando recebia as malas no porto, é que descobriu que a alimentação estava incluída no valor da passagem.