domingo, 30 de julho de 2017

Cinco ideias para o início do semestre

Os ciclos funcionam como elementos de renovação e esperança. Depois do inverno, primavera. Depois da noite, dia. E depois de um semestre pouco produtivo, pode surgir um significativamente melhor.

No curso de Direito, são dez semestres letivos e é bem possível que uns sejam mais bem-sucedidos que outros. Melhor do que lamentar as deficiências dos períodos anteriores, é pensar em estratégias para corrigi-las. Melhor do que repetir as falhas de sempre, é experimentar coisas diferentes.

Então, para ajudar na tarefa de buscar novos caminhos, sugiro cinco ideias, que não são nada extraordinárias, mas podem servir como ponto de partida para a reflexão e a prática.

1. Decida como utilizar os aparelhos eletrônicos

Estudo conduzido por pesquisadores da UFMG, publicado em maio de 2017, sugere que a dependência de smartphones atinja um terço dos estudantes da instituição. O uso dos aparelhos em sala de aula, muito embora ajude na consulta de informações preciosas, frequentemente concorre para a dispersão. É preciso decidir como utilizá-los. Fazer boas escolhas nesse campo pode melhorar muito o aproveitamento.

2. Participe de um evento acadêmico

Na maioria das vezes, a sala de aula me parecia árida demais. Devo aos congressos e palestras grande parte da motivação para estudar com mais afinco. Nesses ambientes, tive oportunidade de ouvir Caio Mário, Silvio Rodrigues, João Baptista Villela, Humberto Theodoro, Dalmo Dallari e outros autores que eu admirava muito. Dos inúmeros eventos organizados a cada semestre, pode ser interessante participar de ao menos um.

3. Estude uma disciplina de formação básica

A filosofia abre horizontes. A história põe um chão firme debaixo dos nossos pés. Experimente avançar numa dessas disciplinas. O estudo do Direito pode ficar muito mais interessante. Sugiro, como ponto de partida, a História da Filosofia, de Giovanni Reale e Dario Antiseri, que é bem extensa, mas pode ser lida e estudada com calma, ao longo de todo o curso.

4. Invista no desenvolvimento de uma habilidade

É bom que profissionais do Direito saibam falar em público, trabalhar em equipe e escrever com clareza. Pode ser interessante identificar as habilidades menos consistentes e procurar estratégias de aprimoramento. Para quem não gosta de falar em público, por exemplo, pode ser interessante integrar uma sociedade de debates ou fazer um curso de teatro. Todas as outras habilidades também podem ser desenvolvidas.

5. Leia um clássico da literatura jurídica

Se você ainda não se apaixonou pelo Direito, leia Oração aos Moços, do Ruy Barbosa, ou A Luta pelo Direito, do Ihering, e depois venha conversar comigo. Duvido que você ficará do mesmo jeito.

De todo modo, faço votos de que você tenha um bom semestre. E que, no mínimo, tenha a dignidade de cometer erros diferentes. 

Um forte abraço!

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Balanço de final de semestre: em defesa do método menos eficaz

Ao final do semestre, estamos todos cansados, professores e estudantes. Mesmo assim, considero importante avaliar o que deu certo e o que pode melhorar. 

Sempre peço aos meus alunos a indicação de pontos positivos, pontos negativos, sugestões e observações, e cuido de esclarecer que o formulário é de preenchimento opcional e pode ser devolvido sem identificação.

Acabei de ler os resultados e gostaria de compartilhar as impressões iniciais.

Antes, preciso dizer como planejei o sistema de avaliação. Basicamente, pedi a elaboração de um plano individual de estudos, de um relatório parcial do desenvolvimento dos trabalhos e de um relatório final. Deixei claro que a nota não dependia do conteúdo dos documentos, mas apenas da realização das atividades a tempo e modo. 

Meu principal desejo era tirar a avaliação do centro do processo de ensino e aprendizagem e deixar que ele se desenvolvesse de forma mais livre e autêntica. Pode parecer uma ideia óbvia, mais eu queria criar condições para que os alunos estudassem para aprender e não para fazer provas. Estou ciente de que foi uma opção radical. Mas creio que tinha de ser assim. Se tivesse incluído uma única prova, dessas utilizadas para medir conteúdo, a experiência ficaria comprometida.

No fundo, o que estava em jogo era autonomia dos estudantes. 

E o resultado, a meu ver, sugere a realização de três movimentos.

O primeiro é o elogio da liberdade. Em geral, os estudantes foram enfáticos na indicação de como se sentiram bem com a liberdade de conduzir o próprio aprendizado. As seguintes frases, extraídas dos formulários de avaliação, podem confirmar a ideia:

“A liberdade nos permitiu montar nosso próprio programa de estudos e a autonomia para efetivá-lo no nosso tempo e do nosso modo”.

“Tive liberdade para conduzir meu próprio aprendizado e, diferentemente de outras matérias, não senti que seria consumida pela pressão”.

“O método adotado foi muito bom, fugindo da maneira tradicional das aulas, e permitindo ao aluno ir em busca do que ele realmente quer, sem força-lo a nada”.

O segundo movimento é a crítica da liberdade. Os estudantes foram igualmente enfáticos na demonstração dos perigos que a liberdade proporciona, como se pode ver nas seguintes frases:

“Tive dificuldades de organizar meus estudos, pois não estou acostumado com essa liberdade”.

“A liberdade também é perigosa, pois corremos o risco de nos acostumar com a falta de prazos e restrições promovidas pelas provas”.

“Senti falta de avaliações tradicionais que têm a função de nos fazer estudar a matéria com mais dedicação”.

“Acho importante ter provas, pois, querendo ou não, a gente acaba estudando mais quando tem avaliação”.

“A falta de cobrança em termos de pontuação gera pouco estímulo para os estudos em casa, principalmente em comparação com outras matérias mais exigentes”.

“Falta de prova deixa o aluno vagabundo”.

O terceiro movimento é o impacto da liberdade. Nos dois anteriores, os sujeitos olham para a liberdade e agem sobre ela, para destacar sua beleza e riscos. Neste último, ao contrário, a liberdade age nos sujeitos.

A experiência da liberdade proporciona, inicialmente, sofrimento. O sujeito, sabendo que podia fazer qualquer coisa, sofre quando percebe que não fez tudo o que desejava. O fracasso, quando verdadeiramente percebido, produz dor, tristeza, arrependimento.

Mas a experiência não termina aí. A liberdade, ao proporcionar sofrimento, permite conhecer os próprios limites, refletir sobre eles, e sair em busca de superá-los. E cada conquista, quando livremente construída, tem valor certo e verdadeiro. As seguintes frases podem comprovar minhas impressões:

“Infelizmente, sempre fomos obrigados a estudar e esta matéria buscou quebrar isso. Entretanto, senti que não consegui acompanhar essa nova perspectiva”.

“Sinto que meu aproveitamento não foi muito bom por falta de comprometimento com meu próprio plano de estudos”.

“A metodologia mostra minhas deficiências como estudante, de modo que, agora, posso trabalhar para saná-las”.

“Eu tenho dificuldades de estudar de forma tão autônoma. Acho que é um problema meu mesmo. Mas estou melhorando”.

“O processo de elaborar o plano de estudos foi enriquecedor à medida que possibilitou autoconhecimento, um termômetro das minhas capacidades e limitações.

“Ao fugir da maneira tradicional das aulas, foi possível refletir sobre meus pontos fortes e pontos que devem ser melhorados”.

“Não ter provas me forçou a ser mais responsável quanto ao estudo e estudar por prazer e não por obrigação, ao contrário das demais matérias”.

Ao final, a análise dos dados me permitiu pensar sobre o modo como estamos construindo o nosso sistema de educação.

E me faz lembrar de uma pergunta, feita no início do semestre, logo depois da apresentação do plano de ensino. Um aluno, muito comprometido com o curso, queria saber se eu considerava que o método proposto era mais eficaz do que as formas tradicionais de conduzir o processo pedagógico. O temor tinha sentido. O método não era eficaz. E o pior é que eu sabia disso. 

De fato, parece que os alunos estudaram pouco. Ficaram mais ocupados com as outras matérias. Guardaram apenas uma pequena parte do que foi discutido.

Mas sabem o que eu acho? Penso que está tudo bem. Viver é muito perigoso.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Educação de crianças e educação de adultos

Um assunto tem me perseguido nas últimas semanas. A primeira vez que ouvi sobre ele foi numa apresentação da Elaine Cristina da Silva, aluna do mestrado em Direito da UFMG. Trata-se da tentativa de comparar professores que cuidam da educação de crianças e professores que cuidam da educação de adultos.

Professores da educação infantil ensinam. Professores universitários, também. Professores da educação infantil esperam que seus alunos aprendam. Professores universitários, também. Professores da educação infantil avaliam. Professores universitários, também.

Mas em qual desses dois contextos, o da educação infantil ou o da educação universitária, é mais provável que a avaliação esteja desconectada do processo de ensino e aprendizagem? Ou que seja utilizada para obrigar estudantes a estudar determinados assuntos? Ou para manter o interesse dos estudantes nas aulas e nas demais atividades? Ou para reforçar a autoridade do professor? Ou para punir estudantes que não tenham se comportado bem?

Em qual desses ambientes é mais provável que a avaliação seja percebida como um fim em si mesma? Ou como algo mais importante que o aprendizado?

Enfim, em qual desses ambientes é mais provável que estudantes sejam tratados como seres incapazes de agir por conta própria?

terça-feira, 20 de junho de 2017

Ponha-se no seu lugar!

Para muitos estudantes, estar numa universidade de ponta é algo tão natural quanto passar férias em Orlando ou frequentar o Minas Tênis Clube. Trata-se de percorrer um caminho conhecido, ter a sensação de estar em casa, fazer o mesmo que já havia sido feito por avós, pais, irmãos, tios e primos.

Para outros, no entanto, a conquista de um lugar na universidade é notícia que se recebe com espanto. Familiares, amigos e colegas experimentam uma nova forma de alegria. De tão extraordinária, a vitória merece ser divulgada e celebrada. 

O encontro de pessoas assim tão diferentes pode ser fonte de inesgotável energia para o ambiente universitário. A inovação costuma florescer em meio à diversidade. Mas o potencial de produzir sofrimento também está presente. É preciso, portanto, reconhecê-lo e trabalhar para reduzir o seu alcance.

Um exemplo pode deixar as coisas mais claras. Para quem estudou inglês em ótimas escolas, conheceu muitos países, e sempre teve incentivo para aprender línguas estrangeiras, pode parecer estranho que haja estudantes universitários que só consigam ler textos em português. Por outro lado, quem não tem a habilidade desejada pode se sentir constrangido, envergonhado e até mesmo culpado. Mas a verdade é que as pessoas carregam histórias e as histórias precisam ser contadas.

Eu sou professor universitário, fiz mestrado e doutorado, e gosto muito do ambiente acadêmico. Mas a primeira vez que pisei numa universidade foi para fazer o vestibular. Como a maioria dos meus amigos, não queria nada além de ser jogador de futebol. Posso contar nos dedos os livros que li na infância e na adolescência. Na minha cidade, não tínhamos acesso a bibliotecas, livrarias, cinemas ou teatros. Fiz quase toda a minha trajetória em escolas públicas. Até o final do ensino médio, imaginava que faria um curso superior não muito longe da minha casa e que, depois, voltaria para ajudar nos negócios da família.

Quando fui aprovado para o curso de Direito na PUC Minas, pensei que era muito mais do que merecia. Para minha felicidade, fiz inscrição para o turno da noite e pude conviver com colegas mais maduros e com trajetórias diversificadas. Não tive dificuldade de adaptação e sempre me senti bem acolhido. Meus pais puderam me oferecer todo o suporte de que precisava. Sempre recebi apoio e incentivo de amigos queridos. Fiz todo o curso com alegria e entusiasmo e tive muitas oportunidades de crescimento.

Mas nem tudo foi fácil. Em muitos momentos, sentia que estava em território desconhecido. Para dizer a verdade, ainda hoje passo por situações de desconforto.

Assim que me mudei para Belo Horizonte, vindo do interior, fui muitas vezes corrigido por meu modo de falar. Aprendi que não se deve dizer que a taça está “meia” cheia, mas “meio” cheia; que não é correto falar que o professor pediu para “mim” fazer a tarefa, mas para “eu” fazer. Hoje, os equívocos podem parecer óbvios, mas não eram naquele momento. Eu falava simplesmente do jeito que havia aprendido. 

No que se refere à produção de textos, ainda no primeiro período do curso, o saudoso professor Jaime França me devolveu uma redação com várias correções. Uma de que me lembro com muita clareza foi a que indicava o erro de escrever “seje” ao invés de “seja”. Sim, eu cheguei à universidade com essas e outras falhas em minha formação básica. 

Também me lembro de que, no meu vocabulário, não constavam palavras que meus colegas usavam com naturalidade.

O caso mais engraçado se deu quando eu fazia estágio na Assessoria Jurídica do Banco do Brasil. Depois do intervalo do almoço, uma colega me perguntou se eu poderia lhe emprestar o “dentifrício”. Como não sabia do que se tratava, disse simplesmente que não tinha. Ela fez cara de quem não gostou. E não era para menos, pois eu acabara de guardar na gaveta uma pequena bolsa com os itens de higiene bucal. A questão é que eu jamais tinha ouvido aquela palavra. Eu conhecia “pasta de dente” e “creme dental”, mas nunca tinha ouvido falar em “dentifrício”. Claro que eu poderia ter perguntado. Mas tive vergonha e acabei fazendo papel de egoísta.

Numa outra ocasião, os colegas me chamaram para comer “trufas” e eu, com medo de não saber lidar com comidas complicadas, fui logo dizendo que não gostava. Eles acharam estranho, mas não insistiram. Só muito depois é que descobri que o convite era para comer chocolates.

Em muitas ocasiões, fiquei constrangido por achar que não sabia me comportar à mesa. Demorou um pouco, mas acabei desistindo de tentar imitar os colegas. 

Mas seguramente o item que melhor simboliza minha falta de preparo para o ambiente acadêmico é a dificuldade com os outros idiomas. Passei por quase todas as franquias de inglês de Belo Horizonte e não aprendi quase nada. É claro que eu já poderia ter superado isso. Mas o fato é que ainda não superei. Não consigo me comunicar em inglês e em nenhuma outra língua estrangeira. Com alguma dificuldade, consigo ler textos em espanhol e italiano. E é só. 

Então, depois de contar um pouco da minha história, volto ao início da conversa. Há pessoas que se sentem naturalmente à vontade no ambiente universitário. Outras se sentem desconfortáveis. E ainda outras se sentem como se não devessem estar ali. E é pra gente desse tipo que eu queria dizer: ponha-se no seu lugar! E o seu lugar é aqui, na universidade, do seu jeito, com a sua cara, no seu tempo, no seu ritmo.